• Nenhum resultado encontrado

Capítulo III – O Douro na Obra de António Cabral

1. A Paisagem Cultural Duriense

A “Convenção do Património Mundial, Cultural e Natural” foi adotada pela UNESCO em 1972 e vinte anos depois, em 1992, surge a categoria de Paisagem Cultural com o objetivo de distinguir o património que resulta da interação entre o homem e a natureza.

Neste âmbito, a Região Demarcada do Douro, criada por lei de 1756, pelo Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo, no reinado de D. José I, é confirmada em 1921, após algumas alterações ao longo da sua história. Esta região é também conhecida por “País Vinhateiro”; situada no nordeste de Portugal, localiza-se na bacia hidrográfica do Douro e é cercada por montanhas que lhe concedem características mesológicas e climáticas peculiares. Desta forma, o Alto Douro Vinhateiro (ADV) considerado com “Valor Universal Excecional” (VUE) foi classificado pela UNESCO, em 14 de dezembro em 2001, como Património da Humanidade na categoria de Paisagem Cultural Evolutiva e Viva.

Esta área, com cerca de 250.000 ha, estende-se ao longo do vale do rio Douro e dos seus afluentes e abrange concelhos dos distritos de Vila Real, Bragança e Viseu. A região tem em toda a sua área tradições, muitas vezes, em volta de “misticismo”; o contexto cultural e histórico, o património arquitetónico e a natureza que a envolve levou Ramos e Fonseca a proferirem que

a inscrição do ADV na lista do Património Mundial da Unesco, como ato voluntário do Estado Português, comporta em si mesmo um alcance: um bem que é do mundo; um objetivo: a excelência; uma ambição: a qualidade; e uma exigência: a durabilidade (Ramos & Fonseca 2013: s/p).

Como confirmam, Bianchi de Aguiar & Dias, a paisagem do ADV classificada pela UNESCO é a área “mais representativa dos valores culturais e naturais da Região Demarcada do Douro (RDD), tanto pela quantidade e qualidade reconhecida de produção de vinho, como pela variedade e concentração de património arquitetónico e cultural da região” (Bianchi-de-Aguiar & Dias 2000: s/p).

A combinação existente entre a natureza monumental do vale do rio Douro, através das encostas íngremes e solos pobres e acidentados com a ação ancestral e contínua do Homem, aliada à adaptação do espaço às necessidades agrícolas de tipo mediterrânico modelam a paisagem da região, permitindo, assim, criar um ecossistema de valor único.

137 A paisagem duriense é assim descrita:

A configuração desta paisagem é a de um vale encaixado e bastante declivoso, quase na sua totalidade assente num substrato sobretudo xistoso, caracterizada pela escassez de solo fértil e de água. O clima, de caracter mediterrânico, protegido dos ventos atlânticos pelas serras do Marão e Montemuro, é um clima agreste, com grandes variações de temperatura e com precipitações que variam, de jusante para montante, entre 1000mm a menos de 400mm por ano, respetivamente. Correndo o rio Douro no sentido Este-Oeste, as diferenças da exposição solar entre as suas margens são algo significativas, fazendo com que a encosta norte seja mais soalheira e a margem sul mais fresca e húmida (Brandão 2014: 6).

Esta paisagem é caraterizada por Miguel Torga no Diário XIII como o “Doiro sublimado” e “prodígio”, considerando a paisagem que se avista de S. Leonardo da Galafura um “excesso da natureza”; no mesmo registo do diário de 8 de abril de 1977, Torga continua:

Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis da visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a refletir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta (Torga 1986: 176-177).

A par de Miguel Torga, António Cabral é dos autores que melhor abordou esta paisagem transmontano-duriense. Nascido e criado em pleno coração duriense, Castêdo do Douro, toda a região de Trás-os-Montes e Alto Douro foi fonte de inspiração na sua vasta obra literária e atividade cultural.

A beleza ímpar da paisagem é marcada pelos traços culturais da região como o rio Douro, as vinhas, as quintas, as capelas e os miradouros, os castelos, os mosteiros da Ordem de Cister, sinais reais que a visão de Cabral herdou e registou possibilitando a sobrevivência das memórias do território. António Cabral descreve a paisagem como o “paraíso do vinho e do suor”, uma paisagem imposta pela própria imponência e excelência dos seus montes e vales, gentes, história e vinhos; uma paisagem cultural evolutiva, viva e com caráter e identidades singulares que o escritor acolheu e pauteou através das suas palavras como um lugar mítico do mundo.

A obra multiforme de António Cabral revela profundas marcas da sua aldeia natal, Castêdo do Douro, Alijó, mas integra, também, as incessantes viagens do escritor através de toda a região, numa espécie de peregrinação interessada e feliz. A região de Trás-os-

138 Montes e Alto Douro surge decalcada de forma minuciosa, assente na bravura dos homens que nela vivem, uma “pátria” onde o homem e natureza se cruzam e não vivem separados. A descrição da região, que se denota na obra de Cabral, é realizada pelo sentimento de um homem ativo, cidadão interveniente, politicamente comprometido, sempre voltado para a problemática da cultura, com especial desvelo pela cultura de raiz popular. Assim, os seus textos refletem, em cada linha, a sua performance na aprendizagem da terra, aquela que lhe foi legada pelos seus pais, pelos seus conterrâneos e que está espalhada na sua obra, enquanto etnólogo, animador cultural, associativista, colaborador de periódicos, ensaísta, poeta, guardião assumido da herança cultural.

A terra, a região do Douro, será desde sempre a marca que o autor se propõe defender, enaltecendo-a através das suas palavras, a sua arma de eleição. No poema intitulado “Quatro poemas sobre a circunstância”, incluído em Antologia dos Poemas Durienses, o poeta expõe, de forma clara, o seu entendimento pela terra e a importância da voz para a cantar:

Eu sou eu e tu

e a terra que nos define e exprime. (…)

Nós, com Voz, Sem ela,

Como arder uma vela (Cabral 1999: 73)

Esta paixão de desbravar paisagens e de as revelar ao mundo enquadra António Cabral no seio daqueles que se intitulam como geófagos, assim descritos por Miguel Torga numa passagem do seu Diário VIII:

Sou na verdade um geófago insaciável (…). Devoro planícies como se engolisse bolachas de água e sal, e atiro-me às serranias como à broa da infância. É fisiológico, isto. Comer terra, é uma prática velha do homem. Antes que ela o mastigue, vai-a mastigando ele (Torga 1960: 149).

O escritor em estudo, de uma forma simples, utiliza vocábulos telúricos que o ajudam a transmitir e religar, de obra para obra, as suas posições, ainda que inicialmente pareçam subjetivas. Esta devoração singular dos inúmeros percursos que se desenham na sua escrita dá a conhecer uma paisagem cultural duriense que deixa a descoberto sítios sublimes repletos de história.

139 Esta paisagem cultural duriense foi motivo de preocupação por parte de António Cabral que, como colaborador do jornal Notícias de Vila Real, na edição 218, em 2005, escreve:

O atraso no reconhecimento oficial da região de Trás-os-Montes e Alto Douro é uma condicionante de vulto, como o é a falta de um organismo verdadeiramente coordenador das tarefas de velar pela autenticidade da Paisagem Cultural Duriense que a UNESCO em boa hora classificou (Cabral 2005: s/p).

António Cabral, no mesmo artigo, assinala que é necessário zelar pela autenticidade dessa paisagem pois, devido à descrença na agricultura e ao risco de ermamento, pode começar a desfigurar-se, uma vez que já há quem não vindime a totalidade das uvas, deixe as culturas a monte e abandone os olivais. Desta forma, Cabral incitava à criação do Museu do Douro, o que aconteceria em 23 de Março de 2006, reconhecendo que seria uma mais-valia para a preservação do património material e imaterial representativos da identidade, da cultura, da história e do desenvolvimento da região do Douro.

O promotor de diversos encontros entre escritores e jornalistas de Trás-os-Montes e Alto Douro, que tinham como objetivo debater a Cultura Popular e o Desenvolvimento Regional, lançava um repto às câmaras municipais: «lutem pela oficialização de uma região transmontana-duriense una e indivisível» (Cabral 1985: 195).

Para António Cabral, a paisagem cultural duriense não se restringe a um único produto patrimonial e, repetidamente, nos seus textos está bem patente a panóplia de elementos que a constituem:

solares, lagares típicos, contos e lendas, sequeiros de figos, castros e castelos, ermidas, pombais, ruas e casas típicas de xisto, jogos populares, teatro popular, feiras e romarias, escritores e etnógrafos, cancioneiro… (Cabral 2005: s/p).

Velhos barcos (…) paredes se socalcos com fiadas de buracos a meio (de que poucos já restam), (…) castros celtas, antas, velhas pontes e vias romanas, etc. (Cabral 2002: s/p).

Refira-se que o escritor partia à descoberta deste vale e dos concelhos que o envolviam através das várias rotas organizadas. Porém, qualquer que fosse o itinerário escolhido, uma viagem pela região garantia-lhe muitas surpresas e encantos, fosse no denominado Baixo Corgo, no Cima Corgo ou no Douro Superior. A crónica “Paisagem Cultural Duriense”, editada em 2003, no jornal de Notícias Vila Real, comprova o referido;

140 um “brasileiro” que chegasse à sua aldeia, sentia-se no “Reino da Glória”, pois as amendoeiras ficariam na memória mormente se estivessem em flor, adiantando que estas “passam um recibo cândido à terra, [são] página acesa de iluminuras, [que] contrastam os olhos com tanta superfície” (Cabral 1997: 79). As amendoeiras em flor marcam as paisagens da região e são um forte atrativo turístico, daí, na mesma crónica, esclarecer que as amendoeiras “dão-se bem por todo o Alto Douro, a não ser nas zonas mais frias, que lhe afetam o florescimento, e nos sítios muito chegados ao rio e que o sobreaquecimento contraria a frutificação” (Cabral 2003: s/p). António Cabral, conhecedor notável das características geográficas e climatéricas da região, dava autênticas “lições” de geografia nos textos/crónicas que escrevia. Por exemplo, Alijó, o seu concelho, tem cenários que ilustram bem a paisagem cultural duriense. O autor dá-lhe, numerosas vezes, relevo por se tratar uma das zonas mais férteis e bonitas de todo o vale, mas também por se tratar da terra que o viu nascer. Segundo o autor, Alijó é “um plátano bordado de dúvidas / e o Cerro da Cunha, suave grilo cósmico, ergue o seu diamante, de giesta em giesta” (Cabral 1999: 114).

Resende é, também, referência no contributo de uma paisagem cultural ímpar, pois geograficamente debruça-se como se fosse um patamar sobre o rio Douro. Terra panorâmica de solo fértil e águas prodigiosas, António Cabral, no poema “ De Lamego a Resende”, ordena o seguinte:

De Lamego a Resende

Enchei os olhos nas verdes palavras. O que tem olhos e não sabe ler Dificilmente o desculparei. Vede estas vinhas!: descem,

E as árvores, como se transbordassem. (…) (Cabral 1999: 53).

Porém, ironicamente e numa espécie de diálogo com o leitor, no poema “Azulejos”, ainda deixa patente:

Se entre Lamego e Resende A vista não te agradar, Desce o rio e lava os olhos,

Pois andas a precisar (Cabral 1999: 174).

Os diversos concelhos da região são, portanto, a sua fonte de inspiração, é neles que encontra matéria-prima para o desenvolvimento da sua arte poética e da sua luta, em

141 geral, em prol da cultura das gentes do Douro. António Pires Cabral, na coleção Viajar Com… dedicada aos escritores da região, atesta:

Mas, se tivéssemos de escolher um espaço de inspiração por excelência – esse espaço seria o Douro, sobretudo a partir desse livro de extraordinária força que são os Poemas durienses. É certo que já antes em O mar e as águias, assim como em Falo-vos da montanha e a Flor e as palavras, já aprece o tema do Douro num ou outro poema. Mas os Poemas durienses são uma autêntica explosão de amor pelo Douro (Pires Cabral 2009: 27).

A paisagem do Baixo Corgo, a do Cima Corgo e a do Douro Superior é seguramente, para António Cabral, um atrativo necessário à sua ligação à terra e um álbum de imagens que o dominaram e o tornaram um “Orfeu rebelde” na luta contra a condição desumana de todos os durienses que nela travaram as lutas diárias de sobrevivência.