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Capítulo III – O Douro na Obra de António Cabral

2. As “figuras” durienses

2.4. Quintas vinhateiras

Autores como Alex Liddell defendem que “o aparecimento do termo quinta surgiu na Idade Média, quando as terras eram entregues pela Coroa aos agricultores a troco de uma renda ou de um tributo de um quinto da sua produção, uma quinta parte” (Liddell apud Moniz 1995: 221), outros, como Alberto Sampaio, sustentam que “o vocábulo quinta procede do português arcaico quintã, que juntamente com outras formas de propriedade, como o casal, derivou da desagregação da villa romana, sendo composta por habitações, pomares, terras, soutos, vinhas, etc” (Sampaio 1903: 62). Como confirma Vasconcelos,

a origem deste vocábulo quinta afirma que tinha, em português arcaico a forma de quintã, que a sua origem é também obscura, mas derivaria acaso da agrimensura romana e que na nossa Idade Média, significou uma subunidade agrária dentro da “Villa” (rústica), provida de uma habitação, com vinha, pomar, etc (Vasconcelos 1980: 278).

Atualmente, a palavra quinta sugere que se trate de uma casa de campo mas segundo Maria Carolina Pinho, no contexto do Douro, “uma quinta é uma área de terreno que tanto pode ser uma modesta parcela como uma extensa propriedade, podendo ter, ou não, casa de habitação” (Pinho 2012: 13).

As quintas do Douro evocam, desde há séculos, uma posição estratégica na sociedade, na economia e na cultura da região vinhateira, pois enquanto unidades de povoamento, de exploração agrícola, de poder social ao longo da história da região

163 duriense contribuem para um riquíssimo e plural legado patrimonial, tanto material como imaterial, o que as torna, hoje, componentes centrais do território classificado como Património da Humanidade. Como refere Gaspar Martins Pereira,

a sua estrutura, como unidades de exploração vitícola integrada (reunindo vinhas, centros de vinificação e armazenagem de vinhos, casa de proprietário e/ou caseiro e trabalhadores; por vezes, também, azenha de azeite, capela, etc.), a dimensão frequentemente média ou grande (em alguns casos, centenas de hectares, como nas quintas dos Frades, Carvalhas, Ventozelo, Vesúvio, Vale Meão, etc.) e a vocação de comercialização dos respetivos vinhos conferem às quintas um lugar socioeconómico estratégico na viticultura duriense (Pereira 2014: 10).

Reitere-se que até ao século XVIII as quintas do Douro eram propriedades arrendadas às ordens monásticas e tinham como principais culturas os cereais, contudo os pequenos agricultores que viviam da agricultura de subsistência juntavam as suas produções para produzir vinho num lagar comum. Como refere o estudo de Teixeira, a quinta do Monsul e a quinta dos Frades que pertenciam ao Mosteiro de Santa Maria de Salzedas e a quinta do Mosteiro e a quinta do Convento de São Pedro das Águias que pertenciam ao Mosteiro de São João de Tarouca, realizavam a exploração indireta, ou seja, as ordens monásticas “entregavam as quintas e os casais a rendeiros que se encarregavam de enriquecer e trabalhar os seus campos” (Teixeira 2010: 75). Ainda segundo Teixeira com a extinção das ordens religiosas em 1834, “as suas propriedades foram adquiridas pelos burgueses mais abastados, que também compram os bens da velha aristocracia” (Teixeira 2010: 75).

A prosperidade do vinho do Porto desde meados do século XVIII levou ao aumento do número de quintas em toda a região do Douro Vinhateiro, estruturas habitacionais que se organizavam em função do trabalho, refletindo a hierarquia laboral. Segundo Fauvrelle, verificava-se nalgumas quintas uma estratificação dos espaços de acordo com “a categoria do trabalhador, reservando-se aos operários especializados, como podadores, enxertadores, artistas e tanoeiros, espaços próprios e individuais” (Fauvrelle 2001: 89). As quintas sempre se serviram das mãos dos trabalhadores para realizar o serviço diário, mas com o passar dos tempos a mecanização fez diminuir a necessidade do pessoal permanente levando à contratação de empregados à jorna ou em regime de empreitada nos grandes trabalhos agrícolas, como as plantações, as podas, as cavas as vindimas, a construção e reparação de paredes dos socalcos. O trabalho à jorna era uma oportunidade de trabalho para os pequenos lavradores que se deslocavam muitas vezes às

164 terras vizinhas para auferirem de rendimentos ocasionais. Pereira acrescenta que “a par da oferta de trabalho, na viticultura tradicional duriense, as quintas absorviam também parte da produção dos pequenos e médios lavradores vizinhos” (Pereira 2014: 12).

A quinta típica era formada pela zona de habitação (a casa do proprietário, a casa do caseiro, a cozinha do caseiro, os cardenhos), a adega e armazém e a capela. Pinho alude ainda que

devido às características topográficas da região é muito comum o edifício repartir-se em dois socalcos tendo a vantagem de facilitar a armazenagem do vinho visto que o vinho corria por gravidade da adega para o armazém” Mesmo quando a quinta não possuía lagares, a casa de habitação era construída por cima do armazém (Pinho 2012: 15).

Durante o século XX, as quintas dos exportadores caraterizavam-se por terem um laboratório, um escritório e pela modernização na produção do vinho através do uso de cubas de vinificação de cimento ou de aço inoxidável.

Relativamente a esta hierarquização social António Cabral escreve uma quadra que revela esta diferença social:

Tens uma quinta no Douro Eu nem um quintal ao menos. Será que na tua ideia

Somos aquilo que temos (Cabral 1999: 173).

Cabral, na sua obra, deixa patente que na região do Douro as quintas são constituintes da paisagem; “o paraíso dos montes sobre os montes / agressivos mas belos” (…) “montes que se dobram e desdobram como ribombos, / abrindo ribanceiras e fundões” transportam, também, as casas dos grandes senhores (Cabral 1999: 20). As referências às quintas durienses como a Romaneira, Roriz, Síbio, Smith, dos Frades, do Merouço e Roncão são uma constante, pois Cabral “tinha a noção do seu papel económico e cultural na região” (Pires Cabral 2014)36.

As quintas foram “no Douro a unidade de exploração agrária por excelência, vocacionada para a vinicultura” (Mansilha 2002: 159), caracterizada por um traço arquitetónico simples que, segundo Pinho (2012), reforça a importância da caixilharia na aparência exterior do edifício, constituindo um elemento primordial na caraterização arquitetónica.

165 Nos hectares circundantes às casas das quintas, os proprietários ou caseiros cuidavam de todas as outras culturas que eram adaptadas tendo em conta os declives, a escassez da água e os solos de xitos. Cabral deixa registado que entre o Saião e a foz do Sabor, o xisto, “pedra-mãe da Região do Douro” (Pintão e Cabral 2014: 540), dá lugar ao granito em ribas de fragas arredondadas e vegetação arbustiva, e acrescenta:

entre o Tua e a Valeira os barrancos fragosos são o “habitat” preferido de garças, aí o abutre é dono e senhor. Mas as quintas de facto continuam, algumas bem vistosas, como as que fui registando em apontamento: da Ferradosa, do Cachão, da Cockburns, de Vargelas, dos Canais, do Vesúvio, da Senhora da Ribeira, da Cruz e da Batoca, etc (Cabral 1988: s/p).

Encravadas na paisagem de vinhedos e oliveiras, as casas de quintas, como é exemplo a quinta de Sta Eufémia, eram construídas de fragas de xisto ou pintadas de branco alvo para refratar o calor tórrido do verão, constituindo, assim, uma das particularidades da arquitetura tradicional do vale do Douro.

Fotografia 20 - Quinta de Sta. Eufémia

Autor: Alina Sousa Vaz, 2014

Observadas e descritas por António Cabral refere que muitas delas foram vendidas a ingleses, proprietários com dinheiro para investir na produção do vinho. O poema intitulado “A Quinta do Senhor Smith” faz alusão a essa realidade:

A Quinta é outra vez do senhor Smith. “Setenta pipas de vinho de primeira, Além dum extenso olival, dois pomares,

Um palacete, a habitação dos caseiros, os caseiros,

166 Ribeiro documenta, no artigo “Os ingleses, o vinho e o Porto no século XIX”, a venda das propriedades:

é no período filoxérico que se dão as maiores transferências de propriedade na região duriense, altura em que muitos ingleses adquirem quintas. Assim, George A. Warre da Silva &Cosens, a Taylor, Flad-Gate &Yeatman, a W.&J.Graham, cabel Roop da Hunt, Roope, Tage &Cº., a Robertson Bros. &Cº. são alguns destes exemplos (Ribeiro 2010: 404).

Refira-se ainda que António Cabral faz menção particular ao concelho de Santa Marta; aconchegado pela serra do Marão e atravessado pelo rio Corgo, todos os processos relacionados com a vinicultura, bem como as casas e quintas brasonadas, que se encontram em maior número na Cumieira e em S. Miguel de Lobrigos, evidenciam a sua beleza paisagística Diz a lenda37 que Santa Marta de Penaguião nasceu pelas mãos de um conde

francês que, por ter incendiado uma capela em honra de Santa Marta, recebeu desta o castigo de plantar e trabalhar a vinha durante um ano na região. Os termos “Pena”, que significa castigo e “guião”, relativo ao nome desse conde (Guillon), deram então nome à vila e ao concelho. No poema “Azulejos”, António Cabral celebra esta terra da seguinte forma:

Terras de Penaguião - morre o tempo nos solares, Um tempo que reverdece

Pelas vinhas e pomares (Cabral 1999: 168).

As quintas, para o autor, são as que revelam ter alma, pois não era apenas “o dedo, o estilo, a marca pessoal de quem as trata ou acomoda a seu gosto” (Cabral 1999: 45) que as fazia distinguir umas das outras. Como profere na obra A Noiva de Caná (1995), as quintas são também:

A área cultivada, o tamanho e a geometria dos terrenos ocupados pelas diferentes culturas, a mancha de bravio que se deixou em determinado sítio, o qual pode ir ao ponto de ser cuidadosamente recortado, uma álea que se dispôs, um muro que se derrubou ou ergueu, a cor branca de uma fachada, as plantas matinais de um pátio, enfim, os mil e um detalhes que individualmente ou por grupos escapam à visão, têm um significado inconfundível a que só tem acesso quem descobrir em tudo um todo (Cabral 1999: 45).

37 - Informação retirada do site oficial da Camara Municipal de Santa Marta de Penaguião, disponível em http://www.cm-smpenaguiao.pt/PageGen.aspx?WMCM_PaginaId=27830

167 No entanto, o papel do homem não podia ser esquecido; quem gere e organiza uma quinta dá o seu cunho pessoal às atividades exercidas, “pois se uma quinta, como tão só uma casa ou uma vinha, é o que é, por algum ou muito tempo, teremos de aceitar que isso aconteça por força de uma força apenas sua, que lhe confere um rosto, uma personalidade” (Cabral 1999: 46). Na obra Noiva de Caná “Ricardo era a alma da sua quinta”, uma alma que não era duriense e adianta que quem a visitasse pela primeira vez “ouvia-lhe a respiração”, mas quem a voltasse a visitar algum tempo depois o sentimento seria outro, ou seja,

sentia pulsar as diferenças, não as que o tempo vai produzindo no fluxo e refluxo das estações ou mediante a sua ação vivificadora ou desgastante, mas aquelas que resultavam do tempo pessoal, dele, Ricardo, que assim a convertia no espelho diário – que a sua imagem configurasse, iluminando-se ou anoitecendo com ele, movendo-se com os seus gestos e com o seu ritmo. E será tudo isto assim, pelo facto de ele não ter nascido duriense e ter conhecido as terras numa daquelas horas propícias em que o conhecimento paralisa e transfigura (Cabral 1999: 47).

Segundo Assunção Monteiro, na quinta existe uma visão eufórica, alegre, positiva, da região duriense, com as belas paisagens, as festas, as cantigas, etc, e, ao mesmo tempo, uma visão disfórica, pois são focados aspetos negativos da realidade do Douro, “problemas pelos quais nem sempre são responsáveis os que trabalham com afinco e empenho, levando uma vida dura para conseguirem fazer vinho de boa qualidade” (Monteiro 2007: 196).