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A pandemia da Covid-19 e suas consequências

31 de dezembro de 2019, a China informa ao mundo sobre um caso de pneu- monia de origem desconhecida detectado na cidade de Wuhan, província de Hubei, na República Popular da China. Já no dia 03 de janeiro, são notificados os primeiros 44 casos da misteriosa pneumonia. No dia 07, as autoridades chinesas identificam um novo tipo de coronavírus e, no dia 11, a primeira morte é confirmada. No dia 23, já eram contabilizados 26 mortes e mais de 890 diagnósticos de contaminação. O mes- mo cenário começa a despontar em pelo menos outros 16 países, incluindo Cingapura, Tailândia, Coreia do Sul, Japão, Taiwan e Estados Unidos. Essas informações apare- ceram nos jornais do mundo todo. No El PAÍS, por exemplo, o título da matéria sobre

esse acontecimento é: “O vírus chinês”12. Pronto! O mundo dá sinais de que uma nova

onda pandêmica avança sobre as populações.

A OMS declarou, em 30 de janeiro de 2020, que o surto da doença causada pelo novo coronavírus constitui uma “Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional’, o mais alto nível de alerta da organização. Em 11 de março de 2020, a Covid-19 foi caracterizada, pela primeira vez, pela OMS como uma “pandemia global”. Especialistas criticaram a inércia do governo chinês e da OMS com relação ao alerta de emergência global para a situação. Diferente da epidemia em 2003, temos hoje uma pandemia de proporção avassaladora. O isolamento social adotado na Chi- na, deixando 11 milhões de pessoas em quarentena na cidade de Wuhan, se expandiu

10 UJVARI, 2011, p. 19-21. 11 UJVARI, 2011, orelha do livro.

12 NOVO Vírus Chinês. In: EL PAIS. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/internacional/2020-01-21/

para todo o país e para o mundo todo. Os números assustam. De dezembro de 2019 a julho de 2020, o novo coronavírus já contaminou mais de dez milhões de pessoas,

matou mais de 500 mil, em 216 países.13 Esses são os números oficiais. Na realidade,

os números são bem maiores, levando em consideração os casos de subnotificação. Ao todo, sete coronavírus humanos (HCoVs) já foram identificados: HCoV- -229E, HCoV-OC43, HCoV-NL63, HCoV-HKU1, SARS-COV, causadores da sín- drome respiratória aguda grave e MERS-COV, causador da síndrome respiratória do Oriente Médio. A epidemia que se alastra pelo mundo em 2020 é causada pela infec- ção com o coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2 (SARS-CoV-2). Os cientistas buscam encontrar o animal que foi a origem do surto para mapear seu códi- go genético e ter alguma luz no descobrimento da vacina. Animais como o morcego e, na sequência, o pangolim, podem ter servido como hospedeiro do vírus antes de ser transmitido aos seres humanos. No momento, há somente hipóteses sobre a origem do

vírus e novos estudos precisam ser realizados.14

A doença respiratória causada pelo coronavírus ficou conhecida mundialmente como Covid-19, do inglês Coronavirus Disease e “19” por causa do ano do seu des- cobrimento, 2019. Os sintomas mais comuns são:

Febre, cansaço e tosse seca. Alguns pacientes podem apresentar dores, congestão nasal, dor de cabeça, conjuntivite, dor de garganta, diarreia, perda de paladar ou olfato, erupção cutânea na pele ou descoloração dos dedos das mãos ou dos pés. Esses sintomas geral- mente são leves e começam gradualmente. Algumas pessoas são infectadas, mas apresen- tam apenas sintomas muito leves [...] A maioria das pessoas (cerca de 80%) se recupera da doença sem precisar de tratamento hospitalar. Uma em cada seis pessoas infectadas por Covid-19 fica gravemente doente e desenvolve dificuldade de respirar. As pessoas idosas e as que têm outras condições de saúde como pressão alta, problemas cardíacos e do pulmão, diabetes ou câncer, têm maior risco de ficarem gravemente doentes. No entanto, qualquer pessoa pode pegar a Covid-19 e ficar gravemente doente15.

As taxas de contágio e a letalidade da Covid-19 são altas. O R0 (R zero) ou nú- mero básico de reprodução mede a transmissibilidade do agente infeccioso. No caso do novo coronavírus, o R0 oscila entre 2 e 3, isto é, cada indivíduo portador transmite o vírus para duas ou três outras pessoas. Ainda não existem medicamentos antivirais aprovados para o seu tratamento e uma vacina está para ser descoberta. As recomen- dações essenciais para se evitar a contaminação são: higienização constante das mãos, não tocar nos olhos, nariz e boca e, principalmente, manter o isolamento social. Esta

13 WORLD HEALTH ORGANIZATION. Disponível em: <https://covid19.who.int/>. Acesso em: 01 jul. 2020. 14 PALMA, Ana. Coronavírus. Disponível em: <http://www.invivo.fiocruz.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.

htm?infoid=1438&sid=8>. Acesso em 17 jun. 2020.

15 ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DE SAÚDE. Disponível em: <https://www.paho.org/bra/index.

última recomendação, fundamental, não é bem vista por governos, que temem o co-

lapso financeiro dos seus países devido à paralisação das atividades comerciais.16

Isolamento social, quarentena e lockdowns são as melhores estratégias para a contenção da contaminação e preservação da vida. Para que elas sejam efetivas, são necessárias campanhas de esclarecimento como também políticas públicas mitigadoras dos efeitos econômicos e sociais do distanciamento. Nessa conjuntura, as autoridades têm uma grande responsabilidade na comunicação e nas ações visando ao bem comum. Infelizmente, muitas lideranças, irresponsavelmente, temendo o prejuízo econômico, propagam mentiras dizendo: “O vírus está sob controle”; é apenas “uma gripezinha ou resfriadinho”; aqui no nosso país “não há vírus” ou “o coronavírus é obra de Deus para

punir os países que nos impuseram sanções”17. Essas falas colaboram para a elevação

do potencial de contágio do vírus e para o aumento do número de casos e de óbitos pela

Covid-19. São ações desumanizadoras e próprias de uma “necropolítica”18.

Não tem jeito, a pandemia existe e os números não mentem. Para evitar o con- tágio, a morte e o colapso do sistema de saúde, só o distanciamento social. Pessoas em casa e comércio fechado são medidas necessárias. Não há como impedir o efeito ne- gativo de tais procedimentos sobre a economia mundial. Perde-se dinheiro, mas ganha a riqueza da vida. Os impactos da Covid-19 afetam o sistema sanitário, econômico, a sociedade, o meio ambiente e, fundamentalmente, o ser humano, que se pergunta pelo significado da existência diante do trágico cenário da morte. As pessoas empobrecidas são, mais uma vez, as mais afetadas. Como ficar em casa se elas vivem na rua em estado de vulnerabilidade? Como evitar aglomeração de pessoas se elas moram em aglomerados? Como manter a higienização se elas estão em condições insalubres? Como não se expor ao contágio se milhões não têm o privilégio de exercer o trabalho em casa? O mundo urbano de hoje é marcado por desigualdades sociais e do acesso díspar aos recursos disponíveis nas cidades. Suas periferias possuem habitações pre- cárias, sem saneamento e congestionadas, adversas ao isolamento social e a outras medidas de combate à pandemia.

A pandemia dá o que pensar. Ela provoca a humanidade a ponderar sobre o valor da vida e da liberdade. Ela escancara a desigualdade social e a lógica perversa de um sistema econômico predatório e desumanizador. O que já era conhecido ficou mais fulgente com a pandemia. “O grito do pobre e o grito da Terra” soam mais fortes e nítidos em tempos de reclusão. “Gritam os pobres sob pesada carga de opressão

16 BÓGUS, Lucia Maria Machado; MAGALHÃES, Luis Felipe Aires. Desigualdades sociespaciais e

pandemia: impactos metropolitanos da Covid-19. In: PASSOS, João Décio (Org.). A pandemia do

coronavírus: Onde estivemos? Para onde vamos? São Paulo: Paulinas, 2020. p. 91.

17 “GRIPEZINHA ou resfriadinho” e outras 7 frases controversas de líderes mundiais sobre o coronavírus.

In: BBC NEWS. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52205918>. Acesso em: 17 jun. 2020.

18 Termo cunhado pelo cientista político camaronês Joseph-Achille Mbembe. Em oposição às categorias de

“biopoder” e “biopolítica” de Michel Foucault, Mbembe propõe um ensaio para propor que as “formas contemporâneas que subjugam a vida ao poder da morte (necropolítica) reconfiguram profundamente as relações entre resistência, sacrifício e terror”. MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: N-1 Edições, 2018. p. 71.

econômica, de discriminação social e de violência [...] Grita a Mãe Terra contra a qual está se levando uma guerra total: no solo, no subsolo, no ar, nos oceanos, em

todas as frentes”, afirma Leonardo Boff.19 “O ambiente humano e o ambiente natural

degradam-se em conjunto”, completa o papa Francisco na encíclica Laudato Si (nº

48).20 É tempo de reflexão. Precisamos avaliar nossos valores. O que temos feito da

nossa vida e da Casa Comum?

Há quem diga que o mundo pós-pandemia Covid-19 não será o mesmo. Será? O mundo será melhor ou pior? Só o tempo dirá. Uma coisa é certa: a humanidade já tinha consciência de uma transformação necessária. Agora, com a crise decorrente da Covid-19, a mudança é urgente e profunda “nos estilos de vida, nos modelos de produção e de consumo, nas estruturas consolidadas de poder, que hoje regem as

sociedades”21. Quando as atividades apresentam nuances em relação aos fundamen-

tos, torna-se necessário rever as estruturas que sustentam o pensar e o fazer. Crises antecedem mudanças de paradigmas. O referencial modelar de existência de ontem já

não atende a demanda da vida de hoje. O momento é propício a mudanças.22