3 CORPOS QUE SE ATRAVESSAM
3.1. a Paralelepípedo
Prelúdios
15 minutos
Chegar correndo, correr até a sala da limpeza, correndo subir os três lances de escada e dançando numa corrida passar o pano molhado minimizando sujeira. Primeiro pano molhado, depois pano seco de roupa-corpo. Correndo dança pano, rolando pano roupa.
Modos
Olá! Tudo bem? Como tá hoje? Cansado, né? Ai deus... Pois é, as chaves estão com você? Ah, legal! Obrigada! Oi, tudo bom? A senhora sabe das meninas? Já estão lá? Uau, que rápidas. Obrigada! Oi, tudo bem? Posso pegar a vassoura emprestada? Rapidinho, juro! Mas e as chaves? O elevador quebrou? Puts... Oi, td bem? Você pode abrir pra mim, por favor? Ai, desculpa atrapalhar! Difícil, né? Olá, tá boa? Desculpa, mas tá fechado lá, você sabe das chaves? Tem algum produto que eu possa passar? Qual a chave da energia? Posso pegar esse rodo? Ixi, acho que a energia não tá funcionando. Nossa, férias pra que te quero, né? Você pode ir lá comigo? Desculpa. Risos. Sorrisos. Simpatia. Por favor. Muito obrigada.
Corpreender, tatear os espaços do corpo-escola através da pele, cartografar cada rachadura de parede, ser acarinhada por cada sopro de vento, sentir o sal dos suores que escorrem e o tocar de olhos outros. O corpo-pesquisadora fez dois trajetos para cartografar as rugosidades presentes no corpo-escola: a vivência de sala de aula e corredores e as oficinas de técnica Klauss Vianna e criação, Corpos que se atravessam, facilitadas por mim e vivenciadas no espaço da quadra. Este capítulo será uma dobra deste trajeto-oficinas, tanto apresentando seus detalhamentos quanto torcendo os rastros criativos que dele vieram.
O movimento
catalisador para o retorno do corpo-pesquisadora ao corpo-escola veio inicialmente destas mesmas oficinas. Mas antes, burocracias documentais, reuniões de HTPC (hora de trabalho pedagógico coletivo) com os professores para apresentar o projeto e seu andamento, conquistar a confiança do inspetor para ter acesso às chaves dos cadeados - que eram muitas, fazer amizade com a secretária para conseguir entrar e sair da escola com facilidade
sempre que precisasse, sorrir e conversar muito com as moças da limpeza para ter acesso aos produtos e limpar a quadra antes das oficinas. Intensos trabalhos para não apenas retornar, mas conquistar espaços e, assim, as oficinas acontecerem.
Durante um ano, duas vezes por semana o corpo-pesquisadora frequentou a escola para realizar as oficinas e corpo-cartografar as ranhuras de criação que emanavam delas. Neste período, desde o início os corpos-alunos que se envolveram no
Grandes olhos vasculhavam meu corpo. Sua boca salivava conforme o olhar subia e descia. De início olhares rápidos e discretos, com o tempo mais e mais baba emergia das papilas gustativas.
O degustar doce de uma bala tornou-se amargor quando com olhar predador balbuciou grunhidos de desejo sobre ela. Rolando na boca de um lado a outro a guloseima desaparecia em açúcar, enquanto seus olhos cresciam em gula. Quanta inveja senti deste poder sumiço em sacarose. Enquanto ela se desfazia, o predador faminto me obrigava a regurgitar amarga, mas educada o asco que sentia.
Educada porque em seu jogo de poder era dono das chaves, organizava tudo na escola, abridor dos caminhos de desrespeito contra as mulheres com as quais lidava cotidianamente.
Enojada, mas acorrentada e sem as chaves do cadeado.
processo das oficinas foram deixados livres para escolher participar ou não. Pensando que participar poderia ser também acompanhar com peles e olhos, fotografar, filmar ou movimentar-se segundo as proposições do corpo-educopesquisadora.
Para facilitar esta relação de não obrigatoriedade com as oficinas, escolhi realizá-las no contraperíodo de aulas, ao invés de atrelá-las a uma disciplina de artes ou educação física, por exemplo. Dessa forma, não estariam lá experimentando por determinação das regras escolares, mas por escolha e vontade.
Assim como Ranciére (2010), compreendo que a vontade é componente fundamental para a relação aluno-aprendizado. Ao mesmo tempo, destaco que o corpo- educadora não estava ali para ensinar qualquer coisa aos alunos que se dispuseram a vivenciar as oficinas, mas sim facilitar a criação de caminhos pelo próprio corpo-aluno para um aprendizado da experiência. Isso em sua relação consigo, com o outro e com o espaço, experienciando a partir de suas próprias vontades e inteligências (RANCIÈRE, 2010) atravessamentos de aprendizados.
Além da questão da vontade, como corpo-pesquisadora decidi pelo contraperíodo para não vincular as oficinas a conteúdos escolares dado em aulas. A escolha foi feita na intenção de não nos prendermos a estes conteúdos, a fim de que estivéssemos ali para experimentar possibilidades e abertos ao que viesse de experiência, assim potencializando a liberdade de experimentação. Como agravante também, caso não optasse pelo contraperíodo, ficaria um ano disputando espaço das já poucas aulas de Educação Física ou Artes, o que poderia gerar atritos desnecessários.
Não sendo, então, uma atividade forçada e tendo caráter expressivo e experimental, sabia que a adesão adolescente não seria muito grande. Porém, isso não foi problema, já que, como corpo-educopesquisadora, percebi que com um contingente menor a relação com os alunos e seus processos tornou-se mais estreita. E em se estreitando as relações, mais sensíveis estávamos às vibrações de pele uns dos outros, o que permitiu uma intensificação dos processos.
O primeiro contato entre corpos-alunos e corpo-pesquisadora foi no momento de convite às oficinas. Em conversa com cada turma de primeiros e segundos anos do ensino médio contou o que provavelmente fariam durante as oficinas, mas deixando claro que tudo poderia mudar. Disso, foram 17 inscritos, 10 realmente foram, 7 ficaram por um semestre e 3 se foram no ano seguinte, pois mudaram de escola.
3.1.a
Para a realização das oficinas existia a necessidade de encontrar um lugar dentro do corpo-escola. Inicialmente, a coordenação deu a opção das salas de aula. Não era de todo ruim, contudo para um começo achei mais interessante um espaço aberto, com menos coisas escolares para os corpos-alunos relacionarem-se. Pois em sala existia a questão das carteiras, que apesar de maravilhosas companheiras para a experimentação, num trabalho de sensibilização e presença poderiam oferecer alguns desafios que não queria propor logo de início.
Como segunda e única opção alternativa, a quadra foi oferecida. Espaçosa, chão não muito áspero, o que facilitaria as visitas dos corpos ao chão, no terceiro andar do prédio escolar, portanto relativamente privada. Uma boa escolha. O corpo-pesquisadora não ignorava, porém, a lógica disciplinadora que estava inserida em tal escolha na relação dos corpos com o espaço.
A quadra seria dentro da escola o espaço em que o movimento é permitido. Porém, a proposta geralmente não gira em torno de um fluxo de mobilidade experimental, mas da movimentação que espera uma eficiência do corpo no esporte, assim como na relação do corpo com o espaço útil da quadra apenas para a realização da atividade física. “Cada indivíduo no seu lugar, em cada lugar um indivíduo” (FOUCAULT, 2014, p.140) - cada espaço da escola estaria ordenado para receber uma atividade específica. No caso da quadra, a movimentação e trabalho corporal eficiente; na sala, o trabalho da mente e do saber em pausa.
Acredito, porém, que, permitido ou não, o movimento está acontecendo tanto dentro quanto fora da quadra. Os corpos-coisa-alunos, corpos-coisa-carteira, corpos- coisa-lápis, corpos-coisa-parede, todos estão constantemente em pulso e, mesmo quando em pausa, há vibrações internas. Portanto, a quadra não é o único lugar possível para a movimentação que propus na escola. Em todo e qualquer espaço, ampliados ou não, existe movimento e experimentar com eles oferece grande potência criativa.
Contudo, por questões burocráticas não poderia dançar a escola toda, e mais ainda, num trabalho inicial com alunos adolescentes, muito tímidos com seus corpos, acredito que os expor a relacionarem-se com todo o corpo-escola não seria a melhor abordagem, podendo gerar sérios constrangimentos.
A quadra tornou-se, então, o espaço das oficinas. Mesmo que inicialmente o que se propunha fosse uma disciplinarização e eficiência tanto dela quanto dos corpos que a habitassem, acredito nas torções constantes dessa lógica. E nem trato apenas das
oficinas que propus, mas da própria relação cotidiana dos corpos-alunos com os concretos, ferros, redes de gol e tinta laranja ali presentes.
Disciplinarmente, propõe-se uma ideia do que seria a quadra e para que ela serviria objetivamente. Uma ideia abstrata que não leva em conta que um ambiente se desdobra na relação com os seres que nele habitam (INGOLD, 2017). Mais ainda, cada ser, cada corpo-coisa que faz existir aquele espaço é composto por materiais que se relacionam, atravessam-se e a partir disso contam novas histórias sobre o espaço.
Um corpo-aluno é composto de carnes que se relacionam diretamente com o chão do corpo-quadra ao levar um tombo por tropeçar enquanto corria na direção do gol. Este chão, composto de concreto, ganha gotas de sangue e pedaços de pele, ao mesmo tempo que deixa micro-grãos de areia grudados no rasgo da carne. Eis uma história do espaço que existe na relação entre os materiais que compõem cada um dos corpos, uma dobra no processo de existência daquele lugar.
Da mesma maneira, a tinta do chão é levemente apagada pelo correr dos pés a esfrega-rem sobre ela os suores pingados enquanto correm, contando as histórias de inúmeros jogos e corridas ali ocorridos. Ou das descosturas da rede de fio de nylon, que a cada desfiar conta a história da relação entre ela e um goleiro ansioso a agarrá-la com suas mãos nervosas à espera da bola que em algum momento viria em sua direção. Tantos carimbos de bola marcavam a tinta laranja da parede, gravuras repetidas a se sobrepor, feitas a partir de um molde quase xilográfico escavado em carne de pé que chuta couro de bola. Quadra e corpo-escola são teia de histórias de um mundo material que estão em processo de acontecer na relação de uns com os outros, não apenas uma abstração finalizada sobre um espaço puramente autoritário e enrijecido. Se há pulso, há vida, respiros, matéria carne, cimento e tinta que habita, cria, fabula e dobra as lógicas que nos tentam esmagar.
Durante o entrelaçamento de vidas proposto em oficina, os corpos-carne tornaram-se íntimos da quadra, provavelmente por ser um grande paralelepípedo fechado com um portão gigante e sem grades, criando uma relação de acolhimento e proteção. A história ali construída entre os materiais carne, tinta e cimento era de cumplicidade. Os corpos esfregavam-se no chão entregando-se a ele, enquanto este os recebia. Num processo de permissividade, um foi aos poucos fazendo parte da composição do outro.
Essa percepção de isolamento, porém, não era completamente verdadeira. O paralelepípedo-quadra dava a sensação de uma moldura protetora para as vergonhas e
timidezes dos corpos-alunas. Entretanto, uma moldura, mais do que isolar criações, ela as compõe. Uma moldura não existe para proteger, mas sim para atravessar o que se cria e emoldura. Mais ainda, a moldura é porosa e se deixa atravessar.
As paredes da quadra, assim como o portão, mais do que nos fechar num lugar aparentemente interno, nos conectavam com o todo. Por serem porosas, as superfícies nos ligavam ao que queríamos entender como externo, sendo então as paredes que nos acolhiam as mesmas que recebiam o horizonte, ou o chão em que afundávamos, o mesmo que era teto da sala abaixo de nós. Estávamos o tempo todo conectados com o corpo-escola, entre peles e rebocos, fios de vida que se costuravam, formando nós.
Parede carimbo
Laranja, laranja, bola, bola, bolabolaboallablabola, laranja. boblabolaaa
Laranja, laranja, laranja,laranja,bola,bola. Laranja laranja laranja
Laranja,bolablaolabol, laranja, laranja, bola, laranja, laranja.
Bola bola bollbolaaa
Booola, laranja, bolabbobblabo, laranja,laranja.bola, laranja.
momento, o círculo tornou-se uma reprodução daquela imagem de sala em que o professor fica à frente da sala, corpo-educador à frente. Porém, aos poucos, em tom de parceria, fez com que os corpos-alunos se sentissem mais apropriados dos aconteceres, terem voz no que quisessem fazer sem que precisasse ser dada. Apesar de fazer indicações, o corpo-educador procurava deixar claro que eram sugestões e não ordens. A todo momento o ambiente estava disponível para que falassem se quisessem fazer algo diferente ou simplesmente não fazer. Se quisessem ir ao banheiro ou beber água, poderiam ir sem pedir, pois o limite estabelecido era o respeito ao espaço uns dos outros, para que construíssem um espaço de convivência coletiva. Aparentemente, conforme ficavam mais à vontade com essa forma das coisas acontecerem, também sentiam-se mais apropriados do espaço. Claro que pode ser apenas impressão.
Caderno de campo, setembro de 2016
Hoje foi um dia difícil. Foi a primeira vez que o corpo-educadora vivenciou o corpo- escola desde o período da manhã. Assistiu a duas aulas de história e sentiu todo tédio e monotonia que os corpos-alunas sentem todos os dias. Foi muito estranho chegar na oficina naquele estado de espírito entediado, com o corpo desanimado e sentindo- se sugado. A diferença de estado de presença daquele dia para como geralmente está quando chegava direto de casa foi gritante. Finalmente conseguiu entender corporalmente como estavam as alunas em alma-corpo, qual estado em que chegavam nas oficinas. Outra coisa forte foi a indisponibilidade para elas. Como se o desânimo tivesse deixado o corpo menos atravessável. Elas disseram várias coisas com olhares: vergonhas, pausas, corpos quase imóveis, mas o corpo-educador escolheu não escutar. Ao invés de propor outra coisa, mudar o que estavam fazendo, escolheu ser rígido, impaciente, duro e inflexível. Sentia-se muito indisponível e isso ficou claro para elas também, pois, enquanto iam embora, notou que tudo que mais queriam era que a oficina acabasse e isso nunca acontecera antes...