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A paratopia criadora e o discurso da moda de viola

CAPÍTULO IV- O DISCURSO LÍTERO-MUSICAL DA MODA DE VIOLA

4.3. A paratopia criadora e o discurso da moda de viola

A assertiva de Maingueneau (2009, p. 68), de que aquele que enuncia no âmbito de um discurso constituinte não pode situar-se nem no exterior e nem no interior da sociedade, nos provoca a refletir acerca da condição paratópica do discurso da moda de viola.

Maingueneau define a paratopia como uma localidade paradoxal, pois se afasta do mundo ritualizado e, ao mesmo tempo, investe suas forças para se inserir nele. O discurso lítero-musical remete a uma paratopia criadora que é, ao mesmo tempo, a condição e o produto do processo criador. Evidenciamos que essa paratopia só se manifesta mediante a atividade de criação e de enunciação, não sendo, portanto, algo que antecede o discurso da moda de viola e, tampouco, algo que lhe seja exterior.

Vale ressaltar que o lugar a que Maingueneau se refere não equivale à representação que comumente temos em nossa mente, mas um delicado acordo entre o lugar e o não-lugar. Desestruturado pela enunciação lítero- musical, o não-lugar que emerge reside na sua própria impossibilidade de se estabilizar.

Para produzir enunciados que sejam reconhecidos como lítero-musicais, é preciso investir-se do papel de escritor, que também se encontra nessa paratopia, porque sua condição criadora não o destitui da condição de homem e nem de criador. É, portanto, nesse entremeio que o escritor se encontra.

Tendo em vista compreender essa condição paratópica do escritor e do discurso da canção que ele produz, julgamos relevante exemplificar com o relato de Corrêa (1989). Segundo consta, o escritor do discurso da moda de viola intitulada Ferreirinha lhe revelou que a inspiração para criá-lo ocorreu em uma das viagens de trem que fizera entre São Paulo e Sorocaba. Durante a viagem, um desconhecido contou história semelhante a uma que lhe sucedera em Espraiadinho, a qual intrigou o escritor.

Ao desembarcar em Sorocaba, Corrêa (1989, p.20) menciona que o homem sugeriu o seguinte desfecho para Carreirinho, caso resolvesse compor a moda: se o senhor acertar de fazer a moda, não se esqueça de um detalhe. Quando eu conto esta passagem, eu sinto um arrepio nas costas. Parece que aquela friagem não saiu das costas ainda.

A experiência vivenciada por Carreirinho comprova que a paratopia não permite que o escritor se aparte da sociedade, uma vez que a condição humana lhe serve de inspiração. Mas também não pode ficar confinado a essa realidade, pois do contrário seu discurso se equiparará aos outros tantos discursos, como o jornalístico, por exemplo, que tem a função de retratar os acontecimentos sociais.

A inserção do discurso da moda de viola no campo lítero-musical é validada pela paratopia criadora, que remete o co-enunciador ao não-lugar, o qual é discursivamente construído. É um lugar que renega a cidade, a modernidade e todos os confortos que ela pode oferecer, mas também não é o meio rural, posto que fora esfacelado pelo progresso e pela modernidade.

Além disso, não podemos desconsiderar que o mundo rural também apresentava seus problemas, gerando descontentamento na população, conforme vimos em depoimentos de migrantes rurais recolhidos por Durhan (1973).

Lembramos que as condições sócio-históricas de produção do discurso da canção de moda de viola comprovam que o progresso foi a principal causa

da migração rural para a capital paulista. Por isso, o peão de boiadeiro é uma das figuras que melhor representa essa rejeição, pois, conforme seu estereótipo, ele vive à margem da cidade, posto ser um andarilho por natureza. Destituído de bens materiais, isolado durante longos meses na estrada, o peão de boiadeiro pressupõe um mundo viril, forte, resistente, que se assenta sobre valores do homem de origem rural. Esse mundo, que não se trata de um espaço real, é identificado pela paratopia espacial. É somente nesse espaço que o enunciador consegue exercer suas práticas discursivas.

A paratopia temporal refere-se a um tempo passado, que, outrora, proporcionara felicidade ao enunciador. Comumente encontramos enunciados que evidenciam essa paratopia como Me alembro e tenho saudade/ do tempo que vai ficando...; Eu nasci numa data feliz...; No tempo em que... Notemos que todos eles despertam uma vaga lembrança no co-enunciador.

De acordo com Williams (1989, p.154), a contemplação da vida no campo remonta à antiguidade, pois

(...) uma ideia de campo é uma ideia da infância: não apenas as lembranças localizadas, ou uma lembrança comum idealmente compartilhada, mas também a sensação da infância, de absorção deliciada em nosso próprio mundo, do qual, no decorrer do processo de amadurecimento, terminamos nos distanciando e nos afastando, de modo que esta sensação e o mundo tornam-se coisas que observamos.

A remissão a esse tempo é envolta em felicidade ou saudosismo. Vimos com Martins (1975) que a ausência do espaço rural provoca um colapso na identidade desse sujeito, que não consegue se inserir socialmente em outro espaço que não seja o seu. Por isso, julgamos que a paratopia esteja localizada num tempo e num espaço que distanciam o enunciador da vida citadina e do tempo presente.

Considerada o motor da enunciação, a paratopia revela um enunciador que se sente excluído, uma vez que ele não se identifica com o mundo que nega e que também o nega. Não são raros os discursos que têm como paratopia a premissa de que as aparências enganam. Aquele que é subjugado

por sua aparência é que dá a volta por cima, revelando ser aquele que não parecia ser. Pelo posicionamento e pelo código linguageiro, concebemos esse sujeito o migrante rural, que almeja retornar ao seu lugar de origem e ao tempo de outrora.

Só a paratopia, elemento inerente ao processo de criação, é capaz de promover esse desejo. A eficácia do discurso da moda de viola também está na criação da paratopia, pois está fortemente atrelada à memória discursiva da comunidade que a cultua. Isso explica porque esse discurso é veiculado e eternizado na sociedade, sobretudo nas regiões onde se disseminou a cultura do homem caipira.

Outro tipo de paratopia a se consubstanciar no discurso da moda de viola é a familiar. A relação entre pai e filho é integrante desse não-lugar, pois é valorizada no meio rural. Baseada no respeito, na obediência e até mesmo na subserviência, essa relação evidencia os conselhos paternos, posto que os mais velhos têm experiência e sabedoria consentidas pela sociedade.

A relação amorosa também integra a paratopia criadora, mas de forma recatada, conservadora e, até mesmo, machista. O não-lugar não permite a vulgarização da relação amorosa, pois ele próprio é concebido como um lugar sacralizado. Por isso, a paratopia no discurso da moda de viola representa um lugar idealizado, uma espécie de devaneio.