• Nenhum resultado encontrado

A parceria entre poder público e setor privado

3. A praça Victor Civita

3.2 A parceria entre poder público e setor privado

O interesse da Editora Abril, em transformar a área , na qual, anteriormente, funcio- nava o incinerador municipal na Rua Sumidouro, surgiu após a mudança da Editora, em 1998, para o edifício localizado na Avenida das Nações Unidas.

A Editora já havia mostrado interesse em dar o nome de seu fundador a algum lo- gradouro do município, a exemplo do que havia acontecido com a Avenida Roberto Ma- rinho. Entretanto, devido aos trâmites burocráticos para a nomeação de um logradouro e com a constatação da área degradada ao lado de sua nova sede, surge a ideia de propor à prefeitura uma parceria para a recuperação da área e a transformação em espaço que pudesse ser devolvido e utilizado pela população.

A primeira formalização do interesse da Editora em trabalhar pela recuperação do espaço foi com o Protocolo de Intenções, irmado em 2001 entre a Prefeitura de São Paulo, representada pela prefeita Marta Suplicy através da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, e o Presidente da Editora Abril, Roberto Civita.

Segundo o Diretor do Instituto Abril, Hamilton dos Santos22, o Protocolo de Inten-

ções foi irmado nos moldes de uma parceria entre o poder público e o setor privado, sendo regulado pelo instrumento da parceria público-privada. Além disso, um fato re- levante é que essa área estava sob a jurisdição da Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente e, portanto, seria enquadrada como parque, o que tornaria muito difícil sua administração e gestão por parte da Editora, por conta do modelo de administração de fundos e o repasse de investimento que a secretaria utiliza para gerir as áreas verdes.

No entanto, o Protocolo de Intenções não se materializa em um plano de ação para a transformação da área e, apesar de testes do nível de contaminação terem sido feitos entre os anos de 2002 e 2003, a iniciativa de recuperação da área pouco se desenvolveu nesse período. Em 2004, o município de São Paulo estabelece normas complementa- res ao Plano Diretor Estratégico que, por meio da Lei nº 13.885, de 25 de agosto de 2004, instituía os Planos Regionais Estratégicos das subprefeituras. Esta lei considerava o parcelamento e a ordenação do uso e ocupação do solo do município e instruía ferra- mentas determinantes das ações dos agentes públicos e privados no território de cada subprefeitura.

60

Nessa Lei, a Subprefeitura de Pinheiros delimitava as Áreas de Intervenção Urbana - AIU, os Projetos Estratégicos de Intervenção Urbana - PEIU e as Operações Urbanas Consorciadas - OUC e, por meio de seu artigo 88, capítulo IV etabelecia a operação ur- bana consorciada Faria Lima .

Em 2005, a Editora Abril contrata o Escritório Levisky Associados com o objeti- vo de direcionar os estudos e projetos que haviam sido esboçados pela Editora e para atuar como mediador entre os diversos atores, ouvindo as necessidades de cada um e procurando soluções de projeto e parceria que se encaixassem nas diversas demandas surgidas.

Com um plano de trabalho elaborado, em 2006, a Editora reairma o interesse perante a subprefeitura em estabelecer a parceria para revitalização da área; é a partir dessa data que ica instruído o processo de implantação da praça na Subprefeitura de Pinheiros. Segundo a arquiteta Adriana Levisky23, foi um momento bastante oportuno,

pois a administração municipal era bem sensível às questões ambientais. Foi criado um grupo de trabalho com uma metodologia que possibilitou traduzir os diversos anseios. Ainda em 2006, a Editora Abril apresenta um pré-projeto baseado em pesquisa realizada com mais de mil moradores da região, buscando integrá-lo com a Operação Urbana Fa- ria Lima, que previa o alargamento da Rua Sumidouro e a construção de um terminal de ônibus urbano e da Estação Pinheiros de Metrô, próximos ao local.

As tratativas entre Editora Abril, Empresa Municipal de Urbanização (EMURB) e Subprefeitura resultaram em uma formulação do modelo jurídico de parceria desenvol- vido em cinco etapas, sendo a primeira, a conclusão dos ensaios para caracterização do solo da área, que deiniria as diretrizes e técnicas de descontaminação, as quais seriam empregadas; a segunda etapa era elaborar o projeto executivo, compreendendo paisa- gismo e infraestrutura necessária para recebimento dos usuários; a terceira etapa seria o projeto para descontaminação e restauro do incinerador, que seria ocupado pelo Museu da Revista, galeria de arte, salas de aula, espaços para palestra e café; a quarta etapa previa o projeto do galpão multifuncional com teatro/auditório; e a quinta etapa previa a ligação do parque à Av. Professor Frederico Hermann Jr., localizada no lado oposto da quadra onde a praça está inserida. Além dessas etapas, o modelo deinia as diretrizes de projeto, como cuidados que deveriam ser tomados com relação à contaminação do solo,

23 Entrevista concedida em 26 jul. 2013

limites de altura dos equipamentos a serem construídos, a possibilidade de conexão com outras áreas públicas que fazem fronteira com a praça e a ampliação de sua área.

Em 2007, durante a gestão do Prefeito Gilberto Kassab, icou convencionado que a gestão da área seria da Subprefeitura de Pinheiros, à época representada pelo subprefeito Milton Elias Nachle. Em fevereiro de 2007, foi assinado um termo de cooperação entre a Prefeitura do Município de São Paulo, através da Subprefeitura de Pinheiros e a Editora Abril. E em 01 de fevereiro de 2007, através do Decreto nº 48.116, a área recebe o nome de Praça Victor Civita. Ainda em 2007, foi criado o Instituto Abril, organização da sociedade civil de interesse público (OSCIP), que passaria a coordenar a implantação da praça.

Portanto, a aproximação entre a Prefeitura do Município de São Paulo e a Editora Abril se deu, em grande parte, pela conjunção de interesses: de um lado, a prefeitura tendo o local dentro de seu plano estratégico de reabilitação de áreas degradadas; de outro, a Editora Abril em busca de um projeto que criasse uma área em homenagem a seu fundador e que contivesse a ilosoia educativa e cultural que faz parte da empresa. Um grande marco entre a PPP irmada foi ter o projeto como elemento estruturante do modelo jurídico, que não apenas irmava a cooperação, mas estabelecia etapas e diretri- zes concretas para sua realização.

No próximo capítulo, analisaremos como foi a elaboração do projeto, partindo de um contexto em que diversos atores tiveram papéis decisivos em sua concepção e, prin- cipalmente, buscando a melhor maneira de recuperar uma área degradada e devolvê-la ao público.

62

Documentos relacionados