C. A ANC DE 1987-88
6. A PARTICIPAÇÃO DAS MULHERES NA ANC (87/88)
Em relação às Constituições precedentes, houve significativo alargamento da participação feminina na realização dos trabalhos constituintes de 88, ainda que o número de deputadas seja mínimo frente à presença massiva de representantes do sexo masculino. Foram, ao total, 26 deputadas constituintes e nenhuma senadora, frente a 486 deputados e 82 senadores.
Figura 9: Gráfico relação de gênero na composição da ANC 87/88
Quanto ao percentual de gênero, na composição geral da ANC 87/88, temos que 95% dos membros eram do gênero masculino, enquanto apenas 05% eram representantes do gênero feminino, conforme tabela abaixo:
Tabela 14: Composição Geral da ANC de 87/88, segundo gênero Percentual de Gênero na Composição Geral da ANC de 1988
Masculino Feminino
Deputados (as) 486 (94,9%) 26 (5,07%)
Senadores (as) 82 (100%) 0 (0%)
O número reduzido de representantes não ofuscou, contudo, a participação ativa da bancada feminina na formulação da carta constitucional. Trabalhos como o de Nelsina Melo Dias (1991), da Universidade Federal da Paraíba, evidenciam a participação das mulheres na condução da saúde pública no Brasil. “Mulheres: sanitaristas de pés descalços” fala sobre a mulher da classe operária e sua batalha diária na prática sanitária em suas comunidades. Essa preocupação feminina com a pauta sanitária se reflete
também na ANC. Dentre as profissões sanitárias, temos, segundo o gênero, a seguinte frequência:
Tabela 15: Frequência de gênero na ANC x profissões sanitaristas
Frequência Percentagem
Feminino 7 11,9
Masculino 52 88,1
Total 59 100,0
Das profissionais do gênero feminino que compuseram a ANC, 26% provinham de profissões ligadas à área da saúde, enquanto apenas 9% dos profissionais que declararam-se do gênero masculino, possuíam formação ou atuavam em profissões sanitárias. Como vimos anteriormente, o pleito de 1986, realizado no contexto de redemocratização do país, foi marcado por uma ampliação do corpo eleitoral, com expressivo número de candidatos e eleitores. O número de mulheres eleitas foi, na ocasião, o maior se comparado as Constituições anteriores. A CF 88 é considerada um marco na participação feminina.
A primeira Constituição a contar com a participação feminina, por exemplo, foi a de 1934, na Era Vargas, com uma única mulher em meio a 214 deputados – as Constituições posteriores a 1934 e anteriores a 1988 não constaram a participação de deputadas ou senadoras em sua elaboração. Em 1986, foram eleitos 536 constituintes, sendo 487 à Câmara dos Deputados e 49 ao Senado Federal, somando-se aos 23 senadores, que foram eleitos em 1982 ao mandato de oito anos, totalizando-se 559 membros à ANC. A 47ª legislatura (1983-87) contou com apenas sete parlamentares provenientes da área da saúde, frente às 26 eleitas em 1986 para a ANC 87/88.
Evidencia-se a atuação feminina em diversos trabalhos, dentre estes Costa, Bahia e Conte (2007) destacaram a busca por novos espaços de participação e atuação das mulheres, que na década de 80 conquistaram a criação de conselhos (nacional e estaduais) de atenção à mulher, além das delegacias de defesa da mulher. Segundo as pesquisadoras:
“A participação de sanitaristas feministas, comprometidas com as instâncias relacionadas ao setor da Saúde, aliadas às representações femininas na Câmara Federal e no Poder Legislativo de estados e municípios, fortaleceu o debate nos fóruns, organizados pelos movimentos de mulheres, e no movimento sanitário pela necessidade de mudanças profundas no sistema da Saúde” Costa, Bahia e Conte (2007).
A despeito do baixo número percentual de mulheres que compunham a ANC – cerca de 5% do total de membros, alcançou-se um marco expressivo de participação e atuação feminina. As 26 constituintes compunham um grupo que ficou conhecido com a “bancada feminina” da ANC. No quadro45 a seguir, é possível identificar a composição do grupo por nome, filiação partidária, profissão e região:
Tabela 16: Composição da Bancada Feminina (nome, partido, estado e profissão)
45Elaborado a partir de registros bibliográficos da Câmara dos Deputados, disponíveis em meio eletrônico no sítio www.camara.leg.br (acessado em 13.01.2018).
NOME PARTIDO ESTADO PROFISSÃO
Abigail Feitosa PMDB BA Médica
Anna Maria Rattes PMDB RJ Advogada
Benedita da Silva PT RJ Aux. de Enf./Assist. Social
Bete Mendes PMDB SP Atriz
Beth Azize PSB AM Advogada
Cristina Tavares PMDB PE Jornalista
Dirce Tutu Quadros PSC SP Pesquisadora
Eunice Michiles PFL AM Professora
Irma Passoni PT SP Professora
Lídice da Mata PC DO B BA Economista
Lúcia Braga PFL PB Assistente Social
Lúcia Vânia PMDB GO Jornalista
Márcia Kubitschek PMDB DF Jornalista Maria de Lourdes Abadia PFL DF Assistente Social
Maria Lúcia PMDB AC Professora
Marluce Pinto PTB RR Empresária
Moema São Thiago PDT CE Advogada
Dentre os partidos políticos, observa-se que o PMDB elegeu um número maior de mulheres no pleito eleitoral de 1986, onze representantes (42,3% do número total de deputadas), seguido do PFL com seis representantes. A Bancada Feminista era composta, ainda, por PDS, PT, PSB, PCdoB, PDT e PSC.
Quanto ao perfil profissional, a Banca Feminista contou com cinco diferentes profissões em sua composição. Destacamos, aqui, as concernentes à área da Saúde. São seis as Deputadas com formação na área de Assistência Social, Técnica de Saúde, Auxiliar de Enfermagem, Médica ou Pesquisadora. Benedita da Silva (PT-RJ) possuía formação em Auxiliar de Enfermagem e, também, em Assistência Social. A constituinte aparece com as duas nomenclaturas profissionais. Dirce Tutu Quadros (PSC-SP), que figura na bibliografia oficial da Câmara dos Deputados como Pesquisadora, formou-se em Ciências e PhD em Citologia pela Universidade do Texas, EUA. No quadro abaixo, encontramos a sistematização do perfil profissional, em termos percentuais:
Tabela 17: Distribuição das profissões na área da saúde dos parlamentares que participaram da constituinte de 1988 – bancada feminina
Parlamentares com profissão na área da saúde
Profissão Frequência
Absoluta Porcentagem
Assistente Social 3 42,9
Médica 1 14,3
Pesquisadora 1 14,3
Raquel Cândido PMDB RO Técnica em Saúde
Raquel Capiberibe PMDB AP Professora
Rita Camata PMDB ES Jornalista
Rita Furtado PFL RO Jornalista
Rose de Freitas PMDB ES Jornalista
Sadie Hauache PFL AM Jornalista
Sandra Cavalcanti PFL RJ Professora
Técnica em Saúde 1 14,3
Total 7 100,0
Dentre a Bancada Feminina, as profissões que compunham a área sanitária, destacaram-se pela presença de quase metade (3 constituintes) das constituintes provenientes da Assistência Social (42,9%), as demais profissões contaram cada uma com uma representante: 01 médica (14,3%), 01 pesquisadora da área da Citologia (14,3%) e 01 técnica de saúde (14,3%).
Figura 10: Distribuição das profissões na área da saúde dos parlamentares que participaram da constituinte de 1988 – bancada feminina
Abigail Feitosa (PMDB-BA), médica, foi Deputada Estadual e médica do INAMPS na Secretaria Estadual de Saúde da Bahia. Foi membro da Subcomissão de Saúde, Seguridade e do Meio Ambiente e da Comissão da Ordem Social (suplente), na ANC 87/88 participou, ainda, da Comissão de Sistematização (titular). Entre 1980-82, foi vice-presidente da Associação
Baiana de Medicina e, em 1985, Coordenadora-Geral do Movimento de Unidade Popular, o MUP.
Maria Lourdes Abadia (PFL-DF), assistente social, professora, possui titulações internacionais e condecorações, integrou diversas comissões, programas e projetos, além de ocupar vários cargos no legislativo e no executivo. Foi, ainda, vice-presidente da União dos Estudantes de Brasília, DF – 1966-68 e Presidente da União Latino-Americana de Mulheres, em 1999.
Raquel Cândido (PMDB - RO), técnica em saúde, participou de diversas comissões, dentre elas da Subcomissão de Saúde, Seguridade e do Meio Ambiente. No quadro abaixo, é possível ver a participação das sanitaristas em relação à composição total da Bancada Feminina na ANC 87/88:
Figura 11: Gráfico com as profissões das parlamentares que participaram da constituinte de 1988 – bancada feminina
Embora o pleito de 1986 tenha permitido a ascensão de novos candidatos (em primeira eleição), parte dos membros da ANC 87/88 provinha de famílias tradicionais na política, dentre as parlamentares “sanitaristas”, destacamos Dirce Tutu Quadros e Lúcia Braga. Dirce era filha de Jânio Quadros, ex-presidente do Brasil, já Lúcia era mulher do ex-governador
paraibano Wilson Braga). Algumas já haviam ocupado função no legislativo, como Raquel Cândido (ex-vereadora).