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C. A ANC DE 1987-88

5. O PERFIL SANITARISTA NA ANC (87/88)

A grande inovação da Constituição de 88, que deu novo significado à ‘saúde’, foi a marca cidadã enunciada até mesmo no discurso de promulgação. A participação de diversos setores da sociedade civil organizada representou uma diversidade de pensamentos e o fortalecimento de causas populares, como do direito à saúde. Evidentemente, isso ocorreu em razão de dois fatores. Primeiramente, diferente das Constituições antecessoras, a CF 88 foi elaborada, como já vimos, sob uma significativa ampliação do corpo eleitoral e do quadro de constituintes, preenchido por profissionais de diversos setores. Além disso, outro aspecto deve ser considerado, especialmente na área da saúde: as lutas sanitárias nesse período ganharam mais escopo, dentre outros fatores, fruto das lutas da 8ª Conferência Nacional de Saúde. Havia, ainda, uma nova consciência do conceito de saúde, ampliada desde a Declaração da Organização das Nações Unidas.

No bojo das motivações democráticas de renovação política no país, a inserção de novos atores no quadro político representou novos avanços de representatividade e inclusão de pautas, frutos da mobilização popular e de setores organizados. A presença de profissionais ligados à saúde não sinalizou, contudo, o crescimento da pauta sanitária no texto constitucional, como veremos a seguir. Dentre os 512 deputados constituintes, 59 (11,52% do total) eram formados e/ou trabalhavam em profissões ligadas à área da saúde, segundo informaram à Câmara dos Deputados. Esse número é um pouco menor do que em 1946, mas segue uma tendência.

O estudo demonstrou que mesmo com profissionais da saúde nas ANCs isso não é uma condição sine qua non do avanço da pauta sanitária. Pois são encontradas diversas situações: não sanitaristas agindo em prol de pautas sanitárias; sanitaristas atuando exclusivamente em outras áreas e expoentes isolados, como Eduardo Jorge, aglutinando grandes demandas e enunciando debates cruciais.

O estudo mais recente do cientista político Leôncio Martins Rodrigues (2006), a despeito das mudanças na classe política brasileira, debruçou-se

sobre a 51ª (1999-2003) e 52ª (2003-2007) legislatura, mas sugeriu tendências quanto à dinâmica de composição das casas legislativas de modo geral. Nesse levantamento, uma das hipóteses aventadas é, justamente, de que a importância dos grupos econômicos e profissionais dentro das casas legislativas depende do perfil social dos partidos vencedores e perdedores. Ou seja, a presença de partidos políticos ideologicamente de direita, em geral, aumenta a incidência de empresários e representantes da classe alta. E, por conseguinte, o aumento de partidos de esquerda eleva a presença de professores, sindicalistas, servidores públicos e trabalhadores manuais (Rodrigues, 2006, p. 17).

A pesquisa desenvolvida por Rodrigues (2009), no recorte que a aproxima da temática saúde, revelou a presença de significativo percentual de profissionais liberais na 51ª e 52ª legislatura. Esses profissionais aparecem como segundo grupo de maior importância, em número de representantes, na Câmara dos Deputados. O número de médicos representou o grupo mais significativo, contando com 12 e 11% de representantes, respectivamente, nas 51ª e 52ª legislaturas da Câmara dos Deputados. Segundo Rodrigues (2009), esses dados “sugerem que a própria atividade médica (em hospitais públicos e

outras instituições de saúde, além de postos importantes em órgãos do Estado ligados à rede de saúde) pode ser um bom trampolim para a entrada na vida pública. O Brasil, aliás, possui tradição de ter médicos entre grandes chefes políticos. Para citar apenas alguns poucos exemplos mais conspícuos: Adhemar de Barros (...) Juscelino Kubitschek (...)” (RODRIGUES, 2009).

Outro estudo mais recente de Vial, é relevante, sobretudo, pela eficiência do aspecto metodológico aplicado traçaram o perfil das classes profissionais dos parlamentares da Câmara dos Deputados, no período entre a 48ª e 52ª legislatura (1987 a 2007), baseando-se, estritamente, no levantamento dos dados e sua, posterior, análise. A partir dos dados levantados, podemos aferir que das 28 profissões/ocupações, entre os 589 deputados da época, entre ocupantes de vaga e suplentes, 54 eram médicos (9,16%), 3 farmacêuticos (0,50%), e 3 assistentes sociais (0,50%). Alguns

parlamentares também se identificaram em mais de uma profissão (VIAL, 2007).

Enquanto na 52ª legislatura, compreendida no período de 2003 a 2007, foram analisados os perfis profissionais de 629 deputados, entre titulares e suplentes que vieram a assumir uma vaga. Sendo possível aferir 46 profissões, frente às 28 da legislatura comparada, nas seguintes ocupações ligadas à saúde: 73 médicos (11,60%) – 4ª posição, 3 enfermeiras (0,47%), 1 farmacêutica (0,15%). É interessante notar as relações de gênero neste contexto, em que há a presença de 3 enfermeiras e 1 farmacêutica. O número reduzido e descrito no gênero feminino releva a baixa e desigual representatividade das mulheres no Parlamento. Esse estudo permitiu, ainda, concluir que houve uma mudança, com a redução de seguimentos tradicionais e a inclusão de novas profissões/ocupações na Câmara dos Deputados. A profissão/ocupação mais presente foi a de advogado, porém a descrição “médico” ocupou a 6ª e 4ª posição nas 48ª e 52ª legislatura, respectivamente (ibid, 2007).

Figura 7: Quadro Profissional dos Constituintes de 87/88 em relação à área da saúde

Ao analisarmos especificamente dentre as profissões da área da saúde, temos que a classe médica correspondeu 74,6% dos membros da ANC 87/88.

Isso revela a forte mobilização deste seguimento e, por outro lado, uma tendência em eleger médicos a cargos representativos, associado possivelmente à imagem de figuras de importância social, benevolentes e sábias.

Figura 8: Distribuição das profissões na área da saúde dos parlamentares que participaram da constituinte de 1988 – Deputados

Outras profissões também contaram com representação. Farmacêuticos contaram com 4 membros, Veterinários e Assistentes Sociais, ambas com 3, Dentista 2, enquanto Pesquisadora, Bacteriologista e Técnica de Saúde possuíram, cada uma, um representante.

Tabela 13: Distribuição das profissões na área da saúde dos parlamentares que participaram da constituinte de 1988 – Deputados

Parlamentares com profissão na área da saúde

Profissão Frequência Absoluta Porcentagem Médica 44 74,6 Farmacêutico 4 6,8 Veterinário 3 5,1 Assistente Social 3 5,1 Dentista 2 3,4 Pesquisadora 1 1,7 Técnica em Saúde 1 1,7 Bacteriologista 1 1,7 Total 59 100,0