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3.5 As teorias democráticas como fundamento da participação nos processos

3.5.2 A participação nas teorias deliberacionistas

Os teóricos da democracia deliberativa (ou participacionista) e representativa (AVRITZER, 2007; WAMPLER, 2011) partem da constatação de que a representação não se esgota nos processos eleitorais, mas nele se inicia, devendo ser complementada pela participação dos indivíduos através dos grupos e das

instituições criadas que atuam diretamente com os governos, num processo em que torna-se operante e operada entre este e a sociedade: entre os indivíduos e as instituições que dão forma ao Estado.

Com isto, novos questionamentos e os próprios limites da democracia representativa são colocados em pauta, buscando-se incluir os recentes formatos de soberania popular e de cidadania a partir da participação como forma de afirmação republicana e de democracia.

[...] a exacerbação de formas de democracia direta, que combine estabilidade e previsibilidade – regras de jogo firmes e contratos claros sobre os limites da utopia – com a legitimação permanente dos conflitos e a aceitação de um certo grau de indeterminação sobre o futuro (ou seja, considerar os consensos como necessariamente provisórios) passa a ser o estatuto mais avançado da cidadania moderna” (GENRO, 2002, p. 30).

Estas novas formas de democracia – a democracia deliberativa – tornou-se um novo modo de atuação dos sujeitos na determinação das decisões públicas que pretende-se sejam realizadas, colocando em evidência o cidadão como sujeito, ator e responsável direto pelos rumos das decisões coletivas.

A democracia deliberativa constitui-se como um modelo ou processo de deliberação política caracterizado por um conjunto de pressupostos teórico- normativos que incorporam a participação da sociedade civil na regulação da vida coletiva. Trata-se de um conceito que está fundamentalmente ancorado na ideia de que a legitimidade das decisões e ações políticas deriva da deliberação pública de coletividade de cidadãos livres e iguais (LÜCHMANN, 2002, p. 21).

A democracia deliberativa, juntamente com a democracia participativa, forma um elo comum nas discussões teóricas e de experiência real, calcadas a partir dos resultados efetivos decorrentes das experiências de diversas instituições (como conselhos, comissões, orçamentos participativos e audiências públicas) como formas de democracia participativa.

Assim, pode-se dizer que a participação social, enquanto sinônimo de expressão da democracia participativa ou deliberativa, estará presente a partir dos seguintes traços ou manifestações (LÜCHMANN, 2006, p. 21-22):

a) o resgate da ideia de soberania popular, no sentido de um reconhecimento de que cabe aos cidadãos não apenas “influenciar”, como “decidir” acerca das questões de interesse público: “a outorga de autoridade para o exercício do poder do Estado deve emergir das decisões coletivas de seus membros” [...]; b) a ênfase no caráter dialógico dos espaços públicos enquanto formadores da opinião e da vontade. Aqui, diferentemente da perspectiva agregativa da democracia, as preferências são endógenas ao

modelo; c) o reconhecimento do pluralismo cultural, das desigualdades sociais e da complexidade social [...] reclama para a importância dos impactos dos processos deliberativos no contexto sociocultural subjacente; d) o papel do Estado e dos atores políticos para a criação de esferas públicas deliberativas e a implementação das medidas advindas de processos deliberativos; e) e por último, e frente às dificuldades e riscos da democracia deliberativa, ressalta-se a importância do formato e da dinâmica institucional.

Estas características não estão presentes em sua plenitude em todas as formas e arranjos institucionais (conselhos, comissões, conferências, orçamento participativo, audiências públicas), mas manifestam-se em maior ou menor grau dependendo de diversas questões, como o ambiente social, o cenário político, a cultura participativa e as disposições legais e regimentais que modulam o modo de participar.

Os fundamentos teóricos da democracia deliberativa e da democracia participativa permearam os debates durante longo tempo na literatura. Dentre elas, destaca-se a posição de Pateman (1992). Para esta autora (amparada no Contrato Social de Rousseau), a participação na teoria da democracia participativa tem cunho educativo (em seu sentido amplo) e produz tanto efeitos psicológicos nos participantes quanto na questão das práticas, habilidades e procedimentos nos processos democráticos. Pateman sustenta que a participação tem um efeito multiplicador entre os sujeitos que, ao participarem, desenvolvem habilidades necessárias para a participação e despertam entre os demais o desejo de participar, com um verdadeiro efeito contagiante.

Por decorrência, quanto mais o sujeito participar, mais estará capaz de fazê- lo, produzindo através desta prática impactos educativos e pedagógicos que serão fundamentais para a estabilização do sistema participativo.

Segundo Pateman (1992, p. 41-51) são três os aspectos que devem ser considerados para se ter uma democracia participativa: a) a abertura produzida nos sujeitos causada pela atuação nas decisões obtidas coletivamente, uma vez que este mesmo sujeito participa do processo de decisão; b) a agregação social produzida pela integração social, como um efeito natural do sentido de pertença social, e c) a existência de participação em nível local, pois nestes âmbitos os processos de democratização são mais sentidos e mais fáceis de se identificar as qualidades necessárias para uma participação em nível nacional.

Como um complemento, Santos (2002, p. 77-78) estabelece três condições indispensáveis para o crescimento da democracia participativa. A primeira é o fortalecimento da diversidade democrática, segundo a qual a democracia não exige que se realize de forma únivoca. Neste sentido, aponta que o aprofundamento dos casos nos quais o sistema político permite que as decisões sejam tomadas através das instâncias participativas é fundamental para sedimentar e fortalecer os processos participativos.

A segunda condição é o fortalecimento das articulações contra-hegemônicas entre o local e o global. Para o autor, experiências inovadoras no âmbito da democracia participativa precisam do apoio de atores transnacionais nos casos em que se tenha uma democracia pouco amadurecida. Ao mesmo tempo, experiências bem sucedidas devem se expandir como alternativa ao modelo hegemônico.

Finalmente, propõe a ampliação do experimentalismo democrático, como um pedido para multiplicar as experiências bem-sucedidas e suas formatações, haja vista que estas trazem consigo as novas gramáticas sociais da inclusão.

As posições de Pateman e Santos merecem desdobramentos. O caráter educacional e pedagógico da participação não pode ser considerado como um fim em si mesmo. Há que se atentar que o processo participativo recebe um fluxo de diversas influências externas típicas das arenas onde ocorrem o jogo político, não sendo possível concluir que sempre haverá um resultado positivo decorrente do processo participativo. Experiências mal sucedidas de participação podem gerar um efeito contrário - um desestímulo à participação preconizada pela autora.

Por outro lado, a agregação social apontada pela autora só terá efeitos concretos se não houver uma crise de representatividade entre o representante e os representados, ou seja, uma plena comunhão de interesses.

As recentes experiências participativas defendidas por Santos como formadoras de novos arranjos institucionais também não estão infensas a críticas. Os estudos de Pires e Vaz (2012) têm demonstrado que não há um modelo de sucesso a ser seguido, pois as diferentes políticas públicas para o cumprimento de diferentes objetivos e papéis devem ser conduzidas através de mecanismos e instrumentos adequados, isto sim, capazes de interferirem na gestão e na produção

das políticas públicas, ou seja, não há um modelo ideal e igual de participação, mas sim realidades que são construídas de acordo com o ambiente social. O meio não assegura o resultado.