A PEDAGOGIA DE "LATA"
MARTA INAUGURA EM PERUS O TERCEIRO ESCOLÃO (Manchete do jornal Folha de S. Paulo, em 25/8/03)
MARTA CONSTRÓI CEU E MANTÉM CRIANÇAS NO INFERNO (ESCOLAS DE LATA) (Manchete publicada no jornal de bairro Folha de Vila Prudente, em setembro de 2003)
As manchetes epigrafadas, publicadas na imprensa de grande circulação e na imprensa local, no ano de 2003, procuram exemplificar como o neoliberalismo, com sua sutileza ideológica, procurou desqualificar os Centros Educacionais Unificados, por meio de estratégias específicas, que transformam os meios de comunicação em "meios de fabricação da representação".24
Denominamos metaforicamente de "Pedagogia de Lata" a política educacional baseada no neoliberalismo, pois a concebemos como pedagogia ideologicamente fabricada, que será objeto de reflexão no presente capítulo.
A década de 90 marcou, no Brasil, a implementação e o crescimento de políticas neoliberais. Embora procurando examinar características e conseqüências da política neoliberal na educação do município de São Paulo, não podemos desconsiderar que tal política faz parte de um projeto muito maior, de um projeto que ultrapassa as fronteiras da educação, das cidades, dos países, constituindo-se como uma política globalizada. Esta política globalizada sustenta-se na ocupação local, na invasão individual das pessoas, na identidade das sociedades e comunidades, descaracterizando-as, confundindo conceitos como individual, local, global e particular — impondo, hegemonicamente, uma única lógica e uma única possibilidade.
O termo "globalização", amplamente utilizado na última década, guarda em si uma série de contradições entre aquilo que se propaga e o que efetivamente é vivenciado.
A globalização difundida no mundo pelo sistema capitalista, mediante políticas neoliberais, traduz a dimensão de poder das grandes potências econômicas. Estas,
24 Conceito desenvolvido por Silva (2002). Tomaz Tadeu da Silva
é professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
com diferentes estratégias, impõem aos diferentes países, com o apoio de parcela das burguesias locais, uma pauta comum de políticas administrativas, econômicas, sociais e educacionais, condicionada às relações do mercado e do capital especulativo, em que se ampliam as disparidades sócio-econômicas e as conseqüentes formas de exclusão.
A propagação das idéias de que é inexorável o domínio do sistema capitalista e suas formas de organização e de que, com o fim da Guerra Fria, o conhecimento e a informação passaram a substituir a dimensão tradicional de produção e classes sociais procura seduzir e convencer ideologicamente as diferentes sociedades sobre o fim da história e da utopia.
O capitalismo contemporâneo, com a configuração que vem assumindo nas últimas décadas, acentuou sua lógica destrutiva. Num contexto de crise estrutural do capital, desenham-se algumas tendências, que podem assim ser resumida: 1 – o padrão produtivo taylorista e fordista vem sendo crescentemente substituído ou alterado pelas formas produtivas flexibilizadas e desregulamentadas, das quais a chamada acumulação flexível e modelo japonês ou toyotismo são exemplos; 2 – o modelo de regulação social-democrático, que deu sustentação ao chamado estado de bem-estar social, em vários países centrais, vem também sendo solapado pela (des)regulação neoliberal, privatizante, anti-social. (ANTUNES, 2002, p. 37)
Scocuglia (2005)25 destaca que a globalização econômica, ao inculcar sobre o
mundo a lógica de uma minoria, efetivamente pouco possui de globalização, mas, por meio do poder e de suas estratégias, impõe, utilizando-se de diferentes instrumentos, aparentemente imperceptíveis, um "localismo globalizado" que leva a conseqüências específicas para os dominados, denominadas de "globalismo localizado".
O que efetivamente existe é a imposição de uma lógica de organização e regulação da vida e da política, de cima para baixo, em que a reprodução e a perpetuação do poder sedimentam-se na miséria das maiorias.
Não obstante a globalização do capitalismo atual significar, no plano histórico, uma exacerbação dos processos de exploração e alienação e de todas as formas de exclusão e violência, produção de desertos econômicos e humanos, os conceitos de pós-industrial, pós-classistas, pós-moderno, sociedade do conhecimento, surgimento do cognitariado, dão a entender que a estrutura de
25
Afonso Celso Scocuglia é docente e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal da Paraíba.
exploração capitalista foi superada, sem que tenha superado as relações capitalistas. (FRIGOTTO, op. cit., p. 81)
A análise histórica do sistema capitalista demonstra que tal sistema, diante de suas contradições e crises, reveste-se de grande capacidade de mutabilidade em suas políticas e formas organizativas, objetivando a (re)produção do capital. A segunda metade do século XX caracterizou-se, para os capitalistas, como um período de grande preocupação, pois a necessidade criativa de reestruturação econômica tornou-se imperativa diante dos problemas ligados à acirrada competitividade intercapitalista e a obstáculos às tradicionais formas de produção, que demonstrava certo grau de esgotamento. A busca por saídas de tal crise fez com que, diante do grau de desenvolvimento do capital e do poder, entre os países do globo, as conseqüências pela busca de reestruturação (globalização neoliberal) se estabelecessem de forma diferenciada entre países ricos e países pobres. Nesse contexto, dois elementos chaves para revisão do processo produtivo ganharam destaque: produtividade e competitividade. Camuflavam-se as diferentes condições históricas, culturais, sociais, as diferenças econômicas e relações desiguais de poder, concentrando-se a responsabilização pelo sucesso ou fracasso da "empreitada" numa dimensão individual.
Por sua vez, diante das novas exigências do capitalismo, retoma-se com ênfase a importância da formação de mão-de-obra (capital cultural), que possa corresponder ao aumento da produtividade e competitividade. Destaca-se, assim, a importância de pessoas criativas e flexíveis, que, com autonomia, possam se inserir na chamada "sociedade da informação".
Nas relações capitalistas do pós-fordismo, a necessidade de não especialização da mão-de-obra produtiva ganha destaque mediante novas tecnologias. A transformação do processo produtivo, fortemente influenciado pelo modelo do toyotismo, tem criado, de um lado, o trabalhador polivalente, capaz de operar máquinas com controle numérico, o que exige uma dimensão intelectual e de autonomia, e, de outro lado, uma massa de trabalhadores sem qualificação, subempregados e que vivenciam o desemprego estrutural.
As mudanças da tecnologia com base na microeletrônica, mediante a informatização e robotização, permitem ampliar a capacidade intelectual associada à produção e mesmo substituir, por autômatos, grande parte das tarefas do
trabalhador. Como nos mostra Castro, "as novas tecnologias (microeletrônicas, informáticas, químicas e genéticas) se diferenciam das anteriores pelo predomínio da informação sobre a energia". A informação é a terceira dimensão da matéria, sendo as outras duas energia e massa. Os processos microeletrônicos, mediante o acoplamento de máquinas a computadores e informatização, permitem uma alteração radical no uso, controle e transformação da informação. Facultam, de outra parte, a flexibilização das seqüências, da integração, da otimização do tempo e do consumo de energia e uma profunda mudança da relação do trabalhador com a máquina. (FRIGOTTO, op. cit., p. 44)
Decorrente da "nova" organização do sistema econômico, o sistema escolar, mais do que antes, passa a ser encarado como estratégico para a formação de trabalhadores com as características necessárias às novas exigências do mercado. A política neoliberal, de caráter globalizado, impõe uma pauta supranacional, baseada em conhecimentos e habilidades necessárias, para os diferentes sistemas educacionais.
As principais propostas do modelo neoliberal são: 1) Conteúdos mínimos e socialmente necessários, verificados através de exames nacionais. 2) Redução dos benefícios dos trabalhadores da educação (que acabaram financiando, em parte, a expansão do sistema educacional nas últimas décadas) e promoção por sistema de prêmios e castigos. Restrições orçamentárias e diminuição do salário dos professores (um média de duzentos dólares) e necessidade de o professor em atuar em dois lugares por dia, durante oito horas, o que, além de afetar a qualidade do seu trabalho, prejudica a sua saúde física e mental e dificulta a sua atualização e reflexão crítica continuada. 3) Centralização curricular e pedagógica (exemplo: a avaliação nacional). 4) Descentralização das responsabilidades e municipalização do ensino fundamental. 5) Padrões de gestão mercantis da escola. (GADOTTI, 2006, p. 69)
O neoliberalismo, nova roupagem do capitalismo, inicialmente implantado em alguns países do Primeiro Mundo (com Margaret Thatcher,26 na Inglaterra, e com
Ronald Reagan,27 nos Estados Unidos da América), foi ultrapassando as fronteiras
dos Estados nacionais, num processo de internacionalização e flexibilização do capital, chegando à América Latina, principalmente a partir dos anos 90. Destacamos que a ampliação e os resultados do neoliberalismo dos países ricos
26
Margaret Thatcher exerceu o cargo de primeira-ministra da Grã-Bretanha por 11 anos, a partir de 4 de maio de 1979. Desenvolveu, com um estilo direto e autoritário de governo, um projeto neoliberal de governo. Afirmava ter por objetivo otimizar o desenvolvimento econômico e tecnológico da Grã- Bretanha. Combateu arduamente o socialismo e ficou conhecida como "Dama de Ferro".
27
Ronald Reagan foi presidente dos EUA de 1981 a 1989, desenvolvendo agressiva política neoliberal, com características de ultradireita. Combateu o socialismo até o fim da Guerra Fria.
para os países pobres deu-se de forma desigual, elevando a dependência e a vulnerabilidade dos países periféricos em relação aos países desenvolvidos.
As políticas neoliberais guardam em si estratégias renovadas e inovadoras, no sentido da perpetuação do sistema capitalista, ressignificando as formas de representação do real. O neoliberalismo caracteriza-se pela reengenharia, por seu meticuloso e intencional processo de planejamento, em que estratégias, ações e projetos são pensados e desenhados.
O neoliberalismo tem se utilizado do desenvolvimento tecnológico e do desenvolvimento dos meios de comunicação, apropriando-se de diferentes linguagens, para divulgar a ideologia dos grupos dominantes, através de estratégias de sedução.
Essas novas formas de constituição da identidade pessoal e social partem de uma compreensão muito precisa do papel da chamada cultura de massa. Nessa compreensão, os chamados meios de comunicação não são vistos propriamente como meios de comunicação ou como meios de representação da realidade, mas como meios de fabricação da representação e do envolvimento afetivo do(a) expectador(a) e do(a) consumidor(a). (SILVA, 2002, p. 17-18)
A fabricação de uma cultura de massa, que dicotomiza o bem e o mal, abusando de questões moralizantes, parte de uma única lógica: a valorização da cultura hegemônica. Para tanto, como afirmamos, distorce o real e deste impõe uma única forma de representação. Tudo que venha se contrapor à ideologia construída caracteriza-se como o mal. Por via dessa lógica, se estabelece o mercado como o regulador das relações econômicas, sociais e políticas. A vida humana e suas organizações passam a ser regidas pela lógica do mercado. A iniciativa privada é apresentada como exemplo de produtividade e eficácia a ser seguido. Combate-se a atuação social do Estado, e propõe-se um Estado mínimo em termos de políticas públicas.
A globalização capitalista trabalha com a noção de "governo" (aparatos administrativos) separada da noção de "Estado". O Estado além do governo tem uma dimensão simbólica que inclui a noção de cidadania. Ele não apenas financia a educação, mas também constrói valores, sentido (direitos, cidadania,...). Para o "globalismo", o cidadão é reconhecido apenas como cliente, como consumidor, que tem uma "liberdade de escolha" entre diferentes produtos. O cidadão precisa apenas ser bem informado para escolher... (GADOTTI, 2006, p.64).
As reformas educacionais dos anos 90, fortemente influenciadas pelas políticas neoliberais, apresentaram a educação como um dos principais instrumentos para a preparação do cidadão competente e empregável, procurando atender as regras da mundialização do capital. Para tanto, a escola assumiu o papel do desenvolvimento de processos cognitivos e do desenvolvimento de conteúdos necessários para a formação do cidadão do mundo globalizado.
Nas políticas educacionais neoliberais, o significado da educação com qualidade restringe-se à idéia do rendimento escolar, ao domínio do conteúdo curricular e ao desenvolvimento de habilidades necessárias ao chamado mundo globalizado. Daí a implantação dos exames externos classificatórios, em que o ranking das escolas estimula a individualização dos resultados e a competitividade.
Não compactuando com a tese do quanto pior melhor e com as perspectivas apologéticas, parece-nos importante mostrar primeiramente que os novos conceitos abundantemente utilizados pelos homens de negócio e seus assessores — globalização, integração, flexibilidade, competitividade, qualidade total, pedagogia da qualidade e a defesa da educação geral, formação polivalente e "valorização do trabalhador" — são uma imposição das novas formas de sociabilidade capitalista, tanto para esclarecer um novo padrão de acumulação, quanto para definir as formas concretas de integração dentro da nova reorganização da economia mundial. (FRIGOTTO, 2002, p. 40-41)
Voltamos a nos referir às duas manchetes destacadas no início deste capítulo. A primeira refere-se à representação do CEU como "Escolão". Tal representação, densamente carregada de ideologia, apresenta-nos a imagem do CEU associada a um Estado grande e forte, conseqüente ineficaz e inoperante. Por trás da manchete, subentende-se que um sistema educacional eficaz deve remeter a um Estado mínimo diante de políticas sociais. O CEU, a partir do seu projeto arquitetônico, refere-se a um conceito de educação e de Estado que se contrapõe à visão neoliberal; logo, precisa ser combatido. Utilizando-se da mídia e da linguagem metafórica, os meios de comunicação de massa, a serviço das classes dominantes, procuram fabricar representações que distorcem o real e camuflam luta de classes. Por outro lado, a segunda manchete expõe a contraposição entre as "escolas de lata"28 e o projeto arquitetônico do CEU. A partir de uma linguagem de impacto,
28 "Salas de lata", "salas emergenciais", "salas modulares" ou ainda "escolas de lata" foram entregues
à população durante a gestão do prefeito Celso Pitta (1997-2000). Receberam esse nome em decorrência do material de que eram feitas tais salas.
manipulam a informação por meio de uma dimensão afetiva, sedutora e moralizante, deixando de apresentar uma análise de conteúdo.
As relações entre forma e conteúdo precisam ser dialeticamente analisadas. Como, por que e quando foram construídas as "salas de lata"? Onde estão localizadas? Que conceitos de Estado e políticas públicas dão sustentação ao projeto das "salas de lata"? A construção dos CEUs inviabiliza o processo de substituição de tais salas?
Apresentamos tais reflexões para exemplificar algumas estratégias neoliberais que objetivam a fabricação ideológica do Estado mínimo. No Capítulo IV, examinaremos o projeto dos Centros Educacionais Unificados. Propomo-nos, aqui, a destacar as influências do neoliberalismo na educação do município de São Paulo, o que denominamos de "Pedagogia de Lata" e cuja maior concretude pode ser visualizada nas chamadas "salas emergenciais", que, apesar do nome, não expressaram qualquer improviso ou falta de planejamento, mas uma explícita intencionalidade de sucateamento da educação destinada às classes sociais mais excluídas.
O pensamento neoliberal não é contraditório ao aceitar a miséria quando desenvolve suas teses econômicas. Se propusesse o fim da miséria, estaria propondo um sistema econômico que levaria ao fim do proletariado, à inclusão de todos/as à economia. Disto decorreria o próprio fim da burguesia, pois sem proletariado não há burguesia; sem antagonismo não há economia de mercado. A miséria, no capitalismo, foi explicada por Marx através, dentre outros fatores, da luta intrínseca da burguesia, classe específica do modo de produção capitalista. O aumento da indigência, segundo ele, decorre da luta pelo desenvolvimento do capitalismo. Enquanto todos os membros da burguesia moderna têm os mesmos interesses, na medida que formam uma classe perante outra classe, eles desenvolvem interesses opostos quando colocados entre si. Os interesses antagônicos decorrem das condições econômicas da vida da burguesa. Por isso, as relações de produção nas quais se move à burguesia não têm um caráter único, mas um caráter de duplicidade, uma vez que "... nas mesmas relações nas quais se produz riqueza, também se produz miséria; que, nas mesmas relações nas quais há desenvolvimento das forças produtivas, há uma força produtora de repressão" (Marx). Contudo, da mesma forma que essas relações produzem a riqueza da classe dominante, destroem continuamente a riqueza dos membros integrantes dessa classe e produzem um proletariado sempre crescente. A miséria e a exclusão são o resultado continuado e crescente dos desdobramentos do modo de produção capitalista. (DEL PINO, 2002, p. 69)
Após quatro anos da busca pela construção de uma educação pública e popular (1989-1992), o município de São Paulo enfrentou uma década fortemente influenciada por políticas neoliberais (1993-2000).
Durante a gestão da prefeita Luiza Erundina de Souza (1989-1992), São Paulo, administrada pelo Partido dos Trabalhadores, teve como secretários de educação o professor Paulo Freire (1989-1990) e, em seguida, o professor Mário Sérgio Cortella (1991-1992). Ambos procuraram coordenar um processo de democratização da educação paulistana por meio de estreita relação com os movimentos sociais, com os educadores, educandos e comunidade. Concebiam a democracia como processo de participação e protagonismo.29
Nesse período, foram preocupações constantes da administração municipal questões como democratização da gestão, reorientação curricular, formação docente e ampliação do acesso e permanência na escola, bem como educação de jovens e adultos. O processo culminou com a publicação do Regimento Comum das Escolas Municipais, que, entre tantas inovações, pioneiramente, introduziu os ciclos em todo o 1º Grau (Ensino Fundamental).30
Promulgou-se, também, a Lei nº 11.229/92, o Estatuto do Magistério Municipal, em que, dentre outros ganhos, se reconhecia a importância da formação docente no local de trabalho, ampliando-se a jornada docente e se garantindo amplo espaço de formação.31
Em 1993, com apoio das forças conservadoras da cidade, São Paulo passou a ser administrada pelo prefeito Paulo Maluf, que, para a área da educação, nomeou como secretário o professor Sólon Borges dos Reis.32
A política educacional da cidade passou por uma transformação de paradigma que levou a um processo de descontinuidade do conceito de democratização da educação, no sentido da
29
Para melhor compreender o período em que Paulo Freire esteve à frente da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, cf. Freire (1991).
30 Em 1992, com o Regimento Comum das Escolas Municipais, materializou-se a proposta de
organização da escola em ciclos, ou seja, o Ensino fundamental (1º Grau) passou a se compor de três ciclos: o inicial (as antigas 1ª, 2ª e 3ª séries), o intermediário (as antigas 4ª, 5ª e 6ª séries) e o ciclo final (as antigas 7ª e 8ª séries). Esse sistema estabeleceu-se como outra maneira de organização escolar, contrapondo-se à organização em série. Objetivava combater o caráter seletivo e excludente da escola. Epistemologicamente, compreendia-se o conhecimento como o processo de construção, que exige por parte dos educadores intervenções que visem à superação das dificuldades (naturais no processo construtivo) dos educandos. Cf. Aguiar (2005).
31 A Lei 11.229/92 estabeleceu, entre outras jornadas docentes, a de trabalho integral, composta por
25 horas-aulas de trabalho com alunos, oito horas de trabalho coletivo para estudo e planejamento e três horas de trabalho individual.
32 S
construção de uma educação pública e popular. Tal administração, com decisões fortemente centralizadas e influenciada pela política neoliberal, estabeleceu como centro da política educacional a qualidade total na educação.
Objetivando a implementação de tal proposta, a Secretaria Municipal de Educação paulistana elaborou três coletâneas de publicações intituladas DOT – Encontro, Contexto e Com a palavra. Autores como Cosete Ramos, Maria Cristina Amorim, Ronaldo Antonio Gonçalves, Dirceu Moreira e Eduardo Najar passaram a fazer parte da bibliografia de capacitação da rede. Temas como "escola de qualidade total" e "planejamento estratégico situacional" constituíram-se como referenciais para organização dos projetos pedagógicos das unidades escolares. O conceito de qualidade total, desenvolvido pela iniciativa privada, teve sua origem com o fim da II Guerra Mundial, quando a organização de nova lógica de mercado e produção, de demanda e de produtividade exigia dos capitalistas alternativas criativas que superassem o pensamento tradicional sobre administração empresarial. Com o fim da Guerra Fria,33 a hegemonia do neoliberalismo deu novo
impulso à busca da produtividade e competitividade do mercado.
A sobrevivência da empresa passou a ligar-se ao imperativo atendimento da clientela, antecipando-se mesmo às suas necessidades. A administração empresarial curvou-se à constatação de que, para manter-se competitiva, deveria envolver de fato todos os seus membros no processo produtivo, criando- se identificação entre os objetivos pessoais e os da empresa. (SÃO PAULO [CIDADE], SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO, DIRETORIA DE ORIENTAÇÃO TÉCNICA, 1993, p. 10).
Como se pode observar, a política neoliberal resume os seres humanos às relações do mercado. Transforma os sujeitos em clientes. Para tanto, associam-se produtividade e eficiência à satisfação dos clientes, entendendo-se tal satisfação como ampliação do consumo.
Na dimensão educacional, os alunos são transformados em clientes, e o sistema educacional deve ser gerido de forma empresarial. O conhecimento precisa ser consumido; a escola deve preparar seus clientes para o mercado, a partir das