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PRESSUPOSTOS TEÓRICOS

1.7 A Pedagogia Histórico-Crítica

A Pedagogia Histórico-Crítica se firmou no Brasil em 1979, tendo como principal representante Demerval Saviani.

Esse autor, em seus textos, procurou mostrar o papel histórico da escola e da educação nas sociedades capitalistas, ou seja,

[...] destaca a importância da historicidade do fenômeno educativo ao longo do devir Histórico do desenvolvimento do homem, desenvolvimento cujo processo denota a transformação da realidade natural em uma realidade humanizada (MARX, 1985, apud GIARDINETTO, 2006, p. 87).

Saviani mostra que a educação, especificamente a escolar, origina do processo de transformação da realidade natural em uma realidade humanizada e é responsável em transmitir aos indivíduos, além dos conteúdos “clássicos”, conteúdos que tenham como finalidade a crítica social.

Por isso, de acordo com Giardinetto (2006), essa teoria é crítica porque possibilita o reconhecimento da educação como um elemento condicionado aos interesses da classe hegemônica, condicionamento esse, não integral, pois, de acordo com esse autor, se fosse integral seria mais uma teria crítico-reprodutivista.

Nessa teoria há uma preocupação em articular a escola com os interesses das camadas populares, reconhecendo essa como uma instituição mediadora, entre os

conhecimentos científicos significativos e os estudantes que deles irão se apropriar. A escola e educação, de acordo com Saviani (2003), têm o papel fundamental de proporcionar às camadas populares a cultura erudita, possibilitando aos dominados a superação do senso comum provindo da cultura popular que não possui caráter científico.

Sendo assim, para este autor, a tarefa da educação é a realização da troca do senso comum pelo saber científico, devendo a escola ser a responsável e mediadora por essa troca.

Saviani afirma:

[...] se o povo tem acesso ao saber erudito, o saber não é mais sinal distintivo de elites, quer dizer, ele se torna popular. A cultura popular, entendida como aquela cultura que o povo domina, pode ser a cultura erudita, que passou a ser dominada pela população... O povo precisa da escola para ter acesso ao saber erudito, ao saber sistematizado e, em conseqüência, para expressar de forma elaborada os conteúdos da cultura popular que correspondem aos seus interesses (SAVIANI, 2003, p. 79-80).

Aí a importância do acesso ao saber escolar, defendido por essa teoria, um acesso que deve ser possibilitado a todos os indivíduos, essa defesa é uma “bandeira de luta” por todos os educadores que se identificam com essa teoria, segundo Giardinetto (2006), que ressalta ainda que essa defesa não seja da escola que está aí, “o que se defende é a escola enquanto legado histórico que a faz ser instituição formativa necessária e imprescindível a todo indivíduo” (GIARDINETTO, 2006, p. 91).

Nessa teoria, o contexto da aula deve partir da realidade social vista como prática social. Esse deve ser o ponto de partida e de chegada no processo de ensino, pois, para a Pedagogia Histórico-Crítica, o ensino deverá identificar, equacionar e sugerir soluções para os problemas que são postos pela prática social.

Porém é importante que se distinga o ponto de partida do ponto de chegada, Saviani (2002), em seu texto “Para além da teoria da curvatura da vara”, mostra essa diferença, ressaltando que “no processo pedagógico o ponto de chegada tem que mostrar o que não foi visto no ponto de partida, referindo-se à igualdade que é algo não dado no ponto de partida, mas deve ser dado no ponto de chegada”. Continuando seu raciocínio Saviani, destaca:

A cultura popular, do ponto de vista escolar, é da maior importância enquanto ponto de partida. Não é, porém, a cultura popular que vai definir o ponto de chegada do trabalho pedagógico nas escolas. Se as escolas se limitarem a

reiterar a cultura popular, qual será sua função? Para desenvolver cultura popular, essa cultura assistemática e espontânea, o povo não precisa de escola (SAVIANI, 2003, p. 80).

Portanto a democratização da cultura erudita, com vistas para a superação do senso comum torna-se meta para um projeto de transformação social.

A escola, segundo essa teoria, não transforma o mundo sozinha, mas pode transformar as pessoas, para que essas possam buscar de forma coletiva a transformação social.

[...] Saviani considera que a educação, por si só, como também outras modalidades da prática social, não transforma diretamente a estrutura social. A transformação que a educação opera é aquela que se dá através do processo de transformação das estruturas, a educação enquanto transformação das consciências é condição essencial. Ou seja, a transformação das consciências aí não existe como uma mera conseqüência da transformação das condições materiais da sociedade, mas ela já é parte do processo (OLIVEIRA, 2004, p. 120-121).

Esta transformação não ocorre diretamente com o ato de ensinar e com a instrução que os indivíduos possam receber na escola, porém esses últimos, através da incorporação de conteúdos, são condições mediadoras para resolução dos problemas postos pela prática social.

É sob esse aspecto que o papel do professor nessa pedagogia é de mediador entre o aluno e o conhecimento, segundo Nassarala (2001), é ele quem fará a relação entre a teoria e atividade prática, ele quem irá eleger os conteúdos que serão confrontados com a realidade social, além de decidir as técnicas mais adequadas para a assimilação desses conteúdos, de forma a permitir aos alunos das camadas populares apropriarem-se de um novo conhecimento, possibilitando aos mesmos fazerem uma leitura de mundo sob uma outra perspectiva, que não a do senso comum.

A relação feita pelo professor, entre a teoria e atividade prática, deverá valorizar a instrução como um meio para a instrumentalização das pessoas.

Os conteúdos são fundamentais e sem conteúdos relevantes, conteúdos significativos, a aprendizagem deixa de existir, ela transforma-se num arremedo, ela transforma-se numa farsa. Parece-me, pois, fundamental que se estenda isso e que, no interior da escola, nós atuemos segundo essa máxima: a prioridade de conteúdos, que é a única forma de lutar contra a farsa do ensino (SAVINI, 2002, p. 55).

Essa teoria defende os conteúdos como elementos fundamentais para o acesso ao saber elaborado da cultura erudita, dessa forma a democratização da cultura, realizada

pela escola, poderá tornar-se uma forma de rompimento com a exclusão cultural e social das camadas populares. O domínio desses conteúdos torna-se uma das ferramentas para auxiliar no início da transformação das relações de dominação capitalista.

Os conteúdos que serão ensinados aos alunos deverão compreender, além de uma cultura erudita, a clássica, que possibilitem a todos a aquisição da herança histórica e cultural produzida pela humanidade, também deverão possibilitar uma visão de mundo social que, segundo Mochcovitch (1988), permitirá aos indivíduos se inserirem nas relações sociais, políticas e culturais de uma sociedade moderna.

Esses conteúdos por si só não carregam o sentido democrático, se não estiverem relacionados com o contexto sócio-político, econômico e cultural do país.

É preciso que esses conteúdos escolares possibilitem aos indivíduos perceberem- se em uma sociedade de relações capitalistas que se expande. Conhecendo as leis civis e estatais, bem como sua evolução histórica, permitindo aos indivíduos compreenderem que essas leis podem ser transformadas por nós através da luta de classes para a melhoria de todos, principalmente daqueles que são marginalizados.

Se a Pedagogia Histórico-Crítica tem como fundamental preocupação articular a escola com os interesses das camadas populares visando possibilitar o acesso às objetivações para-si, essa teoria se concilia com a abordagem dos Temas Político- Sociais, utilizando-se dos diversos meios didáticos, com vistas a se aproximar da forma de abordar esses temas no ensino, defendida neste trabalho, proporcionando assim, uma formação em que os indivíduos tomem posse do saber elaborado, social e culturalmente acumulado, além de possibilitar a formação de uma consciência crítica.

Com o acesso aos conteúdos clássicos e aos conteúdos Político-Sociais, é possível que os indivíduos alcancem a humanização, partindo de sua prática social, alcançando o conhecimento acumulado pelo gênero humano, sendo que esse acesso deve ser garantido através da escola e educação escolar; dessa forma as pessoas tornaram-se fortalecidas politicamente e instrumentalizadas para almejarem a transformação da sociedade em que vivem.

CAPÍTULO 2