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OS DOCUMENTOS OFICIAIS, AS COLEÇÕES DE LIVROS DIDÁTICOS E OS TEMAS TRANSVERSAIS: REALIDADE OU UTOPIA?

6.2 Os PCN – Temas Transversais

“O compromisso com a construção da cidadania pede necessariamente uma prática educacional voltada para a compreensão da realidade social e dos direitos e responsabilidades em relação à vida pessoal e coletiva e a afirmação do princípio de participação política” (PCN-TEMAS TRANSVERSAIS, 1998, p. 17).

Sob essa perspectiva e preocupação é que a Secretaria da Educação Fundamental instituiu, nesse nível de ensino, o trabalho com questões sociais, apresentando o documento PCN – Temas Transversais.

Esses documentos trazem a cidadania como eixo vertebrador da educação. Sendo assim, torna-se necessário que questões sociais sejam apresentadas para a aprendizagem e reflexão dos alunos com a mesma importância das áreas convencionais.

Os PCN, ao proporem uma educação comprometida com a cidadania, preocuparam-se em eleger princípios baseados no texto constitucional, com o intuito de orientar a educação escolar de maneira a conduzir os indivíduos a agirem contra valores que desrespeitem os princípios de participação, co-responsabilidade pela vida social, igualdade de direitos e dignidade da pessoa humana.

Ainda esses documentos ressaltam que a realidade social, “por ser constituída de diferentes classes e grupos sociais, é contraditória, plural e polissêmica, e que isso implica na presença de diferentes pontos de vistas e projetos políticos” (PCN - TEMAS TRANSVERSAIS, 1998, p. 23), o que possibilita perceber que os valores e os limites da sociedade são também contraditórios.

De acordo com esses documentos, a escola não muda a sociedade, mas pode constituir-se em um espaço de transformação com segmentos sociais assumindo os

princípios democráticos. Explicitando que, para a concretização desse projeto, é necessária a compreensão de que as práticas pedagógicas, além de social, também são políticas.

Estes documentos lembram que a seleção dos conteúdos deve incluir questões que permitam aos indivíduos compreenderem e fazerem uma crítica da realidade social, e não apenas serem tratados como meros dados a serem aprendidos para “passar de ano”, mas sim devem “oferecer aos alunos a oportunidade de se apropriarem deles como instrumentos para refletirem e mudar suas próprias vidas” (PCN - TEMAS TRANSVERSAIS, 1998, p.24).

A partir desses argumentos foram propostos pelos PCN os temas: Ética, Meio Ambiente, Pluralidade Cultural, Saúde e Orientação Sexual, bem como outros temas que possam ser de urgência e abrangência nas diferentes realidades regionais nacionais.

Esses temas foram propostos para integrar as áreas convencionais e estarem presentes em todas elas, tendo a Ética como o norteador dos demais.

De acordo com estes documentos, os temas escolhidos para serem tratados em sala de aula foram selecionados, seguindo critérios de:

Urgência Social; Abrangência Nacional;

Possibilidade de ensino e aprendizagem no ensino fundamental, e Favorecer a compreensão da realidade e a participação social.

Para esses documentos, os temas transversais, por tratarem de questões sociais, têm natureza diferente das áreas convencionais. Devem ser trabalhados, portanto, de “forma contínua, sistemática, abrangente e integrada, e não como áreas e disciplinas” (PCN – TEMAS TRANSVERSAIS, 1998, p. 27).

Esses documentos ressaltam ainda que:

Diante disso optou-se por integrá-las no currículo por meio do que se chama de transversalidade: pretende-se que esses temas integrem as áreas convencionais de forma a estarem presentes em todas elas, relacionando-as às questões da atualidade e que sejam orientadores também do convívio escolar (Ibidem).

Quando se trata de como trabalhar com esses temas, os documentos explicitam que os professores deverão apontar as relações existentes entre os conteúdos clássicos das diferentes disciplinas e os Temas Transversais e incluí-los como conteúdos, articulando as finalidades do estudo escolar e as questões sociais.

Enfim, os PCN – Temas Transversais (1998) afirmam que tais temas não devem ser trabalhados paralelamente, mas deve-se trazê-los para os conteúdos e para a metodologia da área ao qual se está trabalhando.

Os PCN - Temas Transversais afirmam que a relação entre esses temas e as áreas convencionais deve ocorrer de forma que as diferentes áreas considerem os seus objetivos e conteúdos propostos, e que questões relativas ao temas, sejam trabalhadas em alguns momentos, de forma que as diferentes áreas convencionais as respondam.

O trabalho com esses temas, de acordo com os PCN, não tratará apenas do trabalho do docente em sala de aula, mas é necessário que haja uma interação de toda a comunidade escolar.

Esses documentos ainda expõem que o trabalho com a transversalidade se define em torno de quatro pontos, a saber:

• os temas não constituem novas áreas, pressupondo um tratamento integrado nas diferentes áreas;

• a proposta de transversalidade traz a necessidade de a escola refletir e atuar conscientemente na educação de valores e atitudes em todas as áreas, garantindo que a perspectiva político-social se expresse no direcionamento do trabalho pedagógico; influencia a definição de objetivos educacionais e orienta eticamente as questões epistemológicas mais gerais das áreas, seus conteúdos e, mesmo, as orientações didáticas;

• a perspectiva transversal aponta uma transformação da prática pedagógica, pois rompe o confinamento da atuação dos professores às atividades pedagogicamente formalizadas e amplia a responsabilidade com a formação dos alunos. Os Temas Transversais permeiam necessariamente toda a prática educativa que abarca relações entre os alunos, entre professores e alunos e entre diferentes membros da comunidade escolar;

• a inclusão dos temas implica a necessidade de um trabalho sistemático e contínuo no decorrer de toda a escolaridade, o que possibilitará um tratamento cada vez mais aprofundado das questões eleitas. Por exemplo, se é desejável que os alunos desenvolvam uma postura de respeito às diferenças, é fundamental que isso seja tratado desde o início da escolaridade e que continue sendo tratado cada vez com maiores possibilidades de reflexão, compreensão e autonomia. Muitas vezes essas questões são vistas como sendo da “natureza” dos alunos (eles são ou não são respeitosos), ou atribuídas ao fato de terem tido ou não essa educação em casa. Outras vezes são vistas como aprendizados possíveis somente quando jovens (maiores) ou quando adultos. Sabe-se, entretanto, que é um processo de aprendizagem que precisa de atenção durante toda a escolaridade e que a contribuição da educação escolar é de natureza complementar à familiar: não se excluem nem se dispensam mutuamente (PCN - TEMAS TRANSVERSAIS, 1998, p. 28- 29).

Enfim como uma última forma de trabalhar com os Temas Transversais, esses documentos propõem que seja organizado o trabalho a partir de projetos, justificando

que,

Esse tipo de organização permite que se dê relevância às questões dos Temas Transversais, pois os projetos podem se desenvolver em torno deles e serem direcionados para metas objetivas, com a produção de algo que sirva como instrumento de intervenção nas situações reais (como um jornal, por exemplo) (PCN - TEMAS TRANSVERSAIS, 1998, p. 41).

Esses documentos ressaltam, ainda, que esse tipo de trabalho possibilita que professores e alunos possam compartilhar os objetivos do trabalho e que esse poderá girar em torno de uma ou mais questões.

Esse tipo de trabalho, segundo esses documentos, deve ser muito bem organizado e planejado, com os objetivos muito bem explicitados e as etapas do trabalho muito bem definidas para que os objetivos e metas sejam alcançados.

Esse trabalho, de acordo com esses documentos, deve ser feito como parte integrante das atividades programadas para a disciplina a que se destina e não como uma atividade extra.

Percebe-se que, de acordo com a descrição, os documentos PCN - Temas Transversais mostram-se um material que explicitamente demonstra a preocupação com a formação para a cidadania, a partir da proposta de se trabalhar a transversalidade nas diferentes disciplinas curriculares através de conteúdos que envolvam discussões sobre a saúde, o meio ambiente, a ética, a pluralidade cultural, a orientação sexual e o trabalho e consumo. Propondo maneiras de se trabalhar com essa transversalidade e mostrando- se de acordo e complementar aos propósitos da LDB 9394/96 e as Diretrizes Curriculares Nacionais (CEB 02/98).

Esses documentos incorporam os Temas Transversais às disciplinas curriculares, sendo essas consideradas como eixo estruturadores do currículo, devendo os Temas Transversais perpassá-las, o que diferencia da proposta do trabalho com os Temas Transversais/Político-Sociais defendida nesta pesquisa.