Foto 05 – Supermercado Irmãos Cantalice associado à Rede Seridó em Equador (RN).
5 AS REDES ASSOCIATIVISTAS DE SUPERMERCADOS NO CONTEXTO DAS PEQUENAS CIDADES NORTE-RIO-GRANDENSES
5.2 A PEQUENA CIDADE NO CONTEXTO DA GLOBALIZAÇÃO
O período atual da globalização define possibilidades de contatos múltiplos entre cidades de todas as dimensões além de uma simultaneidade de comunicação ou uma rede intrincada de relacionamentos, possibilitadas pelo meio técnico- científico-informacional. Estas novas relações se expressam ainda pelo rompimento de hierarquias estritas, e, portanto, deve-se reconsiderar a determinação das hierarquias como tradicionalmente foram propostas. Tendo em vista que, o processo geral de urbanização é um fenômeno múltiplo, diferenciado e multidimensional, de caráter mundial. E essa mundialidade atravessa inclusive as pequenas cidades (DAMIANI, 2006).
A sociedade mundial apresenta-se construída em torno de diversos fluxos: de capital, de informação, de tecnologia de interação organizacional, de imagens, de sons, de símbolos, de gostos e sabores. Sendo estes que dominam nossa vida social, econômica, política e simbólica. As relações políticas, econômicas e culturais entre os territórios alteram-se significativamente, ensejando mudanças significativas nos lugares: as metrópoles assumiram novos papéis em escala mundial e as médias e pequenas cidades tem apresentado cada vez mais novas dinâmicas, antes não observadas nos seus espaços.
A globalização potencializou as possibilidades de relações entre as cidades de diferentes tamanhos e variadas distâncias, subsidiadas pelas novas tecnologias da comunicação e informação, propiciando o rompimento da fixidez da tradicional estrutura hierárquica urbana brasileira. No âmbito desse processo ocorreram amplas e importantes mudanças nas esferas econômicas, política, cultural e, também na organização do espaço.
As pequenas cidades têm passado por importantes reestruturações territoriais principalmente em sua composição econômica, advindas, do impacto do processo de reestruturação produtiva das economias capitalistas, iniciado na década de 1970, tendo sido responsável por mudanças importantes nas estruturas organizacionais e no mercado de trabalho, sobretudo, nos países subdesenvolvidos. Associado a isso, observa-se um processo de dinamização de sua vida urbana, com a expansão de áreas habitacionais e ocupação de espaços antes utilizados apenas por atividades essencialmente agrícolas tradicionais realizadas próximas ao perímetro urbano.
Com as mudanças no processo produtivo e de acumulação do capital, e a reestruturação do espaço urbano, no qual as cidades passaram a desempenhar novos papéis e adquiriram novos conteúdos, tornou-se indispensável uma redefinição das hierarquias urbanas estabelecidas até então. Para Santos (2008, p. 285), atualmente “a hierarquia se realiza através de ordens técnicas, financeiras, políticas [...]”, baseadas principalmente na informação a serviço das forças econômicas hegemônicas e do Estado.
Desse modo, as relações hierárquicas urbanas antes instituídas apenas pelo comando de cidades maiores sobre menores tornaram-se mais complexas a partir da manifestação do meio técnico-científico-informacional e exigem maior esforço de análise na qual se considerem as sobreposições e as articulações escalares, assim como as relações cidade-campo.
A análise da dinâmica urbana de pequenas cidades também deve apontar para os impactos decorrentes da globalização, tendo em vista que cada centro, por menor que seja, participa, ainda que não exclusivamente, de um ou mais circuitos espaciais de produção, conforme discorre Santos (1988), produzindo, distribuindo bens, serviços e informações que crescentemente, circulam por intermédio da efetividade, ação de corporações globais e também por intermédio da rede financeira articulada globalmente.
No Brasil, segundo Corrêa (1999), o processo de globalização, efetivou-se de diferentes modos e por intermédio de diversos agentes, atuando desigualmente no tempo e no espaço. Nesse sentido, o referido autor explica que, na etapa atual do desenvolvimento capitalista, ocorreram processos que refuncionalizaram estes núcleos urbanos: mediante perda de atividades e centralidade ou ganhos nos elementos citados; de maior inserção na divisão territorial do trabalho via produção industrial. De acordo com Corrêa:
[...] a globalização causa impacto, ainda que desigualmente, sobre as formas, funções e agentes sociais, alterando-os em maior ou menor grau e, no limite, substituindo-os totalmente. Trata-se de uma reestruturação espacial que se manifesta, no plano mais geral, na recriação das diferenças entre regiões e centros urbanos, assim como nas articulações entre ambos e entre os centros (1999, p. 44).
Nesse contexto, marcado por uma maior interação entre os diversos lugares possibilitados pelas redes informacionais, as pequenas cidades também estão se articulando aos grandes centros urbanos. Na sociedade em rede nenhum lugar existe por si mesmo. A rede de comunicações constitui-se como o elemento fundamental para a configuração espacial. Isto não significa dizer que os lugares desaparecem, mas que passam a adquirir novos valores e significados.
É preciso considerar que no âmbito desse processo as pequenas cidades também passaram a abrigar em seus territórios maior conteúdo de ciência, tecnologia e informação o que tem possibilitado novas dinâmicas territoriais. Estas cidades vêm assumindo uma dinâmica diversa e buscando se inserir nesse “sistema mundo”, alterando suas relações sociais, econômicas e espaciais da cidade. Os “mundos” relativamente isolados do passado deram lugar a um mundo em rede (sistêmico), ou seja, um planeta com relevantes interconexões entre cidades, regiões e nações. O mundo torna-se unificado em virtude das novas condições técnicas, bases sólidas para uma ação humana mundializada.
As pequenas cidades, enquanto lugares de coexistências e conflitos de horizontalidades e verticalidades, informacionalizam-se pelas novas técnicas que chegam nelas, e estas se tornam também “espaços da globalização”. A constituição de redes associativistas de supermercados é expressão dessa atual dinâmica das pequenas cidades norte-rio-grandenses. Essas redes tanto reforçam as horizontalidades nestas cidades, quanto produzem verticalidades.
As redes associativistas de supermercados reforçam as horizontalidades considerando que estas promovem fluxos diversos, antes menos expressivos nessas cidades, como por exemplo: fluxo de mercadorias, de pessoas, e de capital, imprimindo uma dinâmica urbana antes expressa em menor escala. Consonante a isso as redes associativistas de supermercados fomentam também ações nas quais imperam as racionalidades hegemônicas, portadoras de ordens estranhas às cidades em se inserem, sobretudo, considerando a utilização e disseminação das tecnologias da informação e comunicação (TICs) entre os agentes envolvidos nas
estratégias de comercialização em rede, como as estratégias de marketing desenvolvidas pelas redes no contexto das cidades nas quais atuam, propiciando assim um comando vertical no território dessas cidades.
Além disso, essas mudanças são facilmente apreendidas quando se observa que ao integrar à rede, é requerida uma série de adequações por parte do estabelecimento comercial às normas previamente estabelecidas no âmbito do processo de associação, dentre estas, destacam-se: a informatização das operações financeiras, que possibilita a substituição de antigas práticas comerciais como o uso da “caderneta do fiado” ou da “ficha” pelo uso do cartão de crédito e/ou da rede; e a padronização do layout do estabelecimento. Entende-se que o processo de mudança pelos quais passam o pequeno comércio em rede gera um efeito desintegrador das solidariedades locais estabelecidas até então, principalmente, por romper com as tradicionais formas de comercializar destes agentes no âmbito das cidades em que atuam. Essas cidades passam a apresentar novos conteúdos no âmbito de sua atividade comercial, decorrente desse vetor externo de modernização, que a rede promove.
As relações verticalizadas no âmbito das redes associativistas de supermercados se manifestam pelo distanciamento físico e de interesses, entre o lugar da decisão e os lugares da materialização das ações. A central de negócios da rede, sediada em diferentes cidades do Rio Grande do Norte, como Mossoró e Caicó, articula as demais cidades através dessa central e com o uso das tecnologias comunicacionais, através das quais é feito o compartilhamento das ações a serem implementadas pelos diversos estabelecimentos comerciais associados às redes, nas mais distantes cidades, sendo algumas dessas ações: planejamento de compra; compra conjunta; acesso diferenciado à mídia; capacitação de equipes; plano de marketing conjunto; melhores condições para linhas de crédito.
Essas ações assumidas e praticadas no âmbito das redes associativistas de supermercados são inerentes ao discurso pragmático dos setores hegemônicos, já implementado por grandes redes de supermercados e de hipermercados, visando conquistar novos mercados, assim como ampliar a participação no mercado em que atuam, fortalecer suas marcas e enfrentar os concorrentes. A formação de redes associativistas de supermercados no âmbito do pequeno comércio representa uma estratégia de reprodução do comércio local adequando-se aos interesses dos
agentes hegemônicos, que disseminam a ordem global e que são profundamente dependentes dos avanços da técnica.
As redes associativistas de supermercados inserem-se no movimento das verticalidades enquanto “vetores de uma racionalidade superior e do discurso pragmático dos setores hegemônicos, criando um cotidiano obediente e disciplinado” (SANTOS, 2012, p. 227). Considerando que as horizontalidades carregam diversas temporalidades, entendemos que a análise das formas comerciais nos permite empiricizar esse aspecto no âmbito das cidades norte-rio-grandendes. Quando se analisa as formas comerciais nas pequenas cidades do Rio Grande do Norte, ainda é marcante a presença das formas tradicionais, remanescentes de um passado não muito distante e resquícios das diversas fases do desenvolvimento do seu urbano, das quais se destaca a feira livre, o mercado público, as mercearias e os armarinhos, cuja interferência do vendedor ainda tem um papel de destaque no ato da compra, expressão das horizontalidades.
Mas há que se considerar também que muitas dessas formas hoje congregam novos conteúdos e pautam-se cada vez mais na utilização das tecnologias da comunicação e informação decorrentes, principalmente, da associação destas as redes associativistas. Assim, evidencia-se que as redes associativistas, enquanto vetores de verticalidades penetram nessas horizontalidades, ressignificando as tradicionais formas comerciais, como as mercearias.
Além disso, o que se observa é que grupos de comerciantes locais se reúnem, elaboram estratégias para competir, se manter no mercado e reproduzir capital na própria cidade, pautando-se em estratégias implementadas, até então, apenas pelas corporações varejistas, constituindo-se em redes associativistas de comércio. Esse processo, propicia a modernização da atividade comercial destas cidades, com a utilização maciça de serviços financeiros (cartão de crédito) e da informatização das operações comerciais, utilizando-se cada vez mais em ações verticalizadas.
Considerando que a partir das horizontalidades é possível confrontar os valores globais hegemônicos (verticalidades) com aspectos de aceitação e/ou resistências locais evidencia-se esse confronto no âmbito da dinâmica sócioespacial das redes associativistas de supermercados, tendo em vista que, por meio da formação das redes, o pequeno comércio varejista torna-se igualmente competitivo e agrega vantagens que as grandes redes têm em funções como logísticas de
aquisições de produtos, produção, distribuição e marketing. Ou seja, a formação das redes fortalece o comércio local, que consegue ser competitivo através das vantagens que essa estrutura organizacional proporciona, afetando, assim, a dinâmica urbano-regional no qual essas redes estão inseridas.
Compreende-se que as racionalidades de atores hegemônicos disseminados a partir dos objetivos, das ações e estratégias das redes associativistas de supermercados no âmbito das cidades norte-rio-grandenses, utilizando dos objetos e ações técnicas comuns do atual período, têm fomentado um uso diferenciado e privilegiado do território dessas cidades. Além disso, ressalta-se que o conteúdo das redes associativistas comerciais, marcado pelo uso e disseminação das tecnologias da informação e comunicação inerentes ao meio-técnico-cientifico-informacional, denotam racionalidades no uso que essas redes fazem do território dessas cidades.
Todavia, a racionalidade do espaço não se dá de maneira total e homogênea, pois permanecem zonas onde ela é menor e, mesmo, inexistente e onde cabem outras formas de expressão que têm sua própria lógica. Em face disso entende-se que a constituição das redes associativistas comerciais representam uma tentativa de integração não-subordinada no âmbito da economia local do território dessas cidades, antes não interessantes ao capital, ou seja uma, contrarracionalidade, sobretudo, considerando os diferentes fluxos propiciados e as interconexões dessas cidades com diferentes lugares, que redefinem seus papéis urbanos no contexto da globalização.
Os pequenos comerciantes, “excluídos” até então do turbilhão do tempo veloz do capitalismo, organizam-se localmente nas diversas cidades e a partir da constituição de redes de comércio, promovem soluções conjuntas de interesse econômico, com foco no mercado em que atuam, produzindo assim outra “racionalidade”, ou uma contrarracionalidade para melhor inserir-se nas lógicas capitalistas, visando sua reprodução.
As redes associativistas de supermercados, que apenas recentemente tem se formado nestes novos espaços antes não “interessantes” ao capital, propiciam uma nova dinâmica nessas cidades no contexto da globalização. Sobretudo, considerando os diferentes fluxos e as interconexões dessas cidades com diferentes lugares, expressando, por conseguinte, novos conteúdos e papeis, e que passam a configurar essas cidades a partir disso, que será mais bem analisado no capítulo a seguir.
Para Gomes (2012), algumas das dinâmicas de inserções das pequenas cidades norte-rio-grandenses no contexto da globalização podem ser apreendidas por meio das mudanças substanciais que tem ocorrido nas atividades de comércio e serviços. De acordo com a referida autora a recente expansão e dinamização da atividade comercial observada nas pequenas cidades não estão relacionadas a um desenvolvimento industrial, mas sim a implementação das políticas federais de transferência de renda, a exemplo do “Bolsa Família”, assim como do pagamento do funcionalismo público e dos benefícios das aposentadorias, sendo estes responsáveis por criar um mercado consumidor nessas cidades, que embora pequeno é representativo ao considerarmos o baixo custo de vida nessas localaidades.
Outra mudança importante observada no âmbito da dinâmica urbana das pequenas cidades se deu nos hábitos de consumo de suas populações, nas quais se tem observado um novo padrão. De acordo com Gomes (2012), demarcou formas específicas de participação das pequenas cidades no processo hegemônico de reprodução da economia, expresso pela globalização.
Nesse sentido, a propagação da ideologia do consumo por meio das diversas mídias (televisão, rádio, e mais recentemente, a internet) propiciou uma diversificação das mercadorias comercializadas e o aumento do número de estabelecimentos comerciais. Além disso, observa-se a ampliação dos empreendimentos ligados aos cuidados com a aparência e aqueles associados ao ramo da gastronomia no âmbito dos seus espaços comerciais. Trata-se de dois aspectos importantes na dinâmica do terciário, inerente aos padrões da sociedade capitalista enquanto sociedade da aparência; cuidar da beleza, do visual é antes de tudo uma necessidade (GOMES, 2012).
Gomes (2012) ressalta ainda o papel exercido pelas atividades comerciais na inserção das pequenas cidades, no contexto da rede urbana regional e nacional ou até internacional, expresso seja pela venda, seja pela compra de mercadorias. Nesse sentido, as pequenas cidades apresentam a dupla função de articular o território e contribuir para a reprodução e constituição da rede de negócios que se estabelece em torno da atividade comercial. Assim, de acordo com Gomes:
Se considerarmos a venda de produtos, podemos dizer que na realidade o comércio das pequenas cidades, diante as suas características, atende basicamente a demanda apresentada pela população residente. No entanto,
quando consideramos a compra da mercadoria que é comercializada no comércio local, podemos afirmar que esse comércio tem uma importância significativa na reprodução do capital, uma vez que a compra dos produtos a serem comercializados nestes núcleos urbanos, são das mais diversas cidades do país e até do exterior, em especial aquelas produzidas em mercados onde a força de trabalho é barata, dando possibilidade da oferta de produtos baratos nesses mercados (2012, p. 135).
Assim, apesar das pequenas cidades serem responsáveis por atender parcela significativa da população em termos de bens e serviços imediatos, no atual contexto, estes tornaram-se muito mais abrangentes em razão das imposições do sistema de consumo à população urbana. Diante disso, são observadas mudanças quantitativas e qualitativas no comércio das pequenas cidades, como resposta em grande medida, as demandas de seu mercado consumidor.
No conjunto das mudanças na atividade comercial, destaca-se a ampliação do comércio virtual, bem como a presença de novos modelos de gestão, a exemplo das redes associativistas. Esta última possibilidade de aquisição de bens, articulado à renda dos consumidores, tem provocado muitas modificações no âmbito da dinâmica comercial. Nos últimos anos, no contexto das pequenas cidades norte-rio- grandenses a expansão de redes associativistas comerciais, consiste numa estratégia de reprodução do comércio local e propicia mudanças significativas no âmbito da dinâmica comercial destas cidades.
Deste modo, embora o comércio nas pequenas cidades, ainda se desenvolva, essencialmente de modo “tradicional”, isto não significa dizer que esteja alheio à “modernização”, à inovação e à reprodução de formatos comerciais semelhantes aos dos grandes centros, dos quais depende e se abastece. A atividade comercial nestas cidades tem engendrado cada vez mais novos conteúdos, reflexo do processo de globalização econômica associado à disseminação das tecnologias da informação e comunicação, que estão cada vez mais presentes nas pequenas cidades e que tem propiciado aos seus habitantes “vivenciarem o mundo” de forma mais próxima. Hoje é possível encontrar com certa facilidade nos diversos estabelecimentos comerciais das pequenas cidades uma gama considerável de produtos e das mais variadas marcas disponíveis para compra, não sendo mais necessário em certa medida o deslocamento, para outros centros maiores.
Assim, o comércio observado nas pequenas cidades do Rio Grande do Norte reproduz o capital, ao mesmo tempo em que “atende” aos desejos e anseios de consumo de sua população, produzidos pela mídia. Nessa perspectiva, estas
cidades conseguem cada vez mais atender às novas demandas de consumo e, nesse sentido, as mudanças que ocorrem no setor de comércio, seja na perspectiva de criação de novos modo de organização, seja na oferta diversificada de produtos, se apresentam como vetor importante de modernização de suas atividades, assim como, e de inserção no processo de reprodução capitalista.
Para uma melhor compreensão dos novos papeis urbanos assumidos por pequenas cidades potiguares a partir da expansão de redes associativistas de supermercados, faz-se necessário um entendimento do processo de produção do espaço do Rio Grande do Norte vinculando aspectos de ordem econômica, política e social, cujo resultado se configura por meio de uma rede urbana em que prevalece um número bastante expressivo de pequenas cidades.
5.3 OS NOVOS PAPÉIS URBANOS DE PEQUENAS CIDADES NORTE-