3 O FIO CONDUTOR, O DESENROLAR DE UMA CRISE
3.1 A BUSCA POR UM ELEMENTO DEFINITIVO DE IDENTIFICAÇÃO A UNIR A
3.1.3 À procura de linhas invisíveis por Wall Street
3.1.3.2 A perda de identificação com o modelo político norte-americano
Nos Estados Unidos, conforme Sunstein, a democracia deliberativa e a consequente exigência de razões/justificativas para os atos de governo impregnam o imaginário social norte-americano. “Os fundadores elaboraram um regime em que os representantes pudessem dispor de tempo e temperamento para se envolverem em uma forma de raciocínio coletivo”338. Foi a partir dessa perspectiva que Madison339 buscou consolidar a ideia de que os representantes do povo não exerciam suas funções para satisfazer interesses pessoais ou de determinados grupos.
O que se viu em Wall Street foi o descrédito em relação à persistência de tais valores. A democracia deixara de ser de fato deliberativa e a república das razões fora desvirtuada, não mais voltada às razões justificáveis a partir do interesse do
337 Pesquisa desenvolvida pelo PEW Research Center, indicou um crescimento significativo, entre
2009 e 2011, 66%, na percepção da divisão da sociedade norte-americana, no que diz respeito ao conflito entre ricos e pobres. “The Occupy Wall Street movement no longer occupies Wall Street, but the issue of class conflict has captured a growing share of the national consciousness. A new Pew Research Center survey of 2,048 adults finds that about two-thirds of the public (66%) believes there are “very strong” or “strong” conflicts between the rich and the poor — an increase of 19 percentage points since 2009”. MORIN, Richard. Rising share of americans se conflict between rich and poor.
PEW Research Center: social & demographic trends. Washington, DC, 11 jan. 2012. Disponível
em: <http://www.pewsocialtrends.org/2012/01/11/rising-share-of-americans-see-conflict-between-rich- and-poor/>. Acessado em: 13 nov. 2016.
338 SUNSTEIN, Cass. A Constituição parcial. Belo Horizonte: Del Rey, 2009. 462p. pp.26-28.
339 David Graeber se contrapõe à ideia de que os Fundadores teriam a democracia como um valor a
ser perseguido. Segundo ele, o que ocorreu foi justamente o contrário: a democracia era vista como uma ameaça. O modelo perseguido pelos pais da nação norte-americana era a república. O modelo democrático até então conhecido era o de Atenas que, para muitos representaria uma ameaça aos proprietários de terra que lideravam a conformação de um novo país. A palavra democracia era sinônimo de caos, anarquia e governo sem controle. Foi somente no século XIX que a palavra democracia passou a ser utilizada nos Estados Unidos e na França como uma forma de identificação de um regime eleitoral, sendo que na América Andrew Jackson foi o primeiro candidato a presidente que se auto-intitulou democrata, um rótulo que usou para passar a ideia de que defenderia o interesse das pessoas comuns contra os poderosos. A respeito do tema, ver páginas 159 a 172 de GRAEBER, David. Um projeto de democracia: uma história, uma crise, um movimento. São Paulo: Paz & Terra, 2015. 307p.
público, mas do interesse daqueles que ditam as regras econômicas e que fazem parte do 1% denunciado pelos ocupantes de Manhattan.
Na análise de Graeber, em relação às razões da expansão do movimento, ele expõe a rejeição completa da ordem política, inerentemente corrupta, e a demanda por uma “total reinvenção da democracia americana”340. Desde o início, os ocupantes do parque Zuccotti deixaram claro que não pretendiam reproduzir o modelo de democracia e representatividade formal institucionalizado. As tomadas de decisão se davam em assembleias gerais, um encontro horizontal baseado na discussão de ideias e na busca do consenso341. A pessoas estavam dispostas a abrir mão de seu posicionamento particular em favor de um mais adequado ao grupo. Havia entre os ocupantes o real interesse em não se ter uma ocupação em que se reproduzisse o modelo hierárquico vertical. As regras de tomada de decisão – busca permanente pelo consenso – e de administrar as assembleias – aqueles que não haviam se manifestado eram trazidos à frente para que a localização não desprivilegiasse uma voz – destinava-se a manter a pirâmide organizacional baixa, horizontal342. Os manifestantes pretendiam muito mais um resgate ou uma refundação da democracia norte-americana, em contraposição ao jogo político do século XXI, o do Congresso, onde, por exemplo, o Partido Republicano procurava bloquear qualquer tentativa do governo de assumir papel ativo na melhoria do bem- estar da sociedade norte-americana, o que agravou a crise e aumentou os seus custos sociais343.
A participação do eleitorado norte-americano em processos eleitorais nunca se deu de forma maciça. A titulo exemplificativo, nas midterm elections, as que ocorrem entre as eleições presidenciais, há mais de 100 anos que não há uma participação superior a 50% das pessoas aptas a votar. Na última, em 2014, foi registrado um comparecimento às urnas de apenas 36,3%, o pior dos últimos 72 anos344.
340 GRAEBER, David. Um projeto de democracia: uma história, uma crise, um movimento. Trad.
Ana Beatriz Teixeira. São Paulo: Paz & Terra, 2015. 307p. p. 101.
341 CASTELLS, Manuel. Redes de indignação e esperança: movimentos sociais na era da internet.
Rio de Janeiro: Zahar, 2013. 272p. pp. 137-139.
342 JASPER, James M. Protesto: uma introdução aos movimentos sociais. Tradução: Carlos
Alberto Medeiros. – 1ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2016. p. 22.
343 CASTELLS, Manuel. Redes de indignação e esperança: movimentos sociais na era da internet.
Rio de Janeiro: Zahar, 2013. 272p. p. 118.
344 The worst voter turnout in 72 years. Editorial Board. New York Times. 11 nov. 2014. Disponível
em: <https://www.nytimes.com/2014/11/12/opinion/the-worst-voter-turnout-in-72-years.html?_r=0>. Acessado em 15 fev. 2017.
Quanto aos dados de turnout (participação) no processo eleitoral norte- americano, os números não são precisos, embora as variações não sejam grandes, cerca de até 3%, é possível verificar uma dificuldade dos órgãos oficiais, não governamentais e de instituições acadêmicas na contabilização de tais números. Diante do fato de que a participação no processo eleitoral é facultativa, há uma maior dificuldade na definição do número total de potencial votantes, o que interfere no cálculo preciso da quantidade de abstenção. A verificação no grau de apatia política, nos Estados Unidos, então, é inviável pela falta de dados para a realização da equação. A limitação da análise se dá em relação ao comparecimento dos americanos às urnas.
Em virtude de tal incerteza, a melhor forma de buscar elementos comparativos é a de atrelá-los a uma mesma origem de fonte, tendo em vista que o critério de cálculo será o mesmo em relação a todos os anos. Nas tabelas abaixo elaboradas, utilizamos como fonte a base de dados do United States Election Project, do Departamento de Ciência Política da Universidade da Florida345. Elas se referem à participação nas midterm elections e nas eleições “presidenciais”, mas nas quais também são eleitos deputados e senadores.
Em ambos os pleitos é perceptível uma oscilação em relação ao comparecimento.
Tabela 16 – Índice de abstenção nas midterm elections americanas
Midterm Elections 1994 1998 2002 2006 2010 2014
Abstenção 58,9% 61,9% 60,5% 59,6% 59% 64,1%
Fonte: O autor (2017), a partir de dados colhidos em tabelas diversas do United States Election Project – Departamento de Ciência Política da Universidade da Flórida.
Tabela 17 – Índice de abstenção nas eleições presidenciais americanas
Eleições Presidenciais 1992 1996 2000 2004 2008346 2012
Abstenção 41,9% 48,3% 45,8% 39,9% 38,4% 41,4%
Fonte: O autor (2017), a partir de dados colhidos em tabelas diversas do United States Election Project – Departamento de Ciência Política da Universidade da Flórida.
345 The United States Election Project. Disponível em: <http://www.electproject.org>. Acessado em: 13
nov. 2016.
346 Uma das explicações para a diminuição do número de abstenções na eleição de 2008, a menor
desde 1968, foi o fato de que naquela eleição, a primeira de Barak Obama, registrou-se a participação eleitoral mais diversificada da história dos Estados Unidos. Mais latinos, negros e pessoas de origem asiática participaram daquele pleito. LOPES, Marco Hugo; TAYLOR, Paul. Dissecting the 2008 Electorate: most diverse in U.S. history. PEW Research Center: social &
demographic trends. Washington, DC, 30 abr. 2009. Disponível em: <http://www.pewhispanic.org/2009/04/30/dissecting-the-2008-electorate-most-diverse-in-us-history/>. Acessado em: 13 nov. 2016.
Ainda não há uma estimativa confiável em relação à quantidade de comparecimento dos norte-americanos com capacidade para votar no pleito de 2016, na eleição de Donald Trump, mas se estima que o comparecimento tenha ficado em torno de 57,3%, ou seja, 42,7% dos eleitores não participaram de nenhuma forma do processo.
Não é possível tirar nenhuma conclusão exclusivamente a partir dos números de participantes dos processos eleitorais norte-americanos dos últimos anos, contudo, algumas informações os números nos passam. A primeira é a de que não há nenhum apelo nas midterm elections. Ainda que tal falta de apelo não seja recente, e sim histórica, foi significativo o aumento da abstenção em cinco pontos percentuais no último pleito, após 16 anos de oscilação variável para mais ou menos entre 0,6 e 2%. Há bastante tempo as urnas revelam a falta de vinculação da população norte-americana com o parlamento, o que ficou ainda mais claro em 2014.
Além disso, conforme o Pew Ressearch Center347 entre 1985 e 2015, o percentual de pessoas que tinham uma visão positiva do Congresso estadunidense caiu de 67% para 22%.
A crítica ao funcionamento do sistema político e às relações entre agentes do mundo financeiro e os políticos ficaram muito expostas nas ruas das cidades americanas que aderiram ao Occupy. Para Stiglitz, a desilusão com o funcionamento do sistema político encontrou expressão no Occupy Wall Street; assim como há grandes falhas no sistema econômico, é evidente que o sistema político norte- americano nem mesmo começou a buscar corrigi-las348. “Na América existe uma enorme erosão de confiança nos últimos anos349.