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El hilo de la falta de respeto a los derechos fundamentales

3 O FIO CONDUTOR, O DESENROLAR DE UMA CRISE

3.1 A BUSCA POR UM ELEMENTO DEFINITIVO DE IDENTIFICAÇÃO A UNIR A

3.1.2 Buscando un hilo común en las plazas

3.1.2.1 El hilo de la falta de respeto a los derechos fundamentales

A Constituição de 1978 traz a sua identidade principiológica nos artigos 1º e 2º, consagrando a Espanha como um Estado Social e Democrático de Direito. Dentre os princípios elencados nos referidos dispositivos tem a liberdade, a justiça, a igualdade e o pluralismo político como “valores supremos” e define que a soberania

nacional reside no povo espanhol, do qual emanam os poderes do Estado292.

Antonio Enrique Perez Luño compreende que a previsão constitucional traz as noções de Estado de Direito, Estado social e Estado democrático, sendo que elas não se apresentam como antinômicas, mas como três exigências de uma mesma compreensão constitucional do Estado espanhol. Tal qual na Grundgesetz, para Wolfgang Abentroth, são três elementos que se interpenetram em uma só unidade,

sendo incapazes de serem compreendidos isoladamente293.

A visão de Francisco Balaguer Callejón também se direciona no sentido da unidade, quando afirma que no preâmbulo “se expressa claramente a vontade da Nação espanhola, de ‘garantir a convivência democrática dentro da Constituição e

das leis conforme uma ordem econômica e social justa’”294. Na sua compreensão, o

Estado constitucional de Direito é um Estado social e um Estado democrático, onde se operam o pluralismo social, a diversidade de interesses e a síntese consentida entre os que pretendem a transformação social e os que advogam pela limitação da atividade estatal295.

O artigo 10 da Constituição espanhola inaugura o Título I, reservado aos “Direitos e Deveres Fundamentais”. Nos dois parágrafos296 do artigo, vê-se como

292 “Artículo 1: 1. España se constituye en un Estado social y democrático de Derecho, que propugna

como valores superiores de su ordenamiento jurídico la libertad, la justicia, la igualdad y el pluralismo político. 2. La soberanía nacional reside en el pueblo español, del que emanan los poderes del Estado.” Tradução nossa. Disponível em: <http://www.congreso.es/consti/constitucion/indice/>. Acessado em: 23 abr. 2016.

293 PEREZ LUÑO, Antonio Enrique. Derechos Humanos, Estado de Derecho y Constitución. 6ª

ed. Madri: Editorial Tecnos, 1999. 568p. p. 234.

294 BALAGUER CALLEJON, Francisco. A dimensão constitucional do estado social de direito na

Espanha. Direitos Fundamentais & Justiça. N.º 2 – Jan./Mar. 2008. pp. 105-131. p. 118-119.

295 BALAGUER CALLEJON, Francisco. A dimensão constitucional do estado social de direito na

Espanha. Direitos Fundamentais & Justiça. N.º 2 – Jan./Mar. 2008. pp. 105-131. p. 111.

296 A denominação indicativa utilizada seguiu as regras da técnica legislativa espanhola, segundo a

qual, “los criterios orientadores básicos para la redacción de un artículo son: cada artículo, un tema; cada párrafo, una oración; cada oración, una idea. Los artículos podrán dividirse en apartados ou párrafos, que se numerarán en cardinales arábigos”. GARCIA, Piedad, MÁRQUEZ, Escudero.

Nociones de técnica legislativa para uso parlamentário. p. 148. Disponível em

centro geográfico do tema a questão da dignidade da pessoa humana, nos direitos fundamentais, e na primazia dos direitos humanos.

1. La dignidad de la persona, los derechos inviolables que le son inherentes, el libre desarrollo de la personalidad, el respeto a la ley y a los derechos de los demás son fundamento del orden político y de la paz social.

2. Las normas relativas a los derechos fundamentales y a las libertades que la Constitución reconoce se interpretarán de conformidad con la Declaración Universal de Derechos Humanos y los tratados y acuerdos internacionales sobre las mismas materias ratificados por España.

Há, portanto, uma perfeita adequação entre as pautas declaradas do “15-M” e a luta pelo respeito aos direitos fundamentais e à compreensão de dignidade da pessoa) humana, positivados, expressos na reivindicação por direitos estampados

na Constituição espanhola: igualdade (arts. 1º, 9.2, 14, 23.2, 31.1, 32.1, 35.1, 139.1

e 149.1.1ª), solidariedade (arts. 45.2, 138, 158.2), livre acesso à cultura (arts. 9.2, 44.1, 48, 50 e 149.2), à moradia (art. 47), trabalho (art. 35.1), saúde (art. 43), educação (art. 27), participação política (arts. 6, 9.2, 23), desenvolvimento pessoal (art. 10), sustentabilidade ecológica (art. 45).

Para Balaguer um “preceito-chave” para a compreensão da constitucionalização do Estado Social Democrático na carta espanhola é o art. 9.2297:

Corresponde aos poderes públicos promover condições para que a liberdade e a igualdade do indivíduo e dos grupos nos quais se integram sejam reais e efetivas; remover os obstáculos que impeçam ou dificultem sua plenitude e facilitar a participação de todos os cidadãos na vida política, econômica, cultural e social.

Para ele, “esse preceito expressa, sem dúvida, o sentido ‘forte’ do Estado social, enquanto tal princípio tenha sentido”; com o auxílio de Jimenez Campo, defende que “nele se afirma ‘a primazia da política sobre a economia’”298, sendo a “realização homogênea da igualdade substancial” a única forma compatível de tratamento da igualdade em conformidade com o princípio constitucional do Estado social299. Nele, os direitos fundamentais contemplam, “não só as liberdades

rquez.pdf>. Acessado em 10 de outubro de 2016.

297 BALAGUER CALLEJON, Francisco. A dimensão constitucional do estado social de direito na

Espanha. Direitos Fundamentais & Justiça. N.º 2 – Jan./Mar. 2008. pp. 105-131. p. 120.

298 BALAGUER CALLEJON, Francisco. A dimensão constitucional do estado social de direito na

Espanha. Direitos Fundamentais & Justiça. N.º 2 – Jan./Mar. 2008. pp. 105-131. p. 120.

clássicas, mas também os direitos econômicos, sociais e culturais como categorias passíveis de atuação e não como meros postulados programáticos”300.

Assim, tal qual a brasileira, a Lei Maior da Espanha carrega compromissos incorporados a partir de uma compreensão normativa de conteúdo material. O consenso que ela incorpora se projeta em um campo diverso do de uma previsão esvaziada de sentido, direcionada à concretude por meio do agir do poder público na perseguição dos seus fins.

No Estado social de Direito, “o papel dos direitos fundamentais deixa de ser apenas o de limites da atuação estatal para transformar-se em instrumentos jurídicos de controle de sua atividade positiva”301.

O Estado social de Direito como promessa da Lei Fundamental da terra de Miró e Dali não se traduz no cotidiano dos jovens que foram às praças. Se o surrealismo encampou a possibilidade de convergir esteticamente sonho e realidade, alcançando-a, para em seguida aspirar não alcançá-la. A efetividade dos direitos fundamentais de prestação positiva pretendida permanentemente pelo 15-M, ao mesmo tempo em que conforma os fins constitucionais da nação espanhola, se faz parecer inacessível. Residente no mundo do sonho e inoperável no mundo concreto. Irreal. Como se as pretensões dos Indignados habitassem num universo surreal.

O mesmo universo surreal em que os partidos políticos espanhóis não representam os interesses da população e suas pautas programáticas, ou seja, nem seus fins e nem as próprias identidades.