Em busca das raízes docentes
4.6 A experiência do 1º curso
4.6.2 A perspectiva das professoras participantes
Os depoimentos das professoras revelaram que o conhecimento a respeito de elementos técnicos adquiridos com o contato com os textos, com a
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produção de vídeos, e com as aulas no curso suscitaram reflexões que modificaram o modo como as professoras liam os textos televisivos e a sua função que passa de simples registro para ser também meio de expressão:
Outro fato que me fez gostar muito do curso e querer participar da sua 2ª fase, diz respeito a produção propriamente do vídeo, o saber fazer. Esse ponto é importante para que possamos produzir vídeos dentro da escola. Além de realizarmos vídeos que restringem as ações da escola poderíamos procurar realizar vídeos com nossos alunos. (Edna)
Os enquadramentos, o encadeamento das cenas são agora passiveis de desconstrução:
[...] já tenho a certeza de que, no momento que for utilizar um vídeo o farei com um novo olhar, pois já tenho esse novo olhar quando vou assistir um filme. Possuo hoje uma visão mais técnica e mais crítica. (Fabiana)
Os conhecimentos adquiridos pelas professoras são vistos como auxílio para que possam trabalhar com seus alunos a autonomia em relação aos discursos construídos. E possam levá-los a refletir sobre quais são as mensagens, as ideologias que as elaborações técnicas estão filiadas.
O curso envolvia também a produção de um pequeno vídeo. As professoras estudadas formaram uma equipe que pude acompanhar de perto. Houve muito entusiasmo na realização dessa tarefa, embora não tivessem ainda um grande conhecimento técnico. A produção do vídeo mobilizou a reflexão sobre a formação e como esse meio vem sendo utilizado na escola fazendo uma releitura da própria expectativa quanto ao seu papel na aprendizagem dos alunos:
O curso nos fez ver como isso [o uso correto do vídeo] poderia acontecer apresentando vários aspectos referentes a análise dos vídeo., Mas depois do curso pude perceber que existem outros aspectos que nós, professores, temos que considerar para que o vídeo contribua de fato com a aprendizagem dos alunos. (Edna)
Confirma ainda que os conhecimentos relativos à produção de vídeos também auxiliavam as professoras e a medida que iam se apropriando das técnicas de produção, iam aumentando a sua autoestima. Além disso, começavam a visualizar outras formas de trabalho que não as tradicionais.
O conhecimento sobre os meios aparecia de modo disperso e disforme nas falas iniciais das professoras, mesmo assim apontavam a necessidade de modificar a prática pedagógica com as mídias na escola. Já existe a noção de que a educação pode atuar de modo mais efetivo a medida que esse conhecimento é sistematizado. Quando as professoras começam a organizar esse conhecimento, são capazes de se colocar mais criticamente frente às mídias e levar seus alunos a fazer o mesmo.
A sociedade deve estar preparada para capacitar nossas crianças não apenas para a leitura e para a escrita, mas também no uso adequado de todos esses instrumentos tecnológicos de comunicação. (Patrícia)
Demonstram que ainda estão procurando pistas a respeito de como pode ser esse trabalho e a participação na pesquisa parece apontar um caminho para isso:
A experiência de estar relatando por escrito os sentimentos que as mídias audiovisuais nos impulsionam foi bastante significativa para mim por perceber o quanto é difícil expressar o que sentimos por escrito, mas é importante e muitas vezes é preciso para nos levar a uma reflexão. (Fabiana)
Hoje eu estava escrevendo e percebi o quanto as mídias estão presentes em minha vida. (Júlio)
Os momentos das conversas informais também auxiliavam a expressarem de elaboração do vivido e a perceberem a função de diversos fatores implicados, o papel da educação, a perspectiva emancipatória, o papel da família:
O trabalho com as mídias não é só técnico tem que ter a reflexão também, isso que é o nosso diferencial, o diferencial da educação, a gente traz a reflexão. (Sandra)
Eu acho que essas professoras agem assim porque ainda não estão emancipadas, elas precisam chegar lá ainda. (Fabiana)
Eu acho que tem que trazer a família para essa discussão, a família também tem um papel importante nisso. (Edna)
[...]
Tive oportunidade também de presenciar trocas de informações sobre as técnicas, os modos de fazer, havia uma circulação entre elas sobre suas
descobertas, os truques para acessar determinados programas, resolver algum problema de compatibilidade ou de comandos. Creio que elas gostariam que eu as auxiliasse nas formas de utilização ou mesmo na legitimação dos usos já em curso:
Conversa sobre o vídeo que Sandra gravou e nos apresentou no último encontro. Sandra gravou sua aula sobre sexualidade para apresentar dentro do curso de especialização em educação sexual que estava fazendo:
Como foi você expor o vídeo com imagens que não foi você que fez? (Fabiana)
É você tem razão eu não gravei, mas eu editei, nisso o curso foi muito importante porque eu consegui mostrar o que eu queria mesmo não tendo feito as imagens. (Sandra)
É um trabalho em equipe, não dá para fazer tudo sozinha. (Sabrina) Como você se sentiu quando o vídeo foi visto pelas pessoas? (Márcia)
Foram dois momentos, um quando eu apresentei para as pessoas e pude discutir com elas, e outro quando a professora levou o vídeo para outra turma, e veio uma professora me perguntar sobre o vídeo. Teve uma repercussão uma coisa que já não era mais do meu controle. (Sandra)
Várias coisas poderiam ser exploradas nos trechos de fala acima, como trazer a questão da intencionalidade na produção midiática, das transformações que a edição proporciona, a produção coletiva... mas como tempo exíguo e o espaçamento entre os encontros não favoreceu o aprofundamento dessas questões.