Em busca das raízes docentes
4.8 O retorno: a experiência com a segunda turma
Dentre as experiências que tive acesso, a britânica chamou a atenção, pois desde os anos 60 o governo vem empreendendo iniciativas voltadas para a educação para as mídias (SIQUEIRA, 2007). Visitei o British Film Institute - BFI no Reino Unido, órgão do governo que vem desenvolvendo ações de formação de professores nesse período.
O órgão conta com equipes multidisciplinares que desenvolvem materiais de apoio ao trabalho com mídias na escola, e obtive um exemplar de um de seus materiais o guia Look Again (BFI/DfES, 2004) destinado a professores que ensinam crianças de 3 a 11 anos.
O que me chamou a atenção neste material foi o fato dele ser elaborado com base em pesquisas e práticas já existentes nessa área, o guia apresenta 8 técnicas que visam permitir às crianças uma reflexão sistemática sobre o seu próprio processo de leitura e analisar a sua atividade enquanto leitores e escritores.
Cada técnica é apresentada em forma de colunas82. A primeira coluna descreve a atividade e a segunda traz as perguntas que ajudam a planejar a atividade e orientar a discussão em classe. O objetivo de aprendizado está listado na terceira coluna.
Essa organização favorece a uma percepção melhor da relação entre as atividades e os objetivos, além de sugerir formas de abordagens das temáticas junto aos estudantes. Apresento a seguir o trecho dedicado ao Som.
82
A apostila é toda organizada no sentido horizontal de forma a proporcionar ao leitor uma visualidade que facilite a compreensão da atividade como um todo.
Quadro 5 – Exemplo de abordagem o elemento som no guia Look Again
Técnica Questões para o debate Objetivos do Aprendizado Cubra a tela da câmera e
peça aos alunos ouvirem cuidadosamente a trilha sonora do filme e descrever exatamente o que eles ouvem.
Alunos devem então tentar acertar o conteúdo e o estilo da sequência das imagens Finalmente mostre a sequência completa e convide para discutir como som e imagem afetam um ao outro.
Teste alguns ou todos os seguintes tópicos:
-Músicas diferentes -Diferentes efeitos de som -Uma voz diferente lendo a mesma palavra
-Ou eliminar alguns desses elementos
-Discuta como isso pode mudar a forma que essas imagens podem ser interpretadas.
Sobre a música:
-Como você descreveria a música? -Como a música contribui para significado da sequência, como a sequência poderia ser afetada se a música fosse diferente ou não existisse?
Sobre efeitos de som;
-O que exatamente você pode ouvir e o quê isso representa? -Os efeitos de som representam uma ação ou ele contribui para o drama da sequência?
Sobre as palavras:
-O que você pode dizer sobre as falas pelo seu tom de voz, e o quê eles dizem?
- Como a entonação, sotaque e volume contribuem para a sua impressão sobre quem fala?
Sobre o silêncio:
-Por que você acha que a sequência é silenciosa nesse ponto?
-O quê poderia estar acontecendo? - Como o silêncio pode criar uma atmosfera de drama, tensão?
Sobre a visão final:
-Que diferença faria se a música e o som estivessem faltando?
-Como som e imagem se combinam para criar efeitos específicos?
-O som e a música mudam o volume (aumenta/diminui, o que essas mudanças significam)?
Os alunos devem aprender que;
- A trilha sonora da imagem em movimento pode ter quatro elementos. Música, efeitos de som, voz e silêncio. Esses todos contribuem para um objetivo.
-Efeitos de som são de dois tipos - Atmosfera (ex. som contínuo) e efeito spot (ex. som curto)
-Som, particularmente a música, pode dar o tom para um texto e estabelecer uma identidade genérica (ex. Comédia, thriller) -Som pode muitas vezes “realçar” o significado de uma sequência mais que uma sequência de imagens.
- Som pode afetar não somente o modo que o espectador interpreta a imagem, mas também o que ele pensa que pode ver.
- Som fora da tela ajuda a criar uma impressão de espaço tridimensional.
- Silêncio pode também um efeito poderoso na interpretação de uma sequência.
Fonte: Look Again (BFI/DfES, 2004). Organizado pela autora.
A atividade sugerida na primeira coluna é mais ou menos comum em nossas escolas, no entanto as perguntas na segunda coluna são interessantes, pois induzem os alunos a relacionarem o som com os sentidos atribuídos ao material exibido, por exemplo:Como a música contribui para significado da sequência, como a sequência poderia ser afetada se a música fosse diferente ou não existisse? Ou ainda: Os efeitos de som representam uma ação ou ele contribui para o drama da sequência?
Ao interrogar sobre a entonação, o sotaque, o volume, o silêncio, direciona as crianças a pensar as palavras proferidas não somente em termos de conteúdo, mas também em relação às emoções que provocam pela maneira como são ditas e como esse conjunto de coisas participam da construção de sentido do texto como um todo. As respostas podem ser problematizadas de modo a levar o aluno a perceber as impressões sobre quem fala, a quem fala e com que sentidos.
A criança é levada a identificar os diversos tipos de sons e as diferentes funções que podem desempenhar na narrativa com frases do tipo: Como você descreveria a música? O que exatamente você pode ouvir e o quê isso representa?
Além disso, as crianças são incentivadas a se posicionar frente àquele elemento: Por que você acha que a sequência é silenciosa nesse ponto? O som e a música mudam o volume (aumenta/diminui), o que essas mudanças significam?... e a pensar em outras alternativas: Que diferença faria se a música e o som estivessem faltando?
Todas essas questões levam as crianças a perceber a participação de um elemento dentro do texto midiático, mas também que o texto midiático é construído segundo determinadas intencionalidades, como podemos observar através de um exame dos objetivos do aprendizado: A trilha sonora da imagem em movimento pode ter quatro elementos. Música, efeitos de som, voz e silêncio. Esses todos contribuem para um objetivo. Perceber que o Som pode afetar não somente o modo que o espectador interpreta a imagem, mas também o que ele pensa que pode ver.
O Guia segue o mesmo processo com outros elementos como podemos ver em alguns extratos:
a) Imagem, (técnica 1); Onde você pensa que a câmera está - Quantas câmeras estão sendo usadas? Por que as câmeras estão nessa posição? Que diferença faria se elas estivessem em outra posição?
b) Roteiro, edição (técnica 3) - A câmera nos mostra algo novo sempre que toda vez que a filmagem muda? Por que os a filmagem muda nesse ponto? Qual nova informação essa mudança traz?
Esse tipo de questionamento ajuda a perceber os elementos da linguagem audiovisual de forma mais consciente, pois em geral são captados apenas pela emoção e por isso as intencionalidades não ficam tão evidentes nem as suas filiações ideológicas. Nessa direção, o guia vai abordar em outros itens referências mais refinadas como:
c) Produção (técnica 4), Quais os papéis que envolvem a produção do filme (o quê a ordem dos papéis nos créditos dizem sobre a importância e o status dos envolvidos)?
d) Audiências e consumo (técnica 5) - Quem você pensa que vai assistir isso (existe alguma evidência de algum publico alvo)? Que tipos de produtos estão sendo oferecidos? (ex. presentes relacionados ao filme/programa) Os produtos promocionais são dirigidos para garotos e garotas (como você sabe, há alguma evidência que são para garotos é para garotas)?
e) Gênero (técnica 6), a) Como você saberia o que vai acontecer depois se você não viu uma prévia antes? Por que nós gostamos de assistir filmes e programas quando nós sabemos o que vai acontecer (Quão confortante é o senso de familiaridade que faz parte do prazer de assistir um gênero de texto)?
f) Transposição de linguagens (técnica 7) - O que você pode dizer ou mostrar em imagem de movimento que você não pode mostrar na impressão?
h) Simulação de produção (técnica 8) - Por que você decidiu ter esse público como alvo? Quais fatores você teve que pensar quando esteve planejando seu produto?
O guia segue trazendo após o capítulo de apresentação das técnicas, algumas explicações de como as atividades propostas podem se relacionar com outras áreas do currículo de maneira solidária. Na sequência apresenta exemplos comentados de atividades elaboradas por outros professores. Embora haja críticas em relação a alguns conceitos que esse material apresenta (BUCKINGHAM, 2005), sua estrutura e forma de organização apresentam algumas contribuições para o trabalho de leitura das mídias na escola.
As crianças, mesmo as menores já sabem alguma coisa sobre as regras e códigos que regem a mídia antes de entrar na escola. O que o guia propõe é que os professores possam auxiliar as crianças a ampliar esse repertório, nomeando-o, qualificando-o, relacionando a outros referenciais. As atividades propostas são apresentadas de modo a que o professor consiga relacionar o como fazer ao porque fazer.
Nesse sentido o material se mostrava como uma importante referência para o desenvolvimento do estudo com as professoras, pois trazia direcionamentos para atividades de estudo das mídias. Por isso com base nesse material e em sua filosofia procurei adaptar algumas de suas sugestões à nossa realidade, pois para
mim era necessário investir numa cultura de estudos das mídias que ainda está embrionária em nosso país.
Em consonância com o objetivo de proporcionar às professoras participantes da pesquisa um aporte teórico-metodológico para o aprofundamento do trabalho com as mídias na escola ofereci um curso para a rede pública de ensino de Natal e região. O curso partiu de um levantamento das experiências anteriores das professoras participantes com o estudo das mídias.
Dessa forma a utilização do guia foi matizada pela leitura de autores como: Paulo Freire, Arnon Andrade, David Buckinghan, Heloísa Penteado, e Mariazinha Fusari entre outros, além das contribuições das entrevistas, para o desenvolvimento de atividades educacionais com mídias na escola voltadas para os anos iniciais do ensino fundamental e para a educação infantil.
Assim apresentamos também elementos da linguagem técnica como: imagens (planos, ângulos, movimentos), sons (volume intensidade, estilo), e noções básicas de roteiro e indicações de edição de vídeo. Cada uma dessas temáticas foi experienciada pelas professoras através de aulas teóricas e de exercícios práticos. A partir dessas experiências discutíamos os fundamentos e as possibilidades de abordagens com as crianças. Durante a semana as professoras experimentavam as atividades com seus alunos e posteriormente traziam os resultados de suas intervenções que eram debatidos pelo grupo. Nesse momento as professoras conversavam sobre suas dúvidas e refinavam sua compreensão a respeito das temáticas tratadas.
Outra ferramenta importante utilizada nesse processo foi o blog do curso que serviu tanto de memória das atividades desenvolvidas, como de registro das impressões e reflexões das alunas após os exercícios. A ideia era a de que ele se constituísse num guia para consulta das professoras, além de canal privilegiado das participantes entre si e conosco, mas acabou funcionando também para dar vazão ao desejo das professoras em lidarem com o computador.
Todas as aulas foram registradas em vídeo e em cada gravação as alunas eram convidadas a manusear a câmera para irem se familiarizando com a câmera e testando os elementos de imagem que aprenderam.
Ao final do curso as alunas realizaram a gravação em vídeo dos roteiros elaborados pelos grupos. Ao final as professoras avaliaram seu processo de apropriação das temáticas, a metodologia de trabalho e as atividades desenvolvidas.
Essa experiência foi muito rica por isso vou detalhá-la um pouco mais no próximo capítulo.