6 RESULTADOS E DISCUSSÕES
6.6 A PERSPECTIVA DE ENSINO DA ORTOGRAFIA DEFENDIDA NA
Até este ponto trouxemos uma análise geral das propostas curriculares quanto ao ensino de Língua Portuguesa. Vimos como elas estão organizadas, as concepções de currículo e ensino que as embasam, bem como seus objetivos de ensino para o Ensino Fundamental. Essa visão panorâmica dos documentos é importante para que, ao direcionarmos nossa discussão para o ensino da ortografia, possamos compreender questões especificas, tanto referentes à norma ortográfica, quanto ao tratamento dado a estas questões nos documentos analisados.
Observamos que são comuns as duas propostas curriculares, a ortografia ser tratada dentro do eixo de Análise Linguística. Até aqui, observamos semelhanças entre as propostas curriculares de Camaragibe e Olinda. Porém, quanto ao espaço dado a ortografia, as duas propostas se diferenciam.
Camaragibe, em seu documento, situa o leitor quanto à perspectiva de ensino da ortografia assumida, destinando alguns parágrafos para tratar sobre a importância de um ensino sistemático e reflexivo da norma ortográfica, além de apontar objetivos de aprendizagens por ano de ensino no quadro ao final do eixo de Análise linguística. Olinda, por sua vez, apenas lista competências a serem ensinadas por ano de ensino. Descreveremos, detalhadamente, esses quadros mais adiante.
Diante do espaço reservado para discorrer sobre a ortografia, analisaremos, portanto, separando em trechos, o texto apresentado na Proposta Curricular de Camaragibe:
“Sabemos que a ortografia é uma exigência social, que facilita a comunicação escrita. Infelizmente, contudo, a tradição escolar vinha sendo cobrar a correção ortográfica (e punir os alunos que não a apresentavam), em lugar de assumir um ensino sistemático das diversas dificuldades ortográficas de nossa língua.” [...] (Camaragibe, 2009, p. 338)
Morais (2009, p. 32) alerta que “Ao negligenciar sua tarefa de ensinar ortografia, a escola contribui para a manutenção das diferenças sociais, já que ajuda a preservar a distinção entre bons e maus usuários da língua escrita”. Ao afirmar que a ortografia é “uma exigência social”, inferimos que o trecho acima, sugere ao docente a importância de não negligenciar o ensino da norma ortográfica e, consequentemente, formar escritores aptos a atenderem as demandas de uma sociedade que, no que concerne à escrita, descrimina quem não escreve atendendo ao mínimo das convenções da língua de prestígio. Além dessa afirmação, o
documento ainda utiliza o termo “ensino sistemático”, enfatizando a necessidade de
o ensino da norma ortográfica acontecer com alguma frequência.
Outra afirmação relevante, apontada no trecho “a tradição escolar vinha
sendo cobrar a correção ortográfica (e punir os alunos que não a apresentavam) ...”
traz à tona uma situação que ainda é bastante comum no ensino fundamental, a ortografia como objeto de verificação e não de ensino. (Morais, 2007).
Acreditamos que, a partir do momento em que o docente tem acesso a informações como estas em um documento oficial da sua rede de ensino, ele é, no mínimo, conduzido a refletir sobre sua prática. Por isso, apreciamos que a proposta de Camaragibe tenha reservado espaço para tratar sobre ortografia não apenas de forma a indicar os conteúdos/objetivos de ensino. Nesse sentido, o texto continua:
“A proposta aqui formulada assume aquele ensino sistemático, buscando ajudar os alunos a descobrirem regras, nos casos em que as dúvidas ortográficas podem ser resolvidas através da compreensão e a tomarem consciência da necessidade de memorizarem a grafia de palavras que contêm irregularidades e que são importantes, porque as usamos frequentemente, ao escrever. Nos casos de palavras menos familiares, precisamos garantir que os alunos aprendam a se beneficiar da consulta aos dicionários.” (Camaragibe, 2009, p. 338)
Observamos, claramente, no trecho acima, a perspectiva de ensino da ortografia defendida no documento de Camaragibe. A Proposta Curricular em questão assume uma abordagem de ensino cujas peculiaridades da convenção ortográfica são tratadas de forma reflexiva, sistemática e, nos casos irregulares, além da compreensão da ausência de regras, a memorização de palavras de uso frequente e a consulta aos dicionários. Nessa perspectiva de ensino, a ortografia passa a ser objeto de ensino, conforme discutimos anteriormente no marco teórico deste estudo, e, principalmente, passa a ser objeto de compreensão por parte dos estudantes e não mais treino ortográfico e verificação de erros. Corroborando com essa perspectiva, o texto reafirma:
“Finalmente, cremos que o ensino da ortografia merece um tratamento especial, que não pode se limitar à reescrita de textos. Uma vez que os alunos tenham dominado a escrita alfabética, devemos assegurar a realização sistemática de atividades que os levem a refletir sobre as regularidades e irregularidades de nossa norma ortográfica. Em lugar de cópias e memorização de regras dadas prontas, devemos garantir que os alunos comparem palavras e descubram, eles próprios, as regras subjacentes à notação de cada grafema ou se deem conta dos casos em que não há regras e é preciso memorizar.” (Camaragibe, 2009, p. 342) Endossamos o texto acima. De fato, “o ensino da ortografia merece um
tratamento especial”. As pesquisas apresentadas (CAVALCANTI, SILVA e MELO
(2007); MORAIS e BIRUEL, (1998); MELO, BARROS e PESSOA, (2015)) revelam a importância de promover o ensino da norma ortográfica, favorecendo a
compreensão e considerando as especificidades ortográficas, conforme a Proposta Curricular de Camaragibe vem apresentando.
Quanto à perspectiva de ensino da ortografia defendida na Proposta Curricular do município de Olinda, ao analisar o eixo de análise linguística, pudemos supor que, assim como Camaragibe, seja uma perspectiva de ensino que privilegie a compreensão, a reflexão. Vejamos o que diz o trecho a seguir:
A análise linguística é uma abordagem que permite ao estudante refletir, comparar e chegar a conclusões sobre o funcionamento da língua nas suas dimensões gramaticais, textuais e discursivas, utilizando como unidade de análise textos orais e escritos e também unidades menores, como os períodos e palavras. (Olinda, 2010, p. 306)
Obviamente, o texto não trata especificamente sobre ortografia, como já referimos anteriormente, também não traz indicações claras de como deve ser o trabalho com as regularidades e irregularidades da norma, mas, ao assumir em toda a proposta uma concepção de ensino sociointeracionista, e ainda, adotar a compreensão de análise linguística, abordagem esta, que prioriza a compreensão da língua portuguesa, limitamos nossa análise a hipótese de que o ensino da ortografia também seja pautado na compreensão das especificidades ortográficas. Porém, destacamos a importância de haver uma explicitação mais aprofundada a esse respeito, uma vez que o documento curricular tem como objetivo nortear a ação docente. Neste sentido, inferir sobre determinados conteúdos de ensino, pincipalmente, sobre as peculiaridades da norma ortográfica, não deve ser um processo natural ao professor.
No que se refere ao ensino da ortografia, defendemos que é indispensável a uma Proposta Curricular, indicativos, orientações, prescrições, quanto à forma que a norma ortográfica deve ser trabalhada no segundo ciclo do ensino fundamental. Os estudos, já referidos, que revelam a ausência de ensino da ortografia, ou ainda um ensino pautado na memorização de regras e verificação de erros, além dos motivos apresentados pelos autores, nos levam a hipótese de que os currículos não preconizam o modo como as especificidades da convenção ortográfica deva ser ensinado.
6. 7 A RELAÇÃO DO ENSINO DE ORTOGRAFIA COM OUTROS EIXOS DE