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6 RESULTADOS E DISCUSSÕES

6.7 A RELAÇÃO DO ENSINO DE ORTOGRAFIA COM OUTROS EIXOS DE

Como já fora dito anteriormente, objetivamos analisar o tratamento dado ao ensino da ortografia nas propostas curriculares dos municípios de Camaragibe e Olinda. E, uma vez que o currículo de Língua portuguesa está organizado por eixos de ensino, conforme verificamos, entendemos que analisar apenas o eixo Análise linguística, eixo no qual é discutida a organização gramatical da Língua Portuguesa, incluindo a norma ortográfica, poderia passar despercebidos aspectos relacionados ao ensino da ortografia nos demais eixos de ensino, já que os dois documentos curriculares sugerem um trabalho articulado entre os eixos. Portanto, a seguir, discutiremos se constam orientações para o ensino da norma ortográfica nos demais eixos de ensino de Língua Portuguesa.

Ao analisar os eixos Apropriação do SEA, Leitura e Produção de Textos escritos e Oralidade, constatamos que tanto no município de Camaragibe, quanto no município de Olinda, esses eixos não apresentam orientações para o ensino da ortografia. No entanto, a Proposta Curricular de Camaragibe, ao trazer reflexões acerca dos objetivos de ensino de tais eixos, se refere às questões relacionadas à ortografia, porém com ênfase no eixo de ensino em questão.

Para entendermos claramente, citaremos, a seguir, tais referências de acordo com o eixo de ensino em que aparecem.

Começando por Apropriação do sistema de escrita alfabética, o documento discute as etapas de aprendizagem (pré-silábica, silábica, silábico-alfabética e alfabética). É na etapa alfabética que aparece a primeira referência à questão ortográfica. Vejamos:

Apesar de ter compreendido como funciona o sistema alfabético, nosso aprendiz ainda tem muito o que automatizar, a respeito das relações letra- som de nossa língua, de modo a poder ler e escrever com razoável compreensão e agilidade. É muito compreensível que ela ainda cometa muitos erros ortográficos, que deverão ser superados durante as séries iniciais do ensino fundamental. (Camaragibe, 2009, p.301)

Como podemos perceber, o trecho refere-se aos erros ortográficos que o estudante, numa hipótese de escrita alfabética, pode vir a cometer. Assim como a proposta de Camaragibe e com base em Morais (2012), concordamos que já no terceiro ano do ciclo de alfabetização os estudantes devem compreender os princípios do sistema de escrita e, mais, terem consolidado algumas questões

ortográficas, como as regularidades diretas. Os erros ortográficos, os quais o trecho acima se refere são totalmente compreensíveis quando entendemos o processo de constantes reformulações sobre a escrita. (MORAIS, 2007;2009; PESSOA, 2007; LEAL e ROAZZI, 2007). Embora o eixo não tenha aprofundado essa discussão sobre os erros ortográficos em escritas de crianças na etapa alfabética, mais adiante ele traz sugestões de atividades voltadas para a sistematização das correspondências grafofônicas e menciona mais uma vez a troca de letras:

“Muitos alunos, mesmo compreendendo os princípios básicos do sistema alfabético, permanecem, durante muito tempo, trocando letras. Algumas vezes, as trocas são ocasionadas por desconhecimentos de regras ortográficas, mas, outras vezes, são decorrência de confusões sobre com quais letras determinadas unidades sonoras se relacionam.” (Camaragibe, 2009, p. 304)

Destacamos que mais uma vez, inserido no eixo apropriação do SEA, à proposta faz referência a questões ortográficas, nesse caso, ao provável desconhecimento de regras da norma. Há expectativas quanto à compreensão de algumas regras ortográficas nessa etapa da alfabetização. Porém, apenas no segundo ciclo do ensino fundamental (4º e 5º ano) os estudantes terão se apropriado das regularidades contextuais e morfológico-gramaticais, além dos casos em que há ausência de regras, as irregularidades.

Muitos docentes confundem erros ortográficos com a ideia de que os aprendizes ainda não estão alfabetizados. Melo e Barros (2015), notaram no discurso de alguns docentes entrevistados a afirmação de que uma das principais dificuldades para trabalhar com ortografia no segundo ciclo do ensino fundamental é que os estudantes chegam nessa etapa de ensino ainda sem estarem alfabéticos.

Diante disso, nos questionamos: o que esses professores consideram como alfabéticos? Como o erro ortográfico é trabalhado nessa etapa da alfabetização?

Considerando estas questões, refletimos sobre a necessidade de haver indicativos que auxiliem o docente quanto ao que deve ser feito em situações de erros ortográficos, ou ainda, o desconhecimento de algumas regras ortográficas ainda no processo de apropriação da escrita alfabética.

Quanto ao eixo Leitura, não houve nos documentos nenhuma alusão à ortografia. Já em Produção de textos escritos, do mesmo modo que no eixo descrito anteriormente, a ortografia também é citada, porém o enfoque é na aprendizagem

do eixo produção de textos. A referência à ortografia está inserida no contexto das exigências demandadas na produção de um texto escrito. Vejamos:

Produzir textos, assim como ler, é uma atividade complexa, que exige a coordenação de muitas ações: resgatar conhecimentos / gerar conteúdo textual; organizar o conteúdo em sequência linguística, atendendo às finalidades previstas e às características do gênero, quando necessário; grafar o texto, atendendo à norma ortográfica, de pontuação, de concordância, dentre outras. (Camaragibe, 2009, p.328)

Ao afirmar que “grafar o texto, atendendo à norma ortográfica” é uma das ações em que o estudante terá que coordenar, juntamente com outras ações, para produzir um texto, nos leva a inferir que o documento está orientando o professor a, partindo do ensino da produção de um texto escrito, independente do gênero textual, trabalhar com o ensino da norma ortográfica. Comumente, os professores afirmam que ensinam ortografia “dentro da produção de texto”. Ao analisarmos as entrevistas realizadas com os docentes para este estudo, retomaremos esse ponto na discussão dos dados obtidos. Mas, tornamos a dizer, o documento não traz orientações expressas quanto ao ensino da ortografia nesse eixo de ensino. Assim como também não traz orientações no eixo Oralidade.

A Proposta Curricular de Olinda não traz referências às questões ortográficas em outros eixos de ensino, porém, inserida no eixo análise linguística, verificamos a seguinte afirmação:

Por estarem intrinsecamente ligadas às práticas de uso da língua, as atividades do eixo da análise linguística terminam se fundindo com aquelas desenvolvidas nos eixos de leitura, escrita e oralidade. O fundamental é, na verdade, que os estudantes percebam que, para compreender e produzir textos de modo autônomo, crítico e fazer isso de modo adequado a diferentes situações de interação, os conhecimentos conscientes sobre a língua e as capacidades de refletir sobre ela são imprescindíveis. (Olinda, 2010, p. 307)

Embora não haja registro, em se tratando da norma ortográfica, nos demais eixos de ensino do currículo do município de Olinda, verificamos, na citação acima, o posicionamento do currículo no que se refere ao ensino da análise linguística. Segundo Souza e Souza (2012, p. 47), atualmente, os eixos de ensino da língua portuguesa, estão em constante relação. Vimos, até aqui, que ambas as propostas defendem essa conexão entre os eixos didáticos, mas ressaltam que cada um tem

suas especificidades.

Não objetivamos aprofundar essa discussão. No entanto, considerando a importância de o ensino que promova a capacidade de refletir sobre a língua e, consequentemente, fuja a tradição de um trabalho voltado para a memorização de regras, entendemos que, assim como orientam os PCN de Língua portuguesa e os currículos ora analisados, a análise linguística e os demais eixos de ensino devam ser trabalhados de forma articulada. Contudo, ressaltamos que as especificidades de cada eixo de ensino devem ser sistematizadas em momento oportuno no planejamento do professor.

A ortografia, por exemplo, pode ser trabalhada dentro do ensino da produção de textos escritos, como descrevem os docentes quando questionados como trabalham com a ortografia. Porém, o ensino desse conhecimento linguístico, não pode ser limitado apenas a correções e revisões do texto, conforme orientam Morais e Silva (2006).

6.8 A SELEÇÃO, ORGANIZAÇÃO E CLASSIFICAÇÃO POR ANOS DE ENSINO