4 OS GUARDIÕES, A MEDICINA POPULAR, A MEDICINA OFICIAL E
4.4 A perspectiva de integração das práticas informais com as formais no
A partir da Conferência Internacional sobre Cuidados Primários de Saúde em Alma – Ata (1978), a prática social de tratar doenças por meio de saberes e habilidades incomuns foram reconhecidas. Com relação a essas práticas e aos seus praticantes, foi afirmado que:
[...] com o apoio do sistema formal de saúde, os praticantes autóctones podem transformar-se em importantes aliados na organização de medidas para aprimorar a saúde da comunidade. Certas comunidades poderão escolhê-los como agentes de saúde da comunidade. Na maioria das sociedades existem médicos tradicionais. Sendo eles muitas vezes parte integrante da comunidade, da cultura e das tradições locais, que em muitas localidades continuam a manter alta posição social, exercendo considerável influência sobre as práticas sanitárias locais. Logo, vale a pena explorar
as possibilidades de fazê-los participar dos cuidados primários de saúde e de lhes proporcionar o treinamento apropriado (CONFERÊNCIA INTERNACIONAL SOBRE CUIDADOS PRIMÁRIOS DE SAÚDE EM ALMA-ATA, 1978, p. 51). Os cuidados que se realizam em torno da saúde muitas vezes são entendidos de um modo bastante diferenciado e até limitado, tanto pelos usuários dos sistemas de saúde como pelos profissionais da rede de atenção. Conforme Gutierrez e Minayo (2010), os cuidados em saúde podem ser desenvolvidos em, no mínimo, dois contextos distintos. O primeiro tido como a rede oficial de serviços e o segundo configura a rede informal. O formal é representado pelo saber biomédico-científico e é altamente valorizado, ao passo que o informal é o saber popular, e não conta com tanto prestígio.
Conforme Capra (1982), qualquer mudança na assistência à saúde envolverá a formulação de novos modelos conceituais, a criação de novas instituições e a implementação de uma nova política. Esse autor pondera sobre as possíveis comparações estabelecidas entre os sistemas médicos de diferentes culturas e alerta que elas devem ser feitas com todo o cuidado.
[...] qualquer sistema de assistência à saúde é um produto de sua história e existe dentro de certo contexto ambiental e cultural. Como esse contexto muda continuamente, o sistema de assistência à saúde também muda, adaptando-se às sucessivas situações e sendo modificado por novas influências econômicas, filosóficas e religiosas. Por isso, a utilidade de qualquer sistema médico como modelo para uma outra sociedade é muito limitada. Não obstante, será útil estudar os sistemas médicos tradicionais; não tanto porque eles podem servir como modelo para nossa sociedade, mas porque os estudos transculturais ampliarão nossa perspectiva e nos ajudarão a ver sob nova luz as ideias atuais acerca da saúde e dos métodos de cura. Veremos, em especial, que nem todas as culturas tradicionais abordaram a assistência à saúde de um modo holístico. Através dos tempos, parece que as culturas têm oscilado entre o reducionismo e o holismo em suas práticas médicas, provavelmente em resposta às flutuações gerais dos sistemas de valores. Entretanto, quando suas abordagens eram fragmentadas e reducionistas, esse reducionismo era, com frequência, muito diferente daquele que domina a medicina científica atual (CAPRA, 1982, p. 285).
Um modelo alternativo de medicina deve concretizar uma política de saúde que no plano teórico parta das condições concretas de vida. Na opinião de Oliveira (1983), esse conceito de medicina deve passar necessariamente pela implementação de um espaço de atuação fundamental para a existência de uma prática de medicina de comunidade e descentralizada. Deve redefinir seus objetivos, suas políticas sociais e econômicas, pautando as práticas em uma nova organização social. Deve ainda abrir um horizonte de luta em que a população possa participar da formulação das políticas de saúde que deseja e engajar-se em movimentos sociais capazes de controlar os serviços de saúde.
A questão do saber popular utilizado em um conjunto de diferentes práticas de cura desenvolvidas a partir da cultura, confronta-se com o saber científico da medicina dominante. Oliveira (1983) enfatizou dois aspectos: o de suas ações com as demais opções de cura em sociedades capitalistas dependentes, e com alternativas a elas; e o das relações internas e da lógica de sua produção: seus agentes isolados, os guardiões. Sublinha-se, assim, o modo como a medicina popular responde, em alguma medida, às necessidades de alguns setores da sociedade.
Acioli (2006) diz que a forma como a população desenvolve suas práticas e o que tem sido valorizado por esses grupos no que se refere a sua saúde tem sido pouco observado e estudado. Por conta disso, além de um relativo desconhecimento, dá-se uma naturalização das práticas aí desenvolvidas, o que dificulta a percepção da complexidade e das interdependências existentes nas ações empreendidas regularmente pelas pessoas.
Para Barbosa et al. (2004), a adoção de terapias alternativas na assistência à saúde pode favorecer o alcance de melhores resultados no que diz respeito ao processo saúde doença. Apesar dos preconceitos, a credibilidade desses métodos não convencionais é crescente porque valorizam o indivíduo em todas as suas dimensões e instituem intervenções menos agressivas, com efeitos mais harmônicos no organismo.
Os cuidados da saúde a partir das relações entre políticas de saúde e as funções atribuídas aos guardiões no âmbito da cultura, experimentam flutuações, porque ainda prevalecem, mas a hegemonia do modelo biomédico tem sido forte. Entretanto, na retomada das discussões a partir da Carta de Ottawa, documento fundamental para orientação da promoção à saúde, a Organização Mundial de Saúde chamou a atenção para o papel insubstituível das políticas públicas, mas ressaltou ainda, com igual peso, a importância dos vários atores na construção dos cuidados e da qualidade de vida, e enfatizou, inclusive, a adesão dos sujeitos aos processos de cuidados tradicionais.
A dinâmica cultural recoloca os guardiões numa relação de confronto direto com os sujeitos da cultura dominante e no aprofundamento de suas contradições, abre-se-lhes um novo horizonte, em que será refletida a experiência de libertação de sua cultura. Nesse horizonte, será descortinada uma prática concreta que integrará a consciência das contradições sociais sentidas e vividas cotidianamente. Deve-se, então, recriar uma relação que vise a viver e a representar uma identidade (OLIVEIRA, 1983).
É uma prática de cura solidária e democrática e encontra-se em permanente confronto com a medicina erudita, tanto do ponto de vista da trajetória de iniciação dos seus agentes, da sua legitimidade política, como do seu arsenal de técnicas e ferramentas de trabalho. A medicina popular é uma das formas de prestação de serviços de cura, de fé e de assistência de baixo custo e de fácil acesso. Constitui-se numa medicina popular gerada dentro de um setor de cura que possui, como peso, uma categoria de profissionais populares. A medicina popular é parte das estratégias de respostas aos problemas concretos vividos cotidianamente (OLIVEIRA, 1983).