3 A TRAJETÓRIA DAS LUTAS POLÍTICAS E SOCIAIS PELA SAÚDE
3.3 O cuidado integral e as práticas de saúde
A reorganização das práticas de saúde é uma etapa fundamental para a construção do modelo de cuidado integral, em consonância com os princípios do SUS, em especial com o princípio da integralidade, pela promoção da saúde na ESF, um nível de atenção que tem impacto positivo na qualidade de vida comunitária e que se articula com os demais níveis e setores para prover a saúde como um direito.
Conforme Pinheiro (2009), o modelo biomédico que orienta o conjunto das profissões em saúde, ao se apoiar nos meios diagnósticos para evidenciar doenças, afastou-se do sujeito humano sofredor como totalidade viva e permitiu que o diagnóstico substituísse a atenção e o cuidado integral à saúde. Entretanto, mais do que o diagnóstico, os sujeitos desejam se sentir cuidados e acolhidos em suas demandas e necessidades. Assim, o cuidado em saúde é uma dimensão da integralidade em saúde que deve permear as práticas de saúde, não podendo se restringir apenas às competências e tarefas técnicas.
Reorganizar as práticas de saúde em novas bases é o desafio. Assim, surge um modelo com caráter substitutivo, de complementariedade e de hierarquização, representado pelo conjunto articulado e contínuo das ações e serviços e o trabalho em equipe multiprofissional, com assistência humanizada das práticas, que visam a prestar uma atenção resolutiva.
Para Boff (2012), o cuidado é algo anterior, é a fonte prévia de todos os comportamentos possíveis, sejam práticos, teóricos, conscientes ou inconscientes. O fato de o ser humano ser portador de cuidado essencial cria a condição para ele se sentir, conscientemente, como um ser no mundo. Com esta premissa, busca-se compreender a finalidade de obter uma melhor compreensão do cuidado integral ao usuário do SUS.
Brasil (2012) afirma que a AB foi considerada como estratégica para a resolubilidade dos problemas de saúde de maior frequência e relevância na população, mediante o emprego das várias formas de tecnologias em saúde. Pressupõe-se, assim, a responsabilidade com as práticas gerenciais, assistenciais e sanitárias de formas democráticas e participativas.
Neste sentido, Ayres (2009) faz uma discussão do cuidado, nos modelos de atenção orientados para a integralidade, realizando uma análise em três planos bem definidos: saber, técnica e ética, a partir dos quais aponta proposições conceituais que parecem potencialmente fecundas para promover convergências instruídas para o princípio do SUS em destaque.
No plano do saber, Ayres (2009) faz referência à epidemiologia como uma matriz disciplinar, com potencial para o diálogo interdisciplinar que busca saberes em qualquer área de conhecimento científico, de modo a construir a fusão de horizontes entre os diferentes discursos interessados na saúde. Neste sentido, cada discurso pode dar a solução concreta de problemas práticos. Dessa forma, a epidemiologia exerce um papel estratégico frente às necessidades e possibilidades concretas de intervenção nos processos saúde-doença-cuidado.
A partir do desenvolvimento das ciências básicas positivas, sobre as quais a medicina se estruturou, as determinações extra-biológicas das necessidades passaram a ser abstraídas e
a medicina transformou-se na única prática capaz de definir, por meio de seu saber científico, o que é ou não legítimo enquanto normal e patológico. O corpo biológico tornou-se o campo no qual é possível explicar a ocorrência do normal e do patológico em qualquer circunstância. Por outro lado, essa relação em que o outro é tomado como corpo biológico e objeto da ação e que deslegitima todos os outros saberes sobre saúde, é vertical, unidirecional. Não é assim que as coisas funcionam na prática (MERHY & FEUERWERKER, 2009).
Pinheiro e Mattos (2007), embasados em Weber (1993), afirmam que o capitalismo ocidental é voltado para o cálculo da produtividade do trabalho. Com o advento do capitalismo, as sociedades modernas desenvolveram as técnicas dos conhecimentos científicos das áreas da matemática e das ciências da natureza e formas crescentemente complexas de empreendimentos que visam à sistematização dos lucros.
Para Merhy e Feuerwerker (2009), Marx considerava o trabalho não somente em sua dimensão operativa, enquanto uma atividade, mas como uma práxis, que expõe a relação homem/mundo em um processo de mútua produção. O homem trabalha a partir de um recorte interessado do mundo, projetando-o para as atividades que irão compor o processo de trabalho envolvido na fabricação do produto desejado. Entretanto, conforme os autores, Taylor defendeu a ideia de que o modo de organizar os processos de trabalho altera as relações entre máquina e trabalhador, pois pode impactar os seus movimentos no tempo. Taylor dizia que o operário, sem o controle do capitalista, faria uma fábrica do seu jeito, e esse nem sempre era o melhor jeito para quem visava à lucratividade e à competição no mercado. Desenvolveu, então, um conjunto de tecnologias para capturar a autonomia dos trabalhadores no exercício de seu trabalho vivo, pois considerava que somente a captura realizada pelas tecnologias não era suficiente (MERHY, 2002).
Com a modernidade, estabeleceu-se, assim, um conjunto de novas demandas e novas necessidades sociais, exigindo novos mecanismos de produção, cada vez mais especializados. A criação desses mecanismos gerou outras necessidades, cada vez mais individualizadas, na busca do sucesso, do controle, enfim, da renovação dos valores que orientavam as ações dos indivíduos. De outro lado, na esteira das relações de produção capitalista, a própria racionalidade científica moderna desenvolveu-se de maneira bastante acelerada, através do aperfeiçoamento de técnicas para controlar e organizar a natureza, mas na forma de produção. Esta estaria voltada para a condução da previsão de ações da racionalidade ocidental moderna. A ciência nunca teve tanto prestígio social como nesse período, sobretudo nos dias de hoje (PINHEIRO E MATTOS, 2007).
No plano da técnica, Ayres (2009, p. 18) tece críticas em relação ao modo como elas se operam hoje:
A visão é segmentada, não se consegue ver a totalidade do paciente no seu contexto; existe uma abordagem muito centrada na patologia; há pobreza da relação e interação entre profissionais e usuários e entre os diversos profissionais da equipe; é, especialmente, frágil o compromisso com o bem-estar dos usuários. Não que os profissionais sejam irresponsáveis, mas o modo como os arranjos tecnológicos se configuram no cotidiano dos serviços acaba, muitas vezes, favorecendo certo descolamento entre o momento do ato assistencial e o envolvimento com suas consequências e com os desdobramentos da situação dos pacientes e comunidades. Neste plano, a ideia de cuidado vem justamente tentar reconstruir, a partir dos problemas e tensões apontados, uma atenção integral à saúde de indivíduos e comunidades, buscando recompor competências, relações e implicações ora fragmentadas, empobrecidas e desconexas (AYRES, 2009, p. 18).
Para Pinheiro (2009), a prática tem sido tratada, na grande maioria das vezes, apenas como um campo de aplicação ou verificação de ideias, propostas ou modelos. Tal postura acaba por negar a condição do agente que tem a prática, nas transformações sociais, políticas ou econômicas.
No plano da ética, Ayres (2009, p. 20) comenta os saberes e fazeres como práticas que têm implicações tanto na disposição para o encontro entre profissionais e usuários, quanto para as escolhas que devem emergir desses encontros. Para este autor, saberes/fazeres estão relacionados com o reconhecimento e validade das diversas concepções e proposições dos sujeitos em relação à saúde. No plano da ética, o saber/fazer do modelo para a integralidade requer a Humanização ao, esclarecer que:
Será preciso trabalhar os arranjos tecnológicos para reverter a situação onde o interesse que move o profissional de saúde já está, em geral, muito claramente colocado. Ele tem um conjunto de saberes determinado a priori – saberes técnicos e científicos. Seu papel ali está definido como um trabalho, com regras e finalidades igualmente bem delimitadas. Já o usuário chega de modo muito diverso a esse encontro. Há algum tipo de sofrimento ou preocupação, alguma fragilização que o move, e isso, por si só, já faz toda a diferença. Além disso, ele traz saberes, mas saberes não especializados, não passíveis de um controle a priori. No entanto, esses saberes têm a chancela da experiência, da vivência mais profunda daquilo que é (ou deveria ser) o motivo central do encontro com o profissional (AYRES, 2009, p. 20). Corroborando com esse pensamento sobre o campo do cuidado, Assis et al. (2010, p. 16), Merhy e Franco (2003) consideram a integralidade como um potente dispositivo para desencadear processos de transformação das práticas de saúde, permitindo um (re)direcionamento do modelo de atenção à saúde. Porque esse princípio exige do trabalhador de saúde o repensar das práticas desenvolvidas em seu cotidiano. Exige também que sejam revistos os valores e conhecimentos de todos os sujeitos envolvidos no processo de produção social da saúde.
Por todas estas argumentações, fica muito evidente que o cuidado na atenção à saúde é feito clinicamente em práticas que prevalecem, quase que exclusivamente, a serviço da biomedicina. Mas, com esse reconhecimento, se explica porque o cuidado integral clama tanto por reorientação das práticas na possibilidade de buscar outras concepções pertinentes ao saber/fazer/humanização. É imprescindível, portanto, a criação de estratégias para a qualidade de vida.
Conforme Pinheiro (2009), o cuidado em saúde é um modo de fazer na vida cotidiana que se caracteriza pela atenção. A produção de cuidado é o modo de agir e se faz contextualizada e se transforma em experiência humana nos aspectos políticos, sociais, culturais e históricos, de espaço e da ação de cidadãos em práticas sobre os outros em uma dada sociedade. Assim, o cuidado como ato resulta na prática do cuidar e o outro é o lugar do cuidado.
Para a autora acima, o cuidado integral de saúde é uma ação integral, fruto das relações entre pessoas. A ação integral como efeitos e repercussões de interações positivas entre usuários, profissionais e instituições, que são traduzidas em atitudes, tais como: tratamento digno e respeitoso, com qualidade, acolhimento e vínculo. O que significa dizer que as práticas não devem ser resumidas a procedimentos técnicos e nem resistirem às mudanças, mas, devem, sim, dar abertura para novos horizontes do cuidado.