CAPÍTULO IV APREENSÃO DO OBJETO MUSEAL – HERMENÊUTICA E
4.1 A perspectiva interpretativa – Geertz e Ricouer
Como este capítulo pretende desenvolver algumas reflexões sobre as contribuições à luz de uma perspectiva hermenêutica ou interpretativa em relação à cultura material (objeto museal), faz-se necessário, primeiramente, estabelecer algumas concepções sobre o que seria esta perspectiva. Para tanto nas linhas abaixo são destacados, em termos amplos, alguns pressupostos da antropologia hermenêutica ou interpretativa, de acordo com elaborações de Clifford Geertz.
Entretanto, antes de partir para as elaborações de Geertz é inevitável discorrer sobre algumas ideias relativas ao símbolo hermenêutico de Paul Ricouer36, que foi um dos que, grandemente, influenciou Geertz em sua concepção do que viria a ser a antropologia interpretativa “geertzsiana”.
4.1.1 Paul Ricoeur – Hermenêutica, Interpretação e Significado
Foi na procura do sentido das coisas e na construção de um saber específico que Hans-Georg Gadamer e Paul Ricoeur fundaram sobre bases sólidas a hermenêutica moderna e se firmaram como grandes expoentes desta filosofia
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O texto de Paul Ricoeur aqui utilizado é o capítulo "Estrutura e Hermenêutica" do livro O conflito das Interpretações: Ensaios de Hermenêutica. Rio de Janeiro: Imago, 1969.
82 de interpretação enquanto busca que não se conclui, uma “história sem fim” que jamais se resolve no encontro com a verdade, e que implica uma abertura para o outro, um diálogo, seja com o texto a interpretar ou com a pessoa que pode transmitir algum tipo de conhecimento.
Com o filósofo francês Paul Ricoeur surge a “filosofia hermenêutica”, em uma versão regida e sustentada pelo exercício de busca de fundamentos. Pode-se destacar que uma das grandes contribuições de Ricoeur baseia-se na profunda reflexão sobre as possibilidades dos discursos, bem como nos seus limites e potencialidades. Em seus estudos, Ricoeur analisa as diferenças entre discursos falados e escritos, e orienta a hermenêutica a outro plano de aplicação, qual seja: a diferença entre linguagem e discurso (PAULA & SPERBER, 2011).
A distinção entre linguagem e discurso feita por Ricoeur (1969) é decisiva para consolidar sua proposta de filosofia hermenêutica. Para ele, linguagem e discurso não são a mesma coisa. A linguagem é apreendida como um sistema de regras, composto por sinais que existem virtualmente, e o discurso é a efetuação desse meio de comunicação, enquanto evento. Neste sentido, a linguagem é o meio, e o discurso, o conteúdo.
Assim, para Ricoeur (1969) o discurso é a linguagem no sentido de evento, e é, por conseguinte, algo que ocorre no tempo e encontra-se carregado de conteúdo. Em suas elaborações o autor, ao focar seu interesse no discurso, não desvaloriza o emprego da linguagem, haja vista que ela é necessária e imprescindível, mas sua teorização pretende afirmar que só acontece comunicação através do discurso, que ocorre como evento e com significado. Outro ponto importante tratado por Ricoeur (1969) em suas elaborações refere- se à relação entre hermenêutica e tradição. Num primeiro momento o autor trata da relação entre os dois conceitos a partir da forma de operar o tempo: no primeiro, o tempo é de interpretação, e no segundo é de transmissão. Segundo ele, a interpretação é um modo de manter a tradição viva, por isso o tempo de interpretação, num certo sentido, pertence ao tempo da tradição. Este último conceito, ainda que concebido como um depósito (depositum) a ser transmitido, se transforma em algo morto, visto que não passa pela realização de uma constante interpretação - atualização contínua. Neste sentido, a tradição depende da interpretação para continuar existindo.
83 Ricoeur (1969) ressalta, então, que a relação de dependência mútua entre os dois tempos não é visível. Para que ocorra a visibilidade desta relação faz-se necessário o aparecimento de um terceiro tempo, que permite o entrecruzamento dos dois primeiros: o tempo do sentido, no qual se encontra inserido o símbolo. Este último é definido como possuidor de duplo sentido semântico (sentido primário) e interpretação (sentido do devir).
Dando prosseguimento à sua elaboração, Ricoeur (1969) estabelece que símbolo deva ser apreendido como algo diferente de mito e que esse não esgota a constituição semântica daquele, por que: o mito é um relato e como tal possui um tempo de referência; no mito há um mascaramento do potencial temporal do símbolo, a função social do mito não esgota o sentido do símbolo; e, o fato de ser um relato, implica uma limitação do sentido do símbolo, devido a certa racionalização que o mito faz.
Segundo ele os símbolos exibem três níveis de significantes: nível simbólico primário, nível mítico e nível dos dogmatismos. A tradição, ao percorrer o caminho do símbolo ao mito e depois a mitologia, também estabelece um caminho que vai do tempo oculto ao tempo esgotado. E nesse processo de transformação torna-se herança, depósito, e se racionaliza.
A interpretação não deve buscar a verdade, visto que esta última está sempre restrita a uma visão de mundo, cuja referência encontra-se tanto na história quanto na cultura. Desse modo, a interpretação deve buscar o sentido dos símbolos.
A pretensão de Ricoeur não é compreender o evento (fenômeno temporal que pode travar-se, prolongar-se ou ser interrompido) em si, mas a significação do mesmo, que é o que permanece (PAULA & SPERBER, 2011).
Em seu texto “Estrutura e Hermenêutica” (1969), o autor destaca que entre o estruturalismo e a hermenêutica existe certo vínculo, sendo que o primeiro é teoria, e o segundo, filosofia, mas que não são excludentes ou opostos, muito pelo contrário, são complementares. Isso porque não se pode buscar interpretar sentidos sem que se busque minimamente compreender a estrutura. Segundo esse autor a tarefa de compreender algo prescinde de uma explicação e vice-versa – uma complementa a outra. Para que se consiga objetivar um discurso é necessário ter consciência que ele se constitui de um conjunto de frases que um indivíduo diz a outro a propósito de alguma coisa.
84 Os discursos precisam ser contextualizados como um produto construído nas e pelas estruturas.
4.1.2 Geertz – Antropologia Interpretativa: representações simbólicas, significados / sentidos
A teoria antropológica interpretativa de Clifford Geertz concebe que a hermenêutica tem como função fazer coincidir a compreensão do outro com a compreensão de si e do ser. Para tanto, percorre o que é chamado arco hermenêutico ou interpretativo.
Figura 1: Arco Hermenêutico ou Arco Interpretativo.
Fonte: Arquivo Pessoal 37
Geertz (1989), seguindo a concepção de Paul Ricoeur (1969), considera que existe uma associação entre explicar e compreender durante o processo de interpretação, perceptível no "arco interpretativo", que percorre desde a compreensão ingênua inicial até a compreensão sábia, em profundidade, mediada pela explicação.
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Esta figura do círculo hermenêutico ou interpretativo é fruto de compilações de aulas de Antropologia do Simbólico, ministradas pelo professor Leonardo Fígoli e realizadas em novembro de 2006.
85 Em seu entendimento sobre explicação e interpretação antropológicas, Geertz (1989) evidencia a inseparabilidade entre os "dois tipos de compreensão", que para ele são dois tempos interpretativos interconexos, uma vez que a interpretação agrega tanto a identificação e a descrição dos elementos, quanto à captação de sentido desses elementos no todo.
O autor procede a uma reformulação das ideias da hermenêutica ricoeuriana para criar a sua própria concepção do que vem a ser uma análise interpretativa. Partindo desta adaptação, busca realizar uma análise dos sistemas simbólicos ao elaborar uma definição de cultura nos moldes propostos pela concepção hermenêutica.
(...) um padrão de significados transmitidos historicamente, incorporado em símbolo, um sistema de concepções herdadas, expressas em formas simbólicas por meio das quais os homens comunicam, perpetuam e desenvolvem seu conhecimento e suas atividades em relação à vida (GEERTZ, 1989, P.102).
Na análise interpretativa a cultura é, então, um texto e cabe a antropologia interpretativa / hermeneuta decifrar este texto, criticá-lo e decodificá-lo, de modo a fazer com que um estudo antropológico perpasse o arco hermenêutico acima descrito.
As características principais da antropologia interpretativa em Geertz (1989) são: (1) a intersubjetividade, encontro de subjetividades; (2) a visão dos fenômenos como passíveis de interpretação e não apenas de uma classificação; (3) a cultura como texto a ser lido e compreendido: ela é como uma teia de significados, e também é dialógica; (4) o caráter polifônico do sistema simbólico / cultural.
Na visão de Geertz (1989) o sentido é a manifestação da vida social – ele é próprio da ação dos sujeitos que se relacionam entre si em função de um significado. Sua preocupação não é com o sistema cultural, sua estrutura, mas sim com o modo como os significados / sentidos se agrupam e formam a cultura. Não está preocupado, a princípio, com generalizações, visto que esta é realizada dentro de casos, onde são ressaltadas as diferenças de um caso para os demais.
Nessa conjuntura seus estudos não têm uma referência a uma estrutura, mas às significações singulares da própria cultura em questão. Não é no todo, mas,
86 sim, nas partes que se encontra o elemento diferenciador para a análise antropológica.
Segundo Geertz (1989), compreender as representações simbólicas implica em ver como funcionam no contexto de situações concretas ao organizar as percepções dos sujeitos. Em sua visão os fenômenos culturais são passíveis de interpretação, são símbolos interpretáveis; seu interesse reside no significado da mensagem que esses símbolos transmitem e não nas leis que os regem. Assim, a cultura também é interpretável, visto que os símbolos fazem parte da cultura.
Os símbolos são polissêmicos, a cada nova situação em que são inseridos encontram-se cercados por motivações e disposições diferentes e permitem que existam novas possibilidades de significado.
Neste sentido, buscar o significado dos fenômenos simbólicos é compreendê- los nos contextos nos quais os sujeitos se encontram inseridos, pois é dessa forma que se poderá dar início a um diálogo. Para se interpretar o sentido da ação dos sujeitos sociais é necessário fazer referência às intenções que estão por detrás da ação – interpretar levando-se em consideração a subjetividade dos atores sociais.
Para Geertz (1989), os símbolos não se constituem em mensagens da sociedade para os indivíduos passivos que a formam: consistem, antes de tudo, em um meio de comunicação. A cultura é um campo de símbolos, da sua criação, expressão e manipulação. A ação dos indivíduos constitui um ato de reconhecimento, em termos de um modelo simbólico do ambiente, de forma a tornar possível a apreensão efetiva do mundo.
Pensar, conceituar, formular, compreender, entender, ou o que quer que seja consiste não em acontecimentos fantasmagóricos na cabeça, mas em combinar os estados e processos dos modelos simbólicos com os estados e processos do mundo mais amplo (...) (GEERTZ, 1989, P.185).
Os símbolos transmitem valores, visões do mundo, a localização do poder etc. Não devem ser explicados, mas sim interpretados, de acordo com os parâmetros / princípios da hermenêutica. Os símbolos têm uma capacidade evocativa, mas incitam e estimulam emoções, mais do que conhecimentos. São mais afetivos do que cognitivos. Segundo Geertz (1989), existem símbolos
87 / sistemas simbólicos cognitivos e expressivos e ambos os tipos possuem algo em comum: “eles são fontes extrínsecas de informações em termos das quais a vida humana pode ser padronizada” (Geertz, 1989, P.188).
Os padrões culturais – religioso, filosófico, estético, científico, ideológico – são ‘programas’: eles fornecem um gabarito ou diagrama para a organização dos processos sociais e psicológicos, de forma semelhante aos sistemas genéticos que fornecem tal gabarito para a organização dos processos orgânicos (...) (GEERTZ, 1989, P.188).
Neste sentido, tomando a fala de Geertz (1989) supracitada como base, tem-se que se pode tomar a arte (religião, ideologia) como padrão cultural inscrito na cultura enquanto elemento estratégico para a elucidação dos sentidos e significados implicados nas relações sociais. Isso porque as ações humanas são extremamente múltiplas e adaptáveis (“plásticas”), ou seja, não são determinadas apenas pela genética, mas, também, por fontes externas de informações e significações.
Sua preocupação é com o discurso (linguística do discurso), interessa o que foi dito, sem se reduzir à língua, porque a análise do discurso depende da capacidade de reconhecer a ação significativa. Esta capacidade está relacionada à própria biografia do interprete, ou seja, quanto mais o etnólogo / antropólogo está capacitado mais habilitado ele se encontra para compreender / interpretar os fenômenos culturais / a cultura, não se atendo a um quadro pré- estabelecido – tanto em termos do saber nativo quanto do saber científico.
4.1.3 Geertz e Ricoeur – Contribuições para o Estudo do Objeto Museal
Sendo a exposição o lugar por excelência onde ocorre a mediação dos museus, é, pois, por meio dela que se transmite uma narrativa cultural construída durante sua formatação. Utilizando-se de variadas técnicas e métodos, os museus organizam e dispõem dos bens culturais visando que o visitante tenha uma leitura própria, mas resultante da captação de uma mensagem elaborada tecnicamente e com finalidade cultural pela instituição museal. Neste sentido, o objeto museal, agende informador e construtor de significados de si, da cultura à qual se encontra referenciado e do/sobre o
88 espaço museológico, deve ser apreendido como narrador autorizado e referência pelo qual é construído um (vários) discurso(s) próprio do museu. Ao se considerar a papel simbólico dos bens culturais enquanto evidências e testemunhos de dada realidade preservada e reproduzida pelo museu, pode- se, a partir do agrupamento de um conjunto destes objetos com características e relações próximas e com base em um fio condutor, conceber / elaborar uma narrativa (SILVEIRA, 2005). Assim, as exposições fornecem, ao mesmo tempo, leituras de acontecimentos e instiga o visitante à análise crítica da informação lida por meio da transmissão de um discurso que precisa, conforme Ricoeur (1969), ser contextualizado como um produto construído nas e pelas estruturas.
Dessa forma, um museu é espaço de comunicação simbólica e material, expressa a partir da exibição do objeto, pois transmite informação relativa à trajetória humana no campo material e no campo das representações simbólicas. Esta inferência coincide com a concepção geertziana em que a cultura é um campo de símbolos, da sua criação, expressão e manipulação, produzida a partir da ação dos indivíduos, na qual os símbolos são antes de qualquer outra coisa um meio de comunicação, e sua apreensão constitui um ato de reconhecimento, de rememoração. Com efeito, os objetos trazem consigo sentidos relacionados à memória e à identidade cultural. Com isso, os objetos museais podem ser vistos como conservadores do passado, ricos em recordações e podem ser considerados como signos memorativos que desencadeiam o processo de reminiscência (SILVEIRA, 2005).
A abordagem interpretativa proposta por Geertz (1989) e Ricoeur (1969) é uma proposta de ação para a construção do diálogo cultural, haja vista que parte do princípio de que nas relações entre culturas não existem apenas diferenças, mas também assimetrias, disputas e, por que não, semelhanças. Pode-se considerar que uma de suas bases é que o diálogo entre culturas é fundamental, traz enriquecimento e fortalecimento das identidades culturais, possibilitando a apreensão de novas concepções e visões de mundo, que, apesar de diferentes, são válidas. Indo além da mera apreciação e construindo uma teia de significados, onde as culturas interagem, pode-se deduzir que sua utilização favorece os processos de negociação cultural, a construção de identidades de “fronteira” ou “híbridas”, plurais e dinâmicas, nas diferentes
89 dimensões da dinâmica sociocultural. Neste sentido, pode-se inferir que a proposta interpretativa possibilita que ocorra a promoção de uma ação para o reconhecimento do “outro”, para o diálogo entre os diferentes povos e culturais, favorecendo, dessa forma, a construção de um projeto comum, onde as diferenças sejam dialeticamente integradas e façam parte de um patrimônio cultural comum.
Ao utilizar as concepções de Geertz e Ricoeur na elaboração de seu discurso, o museu opta por expressar para seu público o significado dos objetos culturais expostos dentro de um arcabouço interpretativo que serão apreendidos a partir dos contextos nos quais os sujeitos produtores das coleções se encontram inseridos. Na visão das elaborações da antropologia geertziana, somente dessa forma é que se poderá dar início a um diálogo entre culturas, ponto importante para a ação interpretativa. Neste sentido, o museu, segundo a concepção hermenêutica, opera os significados das peças de modo que para se interpretar o sentido da ação dos sujeitos sociais é necessário fazer referência às intenções que estão por detrás da ação - interpretar levando-se em consideração a subjetividade dos atores sociais.
Cumpre destacar que a utilização das concepções interpretativas, elaboradas por Geertz e Ricoeur, permite ao museu perceber que uma exposição prescinde de que o objeto museal demonstre a existência dos vínculos de sua relação com o homem, bem como possibilita que por meio dele se tenha condições de entender os processos históricos, onde estes se encontram (e/ou se encontravam) imersos, no momento de sua criação e da utilização pelo homem, tendo como princípio que a cultura não é neutra e é dinâmica. Com base nestas colocações, pode-se então conjecturar que estando um museu, cuja proposta esteja fundada nas concepções hermenêuticas ora apresentadas, construirá sua narrativa considerando o(s) processo(s) histórico(s), no qual se irá estabelecer relações diversas, dentre as quais os intercâmbios entre objeto museal e homem. Dessa forma, este museu estará visando a compreensão do(s) significado(s) que expressa(m), e, com isso, estabelecer o diálogo entre culturas.
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4.2 Algumas considerações sobre o simbolismo hermenêutico e o objeto