CAPÍTULO IV APREENSÃO DO OBJETO MUSEAL – HERMENÊUTICA E
4.2 Algumas considerações sobre o simbolismo hermenêutico e o objeto
Para tecer algumas ponderações sobre o simbolismo hermenêutico e o objeto museal, antes de tudo se considerou que a hermenêutica pode ser vista como um tema valioso para se estudar o ser humano em suas várias facetas e manifestações, isso porque se mostra como um instrumento importante para qualquer investigação que se propõe a indagar sobre o sentido e o significado da ação humana. Cumpre destacar que a utilização da hermenêutica como instrumento valioso para apreender o significado da atividade humana ocorre devido ao caráter simbólico dessa ação.
Em relação à Geertz é necessário ressaltar que se trata de um dos antropólogos de grande importância para a história teórico-metodológica da ciência antropológica, e que sua visão crítica da ciência antropológica é parte fundamental da nova apreensão que se tem da antropologia enquanto saber e prática.
Geertz (1989) entende o ser humano como um ser simbólico e admite a importância que a hermenêutica tem não só na metodologia dos antropólogos, mas também em sua teorização. Segundo ele, a tomada de consciência do papel que a hermenêutica desempenha é o que pode possibilitar às ciências humanas abandonarem as falácias naturalistas para poder estudar o homem tal e como é pluridimensional.
Baseado nas concepções acima relatadas sobre a teoria interpretativa de Geertz pode-se partir para explorar algumas ideias que permitam refletir sobre o objeto museal a partir de uma interpretação da apreensão de seu significado em termos de uma hermenêutica.
Em suas elaborações, Geertz não propõe uma metodologia, mas uma atitude para uma antropologia expandida enquanto ato interpretativo. Ao evitar o uso de um método, Geertz está propondo um afastamento da perspectiva cientificista, excluindo a antropologia do modelo das ciências naturais e aproximando-a do modelo das humanidades – literatura, artes, dentre outras. Neste sentido, propõe que o trabalho antropológico seja uma leitura do fazer humano enquanto texto a ser decifrado e da ação simbólica como drama. Sua proposta sobre o fazer etnográfico é que se estabeleça ao mesmo tempo
91 descrição e interpretação, pois não há como separar os dois processos, um é complementar ao outro.
Sua perspectiva é que a arte é uma forma pela qual indivíduos / grupos têm de expressar seus sentimentos, anda que não seja o único – religião, moralidade, ciência, comércio lazer, vivência cotidiana etc., também são meios / formas de expressão dos sentimentos coletivos ou individuais. Assim, o estudo sobre arte (objetos) não deve se restringir a elaborações técnicas, mas contextualizar essa arte investigada as outras formas de expressão "dos objetivos humanos, e dos modelos de vida a que essas expressões, em seu conjunto, dão sustentação" (GEERTZ, 2004, P.145).
Geertz ressalta que a arte encontra-se incorporada à cultura da qual faz parte e sua significação – a atribuição de um significado cultural à arte – é fruto de um processo local. Quando não se considera esse processo de significação, ocorrem equívocos científicos, como, por exemplo, daqueles que estudam a dita "arte primitiva" ao conceber que os povos produtores deste tipo de arte "...não falam, ou falam pouco, sobre arte" (GEERTZ, 2004, P.146). Este é um equívoco recorrente. O fato de se utilizar uma abordagem estética ocidental para se estudar a arte de outros obscurece a percepção do intérprete e inviabiliza a realização de um estudo comparativo.
Segundo esse autor a arte é concebida como expressa e estimulada pelos sentimentos da vida. Neste sentido pode-se dizer que o significado e a estética da arte (objeto) nascem como consequência de tipos específicos de sensibilidade que são formados pela própria vivência (cotidiano vivido). Sendo assim, o estudo da arte é a exploração (pesquisar, observar, procurar, descobrir) de uma sensibilidade que, por sua vez, é produto da coletividade e cujas bases são abrangentes e profundas como a vida social. Com isso, vida social e arte se conectam em termos semióticos (sentidos), em que o segundo materializa, confere visibilidade às formas de viver.
As possibilidades de interpretação do objeto museal permitidas pela hermenêutica apresentam-se no sentido de colocar em relevo que ele (objeto) é dotado de sentidos e significados que lhe são atribuídos a partir das relações intersubjetivas e pelas interações entre atores sociais entre si e destes com a realidade (existência). Os sentidos, imagens e reminiscências que o objeto provoca possibilitam rememorar vivências passadas e experimentar
92 esquecimentos e lembranças. Nessa perspectiva, o objeto, enquanto símbolo, transforma-se em veículo de comunicação, pois ele nos remete a alguém ou a algum lugar, possibilitando a transmissão de valores e visões de mundo, conforme operado pela antropologia hermenêutica / interpretativa38.
O objeto museal é um símbolo hermenêutico / interpretativo, e isso se mostra claro quando se tem contato com a definição de símbolo concebida por Geertz.
(...) é usado para qualquer objeto, ato, acontecimento, qualidade ou relação que serve como vínculo a uma concepção – a concepção é o 'significado' do símbolo (...). (...) formulações tangíveis de noções,
abstrações da experiência fixada em formas perceptíveis,
incorporações concretas de ideias, atitudes, julgamentos, saudades ou crenças (GEERTZ, 1989, P.105).
Os objetos museais, considerados como agentes de informação e construtores de significado, se constituem, no espaço museológico, como narradores e referências do discurso construído no próprio museu. Neste sentido sua função simbólica evidencia a realidade expressa pelo museu – baseado num fio condutor de uma exposição, o objeto reproduz uma narrativa de acordo com os objetivos de preservação estabelecidos pela perspectiva museológica adotada pelo museu. Mas também pelo fato de evocarem emoções e exigirem uma contextualização39, permitem fazer uma análise da parte pelo todo, visto ser nas partes que se pode encontrar o elemento diferenciador e possibilitador de significações e ressignificações do todo. Nessa perspectiva a produção museográfica deve ser entendida como produção de significados. Com isso, as elaborações da hermenêutica “geertzsiana” nos dizem que teorizar sobre arte é teorizar sobre cultura.
A participação no sistema particular que chamamos de arte só se torna possível através da participação no sistema geral de formas simbólicas que chamamos cultura, pois o primeiro sistema nada mais é que um setor do segundo. Uma teoria da arte, portanto, é, ao mesmo tempo, uma teoria da cultura e não um empreendimento autônomo. E, sobretudo se nos referimos a uma teoria semiótica da arte, esta deverá descobrir a existência desses sinais na própria sociedade, e não em um mundo fictício de dualidades, transformações, paralelos e equivalências (GEERTZ, 2004, P.165).
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Este ponto, o símbolo hermenêutico como meio de comunicação e transmissor de valores e visão de mundo, foi descrito no segmento anterior deste texto: o símbolo é construído nas e pelas estruturas e por isso precisa ser contextualizado, pois somente assim se poderá apreender seu sentido e compreendê-lo.
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Seu significado perpassa o tempo e espaço em que foi construído e os rememoram daí, a necessidade de contextualizá-los.
93 Contrariando posições mais ligadas à estética, que consideram que os objetos são capazes de falar por si mesmos40 (são isso também, mas não apenas), tem-se aqueles que consideram o objeto como possuidores de significados diversos, dependendo do contexto onde se encontram inseridos (ABREU, 2007, P.105).
Para se explicar / compreender um objeto é preciso enforcar de modo mais sistemático aquilo que ele remete ou expressa, indo além do estritamente estético ou do formalismo técnico, uma vez que tanto a forma quanto o conteúdo do objeto produzido (arte), ainda que varie de localidade ou grau, é produto da cultura na qual se encontra inserido. Com relação à necessidade de contextualização do objeto, no caso artístico, Geertz (2004) assinala que o grande problema é incorporá-lo ao social.
O maior problema que surge com a mera presença do fenômeno do poder estético, seja qual for a forma em que se apresente ou a habilidade que o produziu, é como anexá-lo às outras formas de atividade social, como incorporá-lo na textura de um padrão de vida específico. E esta incorporação, este processo de atribuir aos objetos de arte um significado cultural, é sempre um processo local (GEERTZ, 2004, P.146).
Com isso a argumentação hermenêutica ou interpretativa permite deduzir que o objeto museal e os instrumentos de sua compreensão são produtos culturais, somente existem e se mostram ativos a partir da experiência, do vivido. Isto porque o significado também tem sua origem no uso; então, sua pesquisa / investigação / estudo deve privilegiar, conforme expresso por Geertz (2004: 179): "(...) o universo cotidiano em que os seres humanos olham, nomeiam, escutam e fazem". Assim, podemos inferir que a apreensão do sentido de um objeto museal somente pode ser eficaz quando vai além da busca de decodificação de códigos e procura considerá-lo como algo a ser interpretado, considerando o contexto de sua produção.
À luz desta perspectiva os museus podem ser concebidos – enquanto locus privilegiado de guarda e preservação de objetos museais – como espaços
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Regina Abreu (2007) destaca a pretensão de segmentos de profissionais que achavam que os objetos poderiam falar por si mesmos e contrapõe esta ideia à visão de que não apenas os objetos não falam por si mas que os homens falam por meio deles e que existem inúmeras possibilidades de narrativas (ABREU, 2007, P.105).
94 multidimensionais e de práticas culturais, e para tanto se faz necessário conceber a dimensão cultural da vida e as práticas sociais como constituídas por fenômenos simbólicos. Neste sentido deve-se conceber que, além de outras materialidades, os fenômenos simbólicos são condicionados por uma práxis sociocultural, realizada a partir da apropriação do mundo (material e imaterial) pelas pessoas (indivíduos ou grupos).
De tudo que foi dito quanto aos objetos museais, de acordo com a perspectiva de apreensão de seu significado pela via hermenêutica ou interpretativa, os museus somente poderão ser vistos como espaços de comunicação na medida em que incluírem entre seus componentes fundamentais os seguintes: propiciar o encontro entre os bens culturais e um público que busca conhecê- los e entrar em comunicação com os mesmos; pensar as coleções dos bens culturais (objetos museais) enquanto transmissores de mensagens, em si mesmo ou por meio da distribuição cenográfica e ambientação; conceber o agente receptor (público visitante) como portador de expectativas em relação ao que irá ver / perceber / receber.
Com base no exposto, pode-se inferir que somente quando os museus alcançarem o patamar supraindicado é que se terá a possibilidade de interpretação do significado dos objetos museais numa perspectiva hermenêutica / interpretativa, a qual, conforme observado neste texto, permite apreender de modo mais "denso" a cultura material. Esse é um dos desafios colocados para os museus e seus profissionais.
Desse modo, o trabalho das instituições museais poderá ser realmente considerado quando se permitir o afloramento do sentido dos objetos, a partir de sua expressão e interpretação no contexto vivido.
Os que elaborarem este diagnóstico [museólogos] terão que ser treinados em significação e não em patologia, e o treinamento terá que ser feito com ideias, não com sintomas. Relacionando estátuas cinzeladas, folhas de sagu pigmentadas, paredes cobertas de afrescos, ou versos cantados, com a limpeza da floresta, os ritos totêmicos, a inferência comercial ou a discussão de rua, é possível que este diagnóstico [trabalho museológico] comece por fim a localizar, no significado do contexto onde surgem essas artes [objetos], as origens de seu poder (GEERTZ, 2004, P.181).
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PARTE III - IBEROAMERICA, MUSEUS NACIONAIS, DIÁLOGOS