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PARTE I: SOBRE OS TIPOS DE DISCURSO

I. 1 3 A persuasão

Com efeito, > é particularmente usado no tratado VI, 8 [39], em especial quando Plotino passa do registro apofático para o catafático. Portanto, ele necessita indicar que os atributos do Um não são corretos, não são adequados. Por outro lado, não pode prescindir desses atributos que, nesse caso, têm o escopo de persuadir.

Em VI, 8 [39] 13, no início do capítulo, Plotino informa da necessidade de persuadir seu interlocutor, o qual, pouco antes, havia declarado que sua alma não está absolutamente persuadida ( & ) ) pelo que foi dito acerca do Um, encontrando-se na incerteza ( , !)97. Plotino então assinala o elo entre a persuasão e a licença discursiva que vai levar a cabo: se é necessário, diz ele, introduzir nomes para designar aquilo que é procurado, digamos ainda uma vez que algumas coisas não foram ditas corretamente (

96 I, 6 [1] 9, 39-43 [trad. BARACAT JUNIOR, J. C.]. 5 , %( ,

1 , 0

% % , = ( ( %

, 1

97 Cf. VI, 8 [39] 12, 2-3. Ao propor o uso metafórico de termos da ética e da psicologia (liberdade e vontade)

para o Um, este tratado mergulha o leitor no cerne da problemática da linguagem e da dupla interrogação sobre suas potências e seus limites. Os primeiros capítulos do tratado manifestam um perfeito rigor no que tange ao discurso sobre o Um, conforme nota Lavaud. Dominam, assim, os enunciados negativos, e Plotino dá provas de uma ascese no uso da linguagem. Em certo momento, tido como o mais negativo de todo o tratado, Plotino rejeita a simples predicação “ele é” (capítulo 8, linha 7). Logo após, multiplicam-se as determinações positivas para o Um. Haveria incoerência entre as duas partes do tratado? Lavaud sugere que é necessário considerar a presença do interlocutor que declara não estar persuadido dos argumentos até então avançados, para compreender a passagem de um modo de discurso ao outro (cf. LAVAUD, L. “Notice”. In: PLOTIN, Traités 38-

, )!), pois não se deve fazer do Um uma dualidade nem sequer no pensamento ( & ). Mas a fim de persuadir ( )! )! &, ), outras coisas agora devem ser entendidas obliquamente, isto é, imprecisamente, sem rigor, em nossos discursos (

, & )! &% !)98. De fato, impende observar que a persuasão é um tipo de discurso dirigido à alma, em contraste com os argumentos de necessidade: “A necessidade, efetivamente, está no Intelecto ( < &% ()), a persuasão na Alma ( <

& + ?))”99. Quer dizer, os argumentos que são demonstrados por necessidade estão no plano do Intelecto, mas se ainda não foi atingido tal nível, faz-se necessário avançar argumentos situados na esfera da Alma. Portanto, há vezes em que não é possível escapar aos argumentos persuasivos. Desse modo, argumentos que se movem da imagem que está na alma em direção ao arquétipo inteligível, são da ordem do provável e não da necessidade100. Todavia, nas Enéadas é claro que um argumento provável tem menos força que o necessário, pois o argumento necessário decorre de um encadeamento, não somente lógico, mas também ontológico que lhe fornece a prova101. Finalmente, cabe observar que os predicados positivos atribuídos ao Um têm o intuito de conduzir o ouvinte a pensar de modo mais convincente a pura unidade que, não obstante, é o princípio de todas as formas de dualidade. Isso porque Plotino parece considerar que a potência cognitiva e expressiva da alma humana precisa ser instruída com argumentos ricos em aspectos102.

98 Cf. VI, 8 [39] 13, 1-5.

99 Cf. V, 3 [49] 6, 10. “Em 6, 8-18 e 22 Plotino faz uma observação de método que diz respeito ao grau de

intensidade do conhecer, pondo em confronto a certeza imediata, uma idéia que é por si mesma evidente sem limitação e com lógica necessidade, e uma compreensão da mesma realidade da qual a certeza é adquirida somente mediante argumentos adicionados e mediante uma ‘retórica’ argumentativa. Plotino chama estas duas diversas formas de evidência &% e &” (BEIRWALTES, W. Autoconoscenza ed esperienza dell’unità.

Plotino, Enneade V 3. Milano: Vita e Pensiero, 1995, p. 229, “commentario” 6, 8 ss., grifo do autor).

100 Cf. HEISER, J. H. Logos and language in the philosophy of Plotinus. Variorum: The Edwin Mellen Press,

1990, p. 64.

101 Esta dupla de conceitos, “provável” e “necessário”, ocorre três vezes no corpus plotiniano: V, 1 [10] 9, 9-11;

VI, 5 [23] 8, 1-6 e V, 3 [49] 6, 40-42.

É importante ainda voltar à expressão , & que, com efeito, parece indicar mais que uma imprecisão conceitual: como nota Leroux, ela remete a uma espécie de temeridade; pois, a partir desse passo, a partícula > adquire uma importância crescente no tratado, marcando a natureza das proposições metafísicas, que são sempre aproximações103. Plotino, consciente dos problemas e dificuldades que podem advir da audácia que representa, nesse caso, o uso da linguagem catafática, não cessa de advertir seu interlocutor, impondo restrições semânticas: “É preciso nos desculpar se, falando dele <o Um>, somos forçados, para indicar nosso pensamento, a empregar palavras que, com exatidão não podemos empregar. Mas tomaremos cada uma em virtude do ‘como se’ ( )”104.

Nesse caso, a restrição semântica imposta por fórmulas tais como > , perturbam a lógica da afirmação, proibindo a aplicação das regras da linguagem ordinária e forçando o interlocutor a recorrer a uma semântica do limite e da hipérbole, cujo significado se situa para além do discurso. De tal sorte que, no excesso dessas fórmulas Plotino deposita o rigor da linguagem henológica105. Observe-se ainda que o próprio termo “um” é pura metáfora106, o que significa, em última instância, que estritamente, quaisquer determinações que se lhe apliquem, só podem operar por uma transferência de sentido, mas jamais em sentido próprio. Portanto, a linguagem catafática denota uma audácia especulativa, no que tange à apreensão do Um; ela conduz a um “para além de”, a um plano inefável que se revela na própria inadequação da linguagem. Donde o esforço repetido em marcar essa inadequação, essa

103 Cf. LEROUX, G. In: PLOTIN, Traité sur la volonté et la liberté de l’un [Ennéade VI, 8 (39)], p. 328,

“commentaire” 4, , &

104 VI, 8 [39] 13, 47-50. 3 % , ! ! , % *

% ! * ! ! , , . 6 % 1 .

0

105 Cf. LEROUX, G. In: PLOTIN, Traité sur la volonté et la liberté de l'un [Ennéade VI, 8 (39)], “Introduction”,

p. 77. Leroux prefere a expressão “linguagem teológica”, mas no âmbito do pensamento plotiniano, parece mais apropriado substituir o termo teológico por henológico, que é formado a partir da palavra grega # (um, também designativo de Um entendido como o primeiro princípio plotiniano) neutro de ;!.

106 Cf. BEIERWALTES, W. “Image and counterimage”. In: BLUMENTHAL, H. J.; MARKUS, R. A. Neoplatonism and early Christian Thought. London: Variourum, 1981, pp. 236-247.

insuficiência, que nada mais é do que a possibilidade de abertura para o que a linguagem muitas vezes tenta dizer, mostrando.