2 O DESENHO TEÓRICO-METODOLÓGICO DA PESQUISA
2.3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS: CONSTRUÇÃO E ANÁLISE DO
2.3.1 A pesquisa documental
2.3.1.2 A pesquisa documental: fontes secundárias
Foram consideradas fontes secundárias desta pesquisa aqueles documentos que se constituem de discursos construídos por atores a respeito do tema (FLICK, 2009, p. 233). Em outras palavras, eles são a representação de versões específicas, construídas por sujeitos que podem denotar determinadas visões a respeito dos temas abordados. Para esta pesquisa, os documentos reunidos nesta categoria foram: publicações em anais de eventos, e também alguns livros.
2.3.1.2.1 Trabalhos publicados em anais
Foram coletados os anais dos seguintes eventos:
- Congressos da Anppom (edições III, VIII, XII, XIII, XIV, XV, XVI, XVII, XVIII, XIX, XX, XXI, XXII, XXIII, XXIV);
- Seminário Nacional de Pesquisa em Performance Musical (I e II edições);
- Seminário Nacional de Pesquisa em Música da Ufg (edições I, VIII, XIX, X, XI, XII, XIII, XIV);
- Congressos da Abrapem (I e II edições);
- Simpósio de Cognição e Artes Musicais da ABCM - Associação Brasileira de Cognição e Artes Musicais (SIMCAM) (edições IV, V, VI, VII, VIII, IX e X);
- Simpósio Brasileiro de Pós-graduandos em Música – Simpom (edições I, II, e III).
2.3.1.2.2 Livros
Dez livros forma coletados dentre as fontes secundárias desta pesquisa, sendo que 7 estão em formato de livro impresso e 3 em formato digital. Estes últimos integram uma mesma série editorial criada e produzida pela Anppom em 2010, chamada “Pesquisa em Música no Brasil” (ANPPOM, 2013). Esta série
propõe o mapeamento de domínios, metodologias e tendências da pesquisa em música no Brasil, buscando oferecer novas perspectivas para o desenvolvimento da área, examinando a aplicabilidade de novas teorias e procurando lançar novos olhares sobre teorias e objetos de pesquisa estabelecidos (BUDASZ, 2009, p. 09).
Todos esses dez livros têm em comum em suas propostas uma abordagem crítica e reflexiva sobre a música enquanto objeto de estudo. Suas diferenças estão na forma e no conteúdo, conforme breve descrição abaixo (ordem cronológica de publicação):
a) “Performance & interpretação musical: uma prática interdisciplinar” (LIMA, 2006). São 7 textos de diferentes autores da área da Performance, reunidos em um único volume. De acordo com a organizadora do volume, o principal interesse da publicação foi “trazer para a execução musical um padrão de cientificidade comum nas demais áreas do conhecimento” (LIMA, 2006, p. 9, grifo nosso). Afirma possuir uma perspectiva interdisciplinar, mas em uma análise inicial não se nota claramente um eixo temático comum entre os textos.
b) “Música e Pesquisa novas abordagens” (FREIRE E CAVAZOTTI, 2007). Texto de caráter metodológico e filosófico, que discute a característica propendente da pesquisa em Música à abordagem qualitativa com base fenomenológica. Aponta e comenta uma série de estudos realizados no Brasil que seguiram essa abordagem, e finaliza abrindo questões sobre as formas com que a Música vem se estruturando enquanto área de investigação acadêmico- científica no Brasil.
c) “Pesquisa em música no Brasil: métodos, domínios e perspectivas” (BUDASZ, 2009). É o primeiro volume da série PMB. Trata-se, nas palavras do próprio organizador, de uma “miscelânea” composta de textos de pesquisadores de diferentes subáreas da Música. Os 6 textos que integram o volume falam de interdisciplinaridade entre Música e História, entre Música e Cultura, apresentam enfoques teórico-analíticos do texto musical, realizam considerações sobre a publicação de textos científicos, e sobre a ética na realização de pesquisa em Música que envolva seres humanos.
d) “Criação musical e tecnologias: teoria e prática interdisciplinar” (KELLER, 2010). Segundo livro da série PMB. São 7 textos que tratam questões cognitivas, composicionais e tecnológicas presentes nas pesquisas em criação musical através do uso da tecnologia. A proposta é oferecer embasamento para o desenvolvimento e aplicação de tecnologia na pesquisa composicional. Portanto, não é um livro que se relaciona com a Performance stricto sensu, e acabou sendo descartado do corpus empírico.
e) “Horizontes da Pesquisa em Música” (FREIRE, 2010). O livro é dividido em três partes. Na parte I a autora trata de aspectos gerais no âmbito da pesquisa qualitativa, deixando claro que esta perspectiva é compreendida como aquela que mais beneficia investigações
sobre uma atividade de natureza estética, como é o caso da música. A parte II contêm 5 textos de pesquisadores da Música de diferentes subáreas, enfocando tópicos específicos de cada uma delas. Por último há uma parte chamada de “Anexo”, em que se apresentam explicações básicas e introdutórias sobre metodologia da pesquisa, no formato de perguntas e respostas. O livro todo tem um caráter pedagógico, na medida em que traz ao final dos capítulos quadros- resumos em formato de “questões e sugestões ao pesquisador iniciante”.
f) “Leitura, escrita e interpretação” (CHUEKE, 2013). Tematizando especialmente sobre a dificuldade e necessidade de “verbalização do subjetivo” (CHUEKE, p.14), o livro apresenta diferentes facetas do processo de leitura, escuta e interpretação de uma obra musical pelo intérprete. É resultado de atividades desenvolvidas na disciplina “Análise para intérpretes” do Programa de Pós-Graduação em Música da Ufpr. Conta com 8 textos voltados à Performance musical e às questões referentes à construção de um discurso musical a ser comunicado pelo intérprete, e tópicos a respeito do processo de verbalização dessa experiência, incluindo a reflexão sobre a prática de organização e redação de trabalhos acadêmicos nessa subárea.
g) “Estudos de gênero, corpo e música: abordagens metodológicas” (NOGUEIRA e FONSECA, 2013). Terceiro volume da série PMB. É a primeira obra publicada no Brasil com essa temática, e inclui artigos de pesquisadores residentes na Costa Rica, Espanha e Brasil. Propõe um debate teórico e uma revisão do estado da arte, além de oferecer amostras de abordagens metodológicas distintas e diferenciadas entre si sobre essas três categorias (música, gênero e corpo), no intuito de contribuir com estudos brasileiros sobre a temática. O livro é dividido em três partes e mais um anexo especial. Porém, como não abordou aspectos diretamente relacionados à subárea Performance musical, foi descartado do corpus.
h) “Performance musical e suas interfaces” (RAY, 2015a). Coletânea com 5 textos de diferentes autores da subárea Performance. Afirma em sua apresentação que certas questões sobre a performance musical começam “a tomar uma dimensão de importância no que se refere à pesquisa e reflexão sobre as metodologias utilizadas” (RAY, 2015a, p. 7). Nesse sentido, a obra traz textos sobre opções teóricas e metodológicas, bem como possibilidades de aplicações interdisciplinar, visando oferecer “alicerces para se discutir o fazer musical” (RAY, 2015a, p.9).
i) “Pesquisas e práticas interdisciplinares em ambientes musicais” (RAY, 2015c). São 8 textos em que diferentes autores apresentam suas pesquisas com ênfase na Performance Musical, enfatizando a interdisciplinaridade seja como método, seja como conceito.
j) “A pesquisa acadêmica na área de música: um estado da arte (1988-2013)” (TOMÁS, 2015). É o primeiro estudo sobre o estado da arte da pesquisa em Música realizado no Brasil. De acordo com a autora:
A proposta desse livro dirige-se para a reflexão de um campo específico, a saber: a realização de um estado da arte sobre as pesquisas acadêmicas na área de música realizadas no Brasil, desde a criação dos programas de Pós-Graduação em Música stricto sensu nos anos 80. (TOMÁS, 2015, p.3)
Realiza uma análise quantitativa e qualitativa das publicações dos Anais dos Congressos da Anppom entre 1988 e 2013, abrangendo todas as subáreas contempladas no evento. Assim, o livro de Tomás apresenta um panorama sobre a produção intelectual dos PPGs em Música, e revela determinadas concepções sobre ideais de pesquisa através de seu conteúdo, principalmente através da análise que realiza, nos apontamentos de tendências e naquilo que considera como tópicos problemáticos.
Estas foram as fontes secundárias que compuseram os dados da pesquisa documental. Juntamente com as fontes primárias, estes dados me permitiram mapear uma série de informações sobre a estrutura objetiva que integra a realidade investigada por esta tese, ajudando a contextualizar as informações. Busquei reunir um material substancial para a análise das bases sociais que propiciam o surgimento das diferentes relações dos músicos performers com a pesquisa na pós-graduação, e assegurar a operacionalidade de um dos aspectos da perspectiva dialética que me orienta. Como afirmam Berger e Luckmann:
A socialização realiza-se sempre no contexto de uma estrutura social específica. Não apenas o conteúdo, mas também a medida do ‘sucesso’ têm condições sociais estruturais e consequências sociais estruturais. Em outras palavras, a análise miscrossociológica ou sociopsicológica dos fenômenos de interiorização deve ter sempre por fundamento a compreensão macrossociológica de seus aspectos estruturais (BERGER e LUCKMANN, 2014, p. 209).
Após realizar o levantamento de todo o material da pesquisa documental – fontes primárias e secundárias -, dei início ao procedimento de seleção dos materiais e textos que compuseram o corpus da pesquisa. Num primeiro estágio, empreendi um inventário de caráter eliminatório com o material coletado. Através da análise dos títulos, resumos e palavras-
chave, selecionei uma lista de documentos que tratavam de assuntos pertinentes à pesquisa: levantamentos da produção da subárea, descrição das atividades de grupos de pesquisa, aspectos históricos, metodológicos e epistemológicos da Performance, currículo profissional, atuação profissional. Com os trabalhos cujos títulos apresentavam ambiguidade, e que por isso não permitiam uma pronta ideia do que tratavam, realizei a leitura dos textos, para certificar-me de sua pertinência ou não para a tese. Num segundo estágio, dei início à separação desse material em categorias, organizando-os por temas abordados. Com esse procedimento, gerei 22 pastas de arquivos, facilitando a consulta desse material durante o processo de análise.
Estes dados também permitiram, ainda que em menor grau, a reunião de certos aspectos subjetivos, na medida em que alguns documentos coletados se configuravam como relatos reflexivos, comunicando assim versões da realidade que permitiram-me identificar determinadas concepções e valores que orientam as ações envolvendo a prática da pesquisa em Performance Musical na pós-graduação.
Contudo, o aspecto subjetivo que emergiu desse material não foi suficiente para assegurar a perspectiva dialética adotada por esta pesquisa. Desta forma, para aprofundar as análises, foi necessário recorrer à outra estratégia de pesquisa que me permitisse o contato mais direto com o aspecto subjetivo: a entrevista. Descreverei e justificarei o modelo de entrevista adotado na sequência.