3 SOPRO
3.1 A pesquisa
O processo de desenvolvimento da ideia para a realização de A poeira e o vento partiu da necessidade de Marcos Pimentel que, após a realização da trilogia urbana Pólis,
Taba e Urbe, se sentiu saturado do excesso da metrópole e buscou refúgio para suas ideias
nas montanhas de Minas. “Eu decidi que queria um único lugar e que esse lugar estivesse isolado para que eu começasse a limpar. E eu fui logo ao meu baú de memórias ali, eu comecei a procurar algumas coisas que me interessassem perto de casa” (PIMENTEL, 2017, p. 171). Como no início de sua juventude Marcos havia frequentado a região de Ibitipoca, foi nesse local que buscou inspiração para o desenvolvimento de uma possível história.
Mariana Musse, que trabalhou como assistente de direção nos filmes, sempre teve uma relação forte com a localidade e ajudou Marcos a descobrir os lugarejos nos entornos de Ibitipoca.
Como eu sempre tive uma relação muito forte com Ibitipoca e tinha gravado o
Firma [2009] lá e tinha feito outros trabalhos lá na região e eu acho que como ele
estava focado em gravar naquele lugar, ele acabou me chamando porque ele sabia desse meu histórico de já ter feito coisas lá na região. (MUSSE, 2017, p. 132).
Mariana lembra que na primeira reunião com Marcos ele mostrou algumas fotos e rostos que ele estava imaginando para a história. “E aí ele me contou um pouco sobre o que se trataria, essa questão de vida e morte, da passagem do tempo, (...), falou de estar procurando pessoas que vivem isoladas.” (MUSSE, 2017, p.133). Mariana então dá dicas sobre os locais e Marcos começa a visitar a região. Contudo, Ibitipoca se mostrou muito diferente do que o diretor se recordava, o turismo modificou o Arraial e a exploração econômica ali evidente não o interessava para a narrativa fílmica.
Na busca pela história que queria contar, Marcos e Mariana começam a visitar os entornos da região e conversar com as pessoas que habitavam aqueles lugares. “O que eu estava fazendo naquele momento era levá-lo e ajudá-lo a achar e aí quando chegava, aí era o processo dele, pelo o que eu vi, muito de observar os lugares e tal e de conversar informalmente com os [possíveis] personagens” (MUSSE, 2017, p.134). E nessa busca Marcos encontra o que precisava para construir sua história indo a lugares cada vez mais isolados a procura de indivíduos que tivessem menos contato com o mundo.
E com isso eu descobri duas coisas que me encantaram: as montanhas, a condição de viver em montanha, que tem muito a ver com a minha personalidade, e aquele menino, o Cauã. Quando eu achei o Cauã eu senti que tinha alguma coisa ali, eu sou muito instintivo na hora de criar, eu não sei porque o menino me atrai, mas ele me atrai. (PIMENTEL, 2017, p.171).
Mais do que entender que ali havia uma história, Marcos começa a se identificar com os moradores e com o seus modos de se relacionarem com mundo, mesmo sendo um homem urbano, encontrar aquelas pessoas que viviam de forma isolada, em meio a natureza mas com um modo de viver e um silêncio parecido com o que Marcos se identificava foi fundamental na construção da história e na atração do diretor pelo produto fílmico que ali estava sendo criado. “Eu comecei a ver que aqueles personagens tinham o mesmo tipo de silêncio que eu, então eu me identificava e sabia que ali ia sair um filme.” (PIMENTEL, 2017, p.173).
Alguns personagens do filme habitam o Arraial de Mogol, uma pequena vila localizada a 33km de Ibitipoca em que a maioria das casas construídas foram vendidas para um empresário, restando apenas alguns moradores que residem ainda mais isolados de serviços urbanos. Cristiano Rodrigues identifica nesses habitantes uma posição de resistência que indiretamente pode também ter interessado ao diretor na construção do filme.
Eu nem sei se eles tinham consciência disso, tinha um contato da gente lá, a Janaína, eu lembro que em uma conversa que eu tive com ela eu falei assim: "Janaína, se todo mundo da cidade vendeu a casa e mudou pra Lima Duarte pra ter uma vida melhor, numa cidade um pouquinho maior, porque vocês não mudaram?", ela falou "Ah Cris, nossa vida é aqui, eu nasci aqui, meu pai nasceu aqui, minha mãe nasceu aqui, a gente gosta daqui". Então eu acho que essa resistência, ela não é nem uma resistência assim política, de resistir ao empresário que está comprando tudo, é uma resistência mais afetiva e eu acho que isso despertou no Marquinho, ele falou "aqui, tem um sentimento que é interessante para o filme". (RODRIGUES, 2017, p.111).
Marcos entende que ali havia a história para um filme existencialista e começa a reunir elementos que sinalizam a particularidade da forma como os habitantes acessam a natureza, por dependerem dela não somente de forma física, mas também de forma existencial.
Devido também ao isolamento do lugar a experiência da passagem do tempo é diferente, ao contrário do mundo urbano e turbulento, em que se mede o tempo pela falta, nas montanhas e naquela região a experiência temporal é vivida pelo excesso e a forma como os personagens existem nesses locais atraía o diretor para a narrativa.
E a outra coisa foi a questão da vida e da morte, ali é um lugar onde esses elementos começaram a gritar para mim, as brincadeiras dos meninos remetiam a isso, um enterrava o outro, o tempo todo alguém mata alguém, a questão de matar, de viver, ela é forte naquele lugar, ou pelo menos os elementos que eu via eu enxergava isso, pode ser que seja uma coisa que já estava no meu olhar e que para eles é normal, mas eu acho que quando o seu sustento, a sua subsistência depende daquele lugar dói menos matar, ver um porco morrendo para a gente que não está acostumado com isso tem uma carga simbólica, um valor específico, mas para quem vive ali e faz isso todos os dias, se não matar algum bicho não tem carne, você não tem um açougue para ir comprar e mesmo se tivesse você não tem dinheiro para isso, então é diferente, de tempos em tempos precisa matar algumas coisas que estão naquele lugar, de tempos em tempos morrem gente e outras nascem, isso se destaca dentro daquele negócio. (PIMENTEL, 2017, p.172).
A partir desses elementos, o diretor entende que há ali justificativas para uma história. Marcos prefere não produzir grandes anotações ou pré-roteiros nesse momento e sim observar o local e as pessoas até sentir que há argumentos suficientes para um filme e para escrever um projeto de financiamento. “Aí eu coloco no papel umas ideias e aprovo muito rapidamente A poeira e o vento e aí vamos fazer.” (PIMENTEL, 2017, p. 174).
3.1.1 Três filmes ao mesmo tempo
Por mais que o trabalho nesse capítulo concentre-se em estudar o modo de produção de A poeira e o vento e Sopro, é interessante ressaltar que além desses filmes, durante a estadia em Ibitipoca e região, Marcos e sua equipe também gravaram o curta Século (2011, 35mm, 11 minutos). O filme é caracterizado como experimental e mostra o fim de uma relação amorosa, uma reflexão sobre esse momento. Para isso, Pimentel quis realizar esse filme em película, gravar com a câmera de cinema, o que gerava essa curiosidade no set.
Havia a câmera para A poeira e o vento, Sopro ainda não era previsto e, em alguns dias, a assistente de câmera do fotógrafo Matheus Rocha, Samira Alves, chegava do Rio de Janeiro com a câmera de cinema. A assistente de direção Mariana Musse relata que da equipe de A poeira e o vento só o Pedro Aspahan, técnico de som direto, não permaneceu durante as gravações para o Século, já que não havia essa previsão no filme. Luana Melgaço, também comenta essa particularidade nas gravações.
O Marquinhos quase nunca fala disso, mas a gente fez três filmes ao mesmo tempo, ele sempre liga o Sopro ao A poeira e o vento, mas a gente filmou o Século e o A
poeira e o vento juntos, porque tinha uma coisa da mesma região em algumas
situações, mas foi uma filmagem muito engraçada, muito atípica porque tinham duas câmeras diferentes dentro do mesmo set, uma câmera 35mm e a câmera que ele usava nos filmes todos, que era a HVX200. (MELGAÇO, 2017, p.217)
O produtor Cristiano Rodrigues comenta esse processo de gravação e as outras locações de Século, que envolveram um ferro velho em Juiz de Fora e algumas sequências rodadas em Petrópolis.
E eu fiz pesquisa de locação pro Século, então o Século teve imagem filmada lá em Ibitipoca, mas teve no Ferro Velho, o incêndio, foi tudo em um Ferro Velho aqui em Juiz de Fora. E eu pesquisei também umas casas, que ele precisava de casas em ruínas, e eu pesquisei muita casa, tem uma fazenda perto da Embrapa aqui na estrada que era linda, lindo e ele adorou, mas no caminho pra Ibitipoca a gente achou outra, aí ele falou "Cris, vamos fazer aqui que é mais barato", porque senão a gente ia ter voltar pra Juiz de Fora, ir pra Embrapa, enfim... Ah, teve coisa no Rio também, em Petrópolis também, as nuvens, eles ficaram um dia. Mas foi tudo um processo, fomos pra Ibitipoca, (...) as imagens em película, rolo, pro Século, voltamos, fizemos o ferro velho aqui em Juiz de Fora, eu fiquei em Juiz de Fora, eu e Mariana, ele [Marcos], Matheus e Samira continuaram de carro pro Rio, pararam em um hotel que eu já tinha visto, na estrada de Petrópolis, que eles precisavam da madrugada, antes do dia nascer, fazer as nuvens. Fizeram e foram pro Rio pra entregar a câmera. Do Rio, Matheus e Samira foram pra São Paulo e acabou. (RODRIGUES, 2017, p.110).
As imagens do filme são em preto e branco e buscam um aspecto antigo em sua fotografia e colorização. Há a presença de voz over, uma voz masculina e uma feminina narram o texto escrito por Marcos Pimentel e por Ivan Morales sobre a separação de um casal, que também assina como roteirista e montador. Casas abandonadas, entulhos, restos de móveis e objetos pessoais, objetos de ferros permeiam as imagens que cobrem a leitura do poema. Os idosos presentes em A poeira e o vento e Sopro também são mostrados em Século, são as únicas pessoas presentes no filme e encontram-se em situação de espera, olhando diretamente para a lente da câmera..
Século foi exibido na 35ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2011,
na 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes em 2012, na 11ª Mostra do Filme Livre (2012), no 22º Cine Ceará, 2012, no 2º Festival LUME , no Maranhão, em 2012 e no 11º Cine Araribóia, no Rio de Janeiro também em 2012.