4.1 Dos Princípios Fundamentais à Crítica Multicultural
4.1.2 A necessidade do reconhecimento da autonomia individual
4.1.2.3 A política da diferença
No que diz respeito à política da diferença, esta também está assente sobre a base
universalista, porém, diferentemente da outra, que pretende a universalização dos
direitos e garantias para todos os indivíduos, esta se pauta pelo reconhecimento
universal da identidade singular do indivíduo ou de um grupo distinto dos demais.
Justamente aquilo que é ignorado pela política de igual dignidade ganha relevo aqui. A
política da diferença se dispõe a denunciar e combater as discriminações e rechaços
realizados pela política da dignidade universal, tendo em conta que, para ela, é muito
difícil se incorporar à demanda das diferenças, já que exige que se dê reconhecimento e
status a algo que não é universalmente compartilhado, a identidade (SILVA, 2006).
Historicamente, a política do reconhecimento igualitário, universo no qual emergem a
política de dignidade igualitária e a política da diferença, é reflexo da mudança do valor
da honra, até então ligada a uma sociedade hierárquica que atrelava a identidade à
posição social. Este valor passou então a ser substituído pela noção de dignidade, cujo
caráter é universal e igualitário. Mas também reflete a mudança que possibilitou o
reconhecimento de uma nova compreensão do sujeito a partir da noção de autenticidade,
que propiciou à ideia de identidade individual, como particularidade de cada sujeito, aquilo que
cada um descobre em si mesmo. Neste sentido, nas duas políticas de reconhecimento, Taylor
destaca a origem da política da diferença, que vem justamente da política da dignidade, não só
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porque ambas reclamam pelo princípio da não discriminação, mas fundamentalmente porque a
política da dignidade universal é cega em relação aos modos como os cidadãos se distinguem.
É na medida em que apolítica da diferença passa a redefinir a não discriminação como a
exigência de um tratamento diferenciado a partir das distinções existentes entre os
indivíduos que ela ganha legitimidade. Vale dizer, para a política da diferença, “não
discriminar é tratar diferentemente os diferentes na qual suas especificidades sejam
justamente a base de um tratamento diferencial em prol da igualdade” (SILVA, 2006, p.
317). Na política da diferença “todas as pessoas devem ser reconhecidas pelas suas identidades
únicas” (TAYLOR, 1994a, p. 58). Enquanto na política de igual dignidade o princípio de
respeito igualitário exige o tratamento às pessoas de uma forma cega à diferença, servindo de
base para o respeito à ideia do que é comum em todos os cidadãos, na política da diferença o
respeito vem associado à ideia de reconhecer e fomentar a particularidade de cada cidadão.
Embora ambas as políticas tenham a mesma base, as reivindicações multiculturais estão
assentes na crítica que a política da diferença faz à política de igual dignidade. Para Taylor
(1994ª), a política de igual dignidade reflete aquilo que se estabelece, cujo fim é a
igualdade universal, em que cada um, e todos, recebem um pacote idêntico de direitos e
imunidades. A política de diferença exige o reconhecimento da identidade única deste
ou daquele indivíduo e/ou grupo, do caráter singular de cada um. Isto é, “é precisamente
esta singularidade que tem sido ignorada, disfarçada, assimilada a uma identidade
dominante ou da maioria. E é esta assimilação que constitui o pecado cardeal contra o
ideal de autenticidade” (TAYLOR, 1994a, p.58-59).
Se, no bojo da política do reconhecimento, está o princípio de igualdade universal, a política da
diferença denuncia a discriminação e recusa a cidadania de segunda classe, que emerge na
política de igual dignidade, naqueles indivíduos que, devido à pobreza, se veem impedidos de
usufruírem ao máximo dos seus direitos de cidadania. A política da diferença tayloriana vai
além da simples tolerância à existência das distinções entre cidadãos e grupos culturais. Tendo
em vista que a tolerância, em última instância, apesar de compor o reconhecimento, se, por um
lado, dá ênfase à ideia de concessão da existência da diferença alheia, por outro, não trata de
solucionar os problemas provenientes das sociedades multiculturais. Por esta razão Taylor só
aceita a ideia de reconhecimento que prima pelo respeito das diferenças pela via pública.
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Na política de universalismo que acabamos de expor, os defensores da política de igual
dignidade, em um esforço significativo para salvaguardar os princípios que tanto prezam,
empreendem esforços no sentido de se chegar a um meio termo com medidas que visam
melhorar a situação das minorias, com justificativa baseada na dignidade. Isso se nota em
alguns dos casos em que a ignorância das diferenças é a medida de discriminação
positiva, que possibilita às pessoas oriundas de grupos antes desfavorecidos, uma
vantagem competitiva no que toca a empregos e vagas nas universidades.
Segundo Taylor (1994ª), esta prática é justificada pelo fato de a discriminação histórica
ter criado um padrão no seio do qual os desfavorecidos estão em desvantagem para lutar
no espaço público. Essas medidas são definidas como uma forma temporária que iria
igualar as condições iniciais, para que, mais tarde, no campo de batalha, se permita que
as velhas regras de “ignorância” não deixem ninguém em desvantagem (TAYLOR,
1994a, p. 60). As chamadas “ações afirmativas” são exemplos em que o Estado adota
políticas que facilitam o acesso das minorias ao ensino superior. Elas baseiam-se em
dois princípios básicos: as minorias – os negros em particular –, que foram mantidos
longe das universidades por uma política de discriminação, merecem uma compensação
pela injustiça sofrida; e o acesso à educação de nível superior, concebida como alavanca
de mobilidade social, representa o melhor meio para acelerar a integração dos grupos
marginalizados (SEMPRINI, 1999).
Para muitos autores
54, e, em particular para Taylor, por melhores que sejam as intenções
destas medidas, elas não só legitimam a ignorância da diferença, como também a
perpetuam. A política da diferença resulta da alteração nas definições de termos-chave.
Mesmo que ambas reivindiquem o reconhecimento, quando uma aponta para certos
direitos universais, a outra aponta para uma identidade específica. A política da
diferença defendida por Taylor (1994a) não só reconhece e dá importância à
potencialidade humana, a base do respeito da política de igual dignidade. Alarga esta
proteção até as pessoas que, em certas circunstâncias (os deficientes, doentes em coma,
54 Semprini (1999, p. 49), por exemplo, vai salientar que: “os efeitos perversos da ação afirmativa são hoje evidentes. A instauração de critérios diferentes – estabelecidos sobre uma base racial – levanta problemas jurídicos e práticos. Para alguns, a preocupação de reparar uma injustiça histórica não justifica a introdução de um critério de desigualdade, que pode evidentemente discriminar outros estudantes recusados, embora tivessem sido aprovados no concurso de admissão. [...] Os resultados da ação afirmativa mostram-se medíocres. [...] A política de quotas não conseguiu aumentar significativamente o número de diplomados entre as minorias e restringiu o acesso de outros estudantes”.
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os injustiçados socialmente, por exemplo) se veem impossibilitadas e incapazes de
realizar normalmente os seus potenciais. Vale dizer, que a política da diferença também
se baseia num potencial universal, que é a capacidade de cada sujeito humano formar e
definir a própria identidade, como indivíduo e como uma cultura: “esta potencialidade
deve ser igualmente respeitada em todas as pessoas” (TAYLOR, 1994a, p. 62).
A crítica que a política da dignidade faz à política da diferença resume-se em sublinhar
que o princípio do respeito igual exige que as pessoas sejam tratadas de forma que a
diferença entre elas seja ignorada. O princípio do respeito está fundado naquilo que há
em comum entre as pessoas, como já nos referimos acima. A crítica propriamente dita
está na violação que esta comete do princípio da não discriminação. A política da
diferença, no entanto, ressalta como crítica à sua oponente, a negação da identidade,
forçando as pessoas a um ajustamento de uma moldura que não lhes é verdadeira. Por si
só já seria mau se a moldura fosse neutra, que não pertencesse a ninguém, em particular.
A preocupação vai muito além:
Queixam-se [as pessoas] do fato de o conjunto, supostamente neutro, de princípios que ignoram a diferença e que regem a política de igual dignidade ser, na verdade, um reflexo de uma cultura hegemônica. Se assim é, então só a minoria ou as culturas subjugadas são forçadas a alienar-se. Consequentemente, a suposta sociedade justa e ignorante das diferenças é, não só inumana [porque subjuga identidades], mas também ela própria extremamente discriminatória, de uma maneira sutil e inconsciente (TAYLOR, 1994a, p. 63. Itálicos nossos).