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O poder governamental emana do povo

4.1 Dos Princípios Fundamentais à Crítica Multicultural

4.1.1 O poder governamental emana do povo

Guardadas as devidas proporções, é razoável salientar que a democracia significa

“modelo-padrão de Estado”

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nas sociedades contemporâneas. Refere-se, a democracia,

a um Estado constitucional que, pela força da lei e dos vários direitos e liberdades civis

e políticas, oferece à sociedade um governo por autoridades que devem necessariamente

incluir assembleias representativas. As assembleias são legitimadas e eleitas por

sufrágio universal e minorias numéricas entre todos os cidadãos, em eleições realizadas

a intervalos regulares entre candidatos e/ou organizações que competem entre si

(MANNHEIM, 2012). Embora esse não seja o significado original da democracia,

também não é o único que ela tem. A democracia que garante a tolerância e a liberdade

das minorias é a mesma que mais as ameaça do que protege, como veremos mais

adiante.

O princípio segundo o qual todo poder governamental emana do povo evidencia que

todo indivíduo é convocado a contribuir na formação da política governamental, e isso

implica uma atitude básica que transcende a própria política, por configurar todas as

manifestações culturais das sociedades tipicamente democráticas. Vale dizer, a

50Este conceito é amplamente discutido por Eric Hobsbawm, quando argumenta sobre “as perspectivas da democracia”, na obra Globalização, Democracia e Terrorismo, 2007.

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democracia política postula a participação coletiva do poder político com base na

convicção da igualdade essencial de todos os homens e rejeita qualquer divisão vertical

da sociedade em ordens superiores e inferiores. Deste modo, “essa crença na igualdade

essencial de todos os seres humanos é o princípio fundamental da democracia”

(MANNHEIM, 2012, p.145).

Esse princípio, para Taylor (2005), tem uma história definida, fruto de um processo que

antecede, em muitos séculos, a modernidade que o explicitou como valor primordial das

relações político-democráticas. Em As Fontes do Self, Taylor (2005), além de analisar o

processo de interiorização dos valores que fundamentam a identidade moderna, também

mostra a impossibilidade de separar a constituição da identidade de uma visão

específica de bem, uma vez que o self é inseparável de um espaço de indagações morais.

O filósofo parte do surgimento das ideias de hegemonia da razão, autodomínio e

interioridade no Ocidente. A interioridade, para ele, significa a compreensão e o

entendimento do sentido de nós mesmos como pessoas dotadas de profundidades

interiores. Essa concepção é culturalmente construída no horizonte específico da cultura

e da religião ocidentais. Como fundamento do princípio segundo o qual “todos os

homens são iguais”, a emergência da interioridade expressa e explicita, no Ocidente, a

ideia de autointerpretação, que passou a fazer parte da identidade moderna e é a base da

individualidade.

No processo de construção da interioridade do agente, salienta Taylor, de Platão nos foi

legado o autodomínio e a hegemonia da razão sobre os desejos, ou seja, a condução do

nosso modo de vida ou nossas ações de acordo com o pensamento ou a razão. Para

Platão, é imperativo controlar os nossos desejos, dominando-os por meio da razão.

Coube a Santo Agostinho fundar a noção de interioridade, que, à semelhança de Platão,

também acreditava na existência de uma ordem cósmica organizada para o bem.

Agostinho, ao afirmar que o significado do autodomínio é um voltar-se para si mesmo

com a finalidade de conhecer a si mesmo e chegar a Deus, distingue-se de Platão que

afirmou o dever de dominar as paixões e os desejos para se conseguir dominar os

objetos.

O passo seguinte na direção da concepção moderna do self foi dado por Descartes, com

a afirmação de que não nos interiorizamos para chegar a Deus, mas para nos

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autointerpretarmos e reconhecermos a existência de uma causa transcendente que nos

possibilita o uso da razão. Com Descartes, as ideias da hegemonia da noção de

interioridade “ganham uma nova interpretação, fundamental para o advento do

individualismo moderno, baseado na ideia de autorresponsabilidade, autodomínio e

autodeterminação” (MATTOS, 2006, p.61). Segundo Mattos (2006), foi Descartes que

inaugurou a perspectiva do “self desprendido”, sendo este entendido como a forma de

autointerpretação objetivada, não atrelada a nenhuma concepção de bem, mas à

capacidade de construir ordens que satisfaçam aos padrões exigidos pelo conhecimento,

compreensão, ou seja, segundo os padrões da ciência.

Para Mattos (2006), interpretando Taylor, foi John Locke que radicalizou as noções

anteriores, que podem ser expressas apenas na ideia de interioridade, self desprendido

ou pontual, transportados para o modelo do controle instrumental. A abordagem de

Locke teve reflexos fortemente carregados em todas as dimensões da vida social.

Porque, em seu argumento, o ideal a ser tomado como bem é aquele que diz respeito ao

agente capaz de instrumentalizar seus desejos, paixões, hábitos, inclinações e

sentimentos para que possam ser reformulados ou abandonados, se for o caso, quando

não estiverem de acordo com os padrões de evidência, do conhecimento. Em Locke, a

instrumentalização das coisas, dos sentimentos, dos desejos e dos hábitos visa à

obtenção de felicidade, visto que essa, para o agente, é o que realmente importa na

existência. “A felicidade deve ser entendida como a obtenção das coisas que desejamos

por natureza e ausência de dor” (MATTOS, 2006, p.63).

Entretanto, segundo Mattos (2006), Locke tem a visão do self pontual, que é afirmado à

medida que exclui a autoridade. O agente é orientado a voltar-se para dentro e tomar

consciência da própria atividade e dos processos que o constituem. Desse modo, o self

pontual o é na medida em que assume a responsabilidade de construir a própria

concepção de mundo, independentemente das condições e determinações sociais e

culturais. Dito de outra maneira, o self pontual também deixa de viver de acordo com o

corpo, tradições ou hábitos para tornar-se si mesmo, na medida em que se submete a um

rigoroso exame e reforma constantes.

Taylor (2005), embora compreenda que o princípio fundante da democracia política está

intimamente ligado à hegemonia da razão, com a construção da noção de interioridade,

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não deixa de considerar que outros fatores contribuíram para o seu surgimento.

Argumenta, por exemplo, que a afirmação da vida cotidiana constitui outro pilar

importante na emergência do self ocidental. A valorização da vida cotidiana, como

noção valorativa de bem viver, foi inicialmente propagada pela reforma protestante.

Taylor (2005), desse modo, procura mostrar que todos os valores e mudanças relevantes

nessa dimensão foram tidos e propagados, à semelhança da noção de interioridade, por

uma ética protestante. Vale dizer, que o protestantismo procurou evitar os “equívocos”

da igreja católica tradicional, aqueles que repudiam o distanciamento do mundo, a

crença de que é errado amar as coisas deste mundo. O argumento dos protestantes

salienta que, se o mundo foi criado por Deus, em vez de nos afastarmos, devemos

desfrutar dele. O mesmo se propõe em relação ao amar as coisas, ou seja, o erro não está

em amar as coisas, mas em transformá-las em um fim em si mesmas. Elas, as coisas,

devem ser usadas como forma de se achegar a Deus. Por isso,

Além do trabalho, o casamento também é uma forma de servirmos a Deus. Trabalho e casamento passam a ser a substância da vida. Era vontade divina que homem e mulher se amassem; isso evitaria o pecado da fornicação, favorecendo a procriação de filhos legítimos. O único cuidado que deve ser tomado é não transformar o casamento em um fim em si mesmo, o casamento é um meio para a realização da vontade divina. (MATTOS, 2006, p.66)

É evidente que todos os valores e princípios que servem de fundamento ao self ocidental

têm uma história em que cultura e religião se cruzam para criá-los. Mas essa fusão das

visões teológica e científica se fragmenta no século XVIII, com o iluminismo e sua

visão antirreligiosa. Essa é a razão de, na abordagem de Marx, fazer-se alusão à

secularização da tradição, usando expressões como “profanação do sagrado” como nos

referimos anteriormente (em 1.2.3).

Outro aspecto de suma importância é aquele que liga o princípio da igualdade de todos

os homens à noção de dignidade humana. Essa noção emerge na construção do self

expressivo, como reação contra o Iluminismo. Debruçar-nos-emos sobre esse assunto

mais adiante; por ora vale salientar que Kant, ao propor o princípio de justiça universal,

a determinação de agir somente segundo as máximas universais e de perceber todos os

seres humanos como fins em si mesmos, ressalta concomitantemente a dignidade

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humana. Para Kant (2007), dignidade humana significa viver de acordo com o que cada

um é, como agente racional, sendo a racionalidade entendida como um bem superior

que merece todo o nosso respeito. Nas palavras de Kant:

O conceito segundo o qual todo o ser racional deve considerar-se como legislador universal por todas as máximas da sua vontade para, deste ponto de vista, se julgar a si mesmo e às suas ações, leva a outro conceito muito fecundo que lhe anda aderente e que é o de um reino dos fins. Por esta palavra reino entendo eu a ligação sistemática de vários seres racionais por meio de leis comuns. (2007, p.75)

É no reino dos fins que a dignidade faz sentido. “No reino dos fins tudo tem ou um

preço ou uma dignidade” (KANT, 2007, p.77). Se a coisa é dotada de um preço, pode-se

pôr, em vez dela, qualquer outra coisa que a substitua, desde que lhe seja equivalente,

mas quando a coisa não tem preço, porque está acima de qualquer preço e não se lhe

permite nenhum equivalente, então ela tem dignidade.

O que se relaciona com as inclinações e necessidades gerais do homem tem um preço venal; aquilo que, mesmo sem pressupor uma necessidade, é conforme a certo gosto, isto é uma satisfação no jogo livre e sem finalidade das nossas faculdades anímicas, tem um preço de afeição ou de sentimento; aquilo, porém, que constitui a condição só graças à qual qualquer coisa pode ser um fim em si mesma não tem somente um valor relativo, isto é um preço, mas um valor íntimo, isto é, dignidade. (KANT, 2007, p.77)

Para Kant, então, a única condição que pode fazer de um ser racional um fim em si

mesmo é a moralidade, tendo em conta que é somente por meio dela que é possível ser

membro no reino dos fins. Taylor (1994) compreende que ocorreu com Kant uma

transformação significativa no status e na compreensão do agente, considerando que se

faz uma nova interpretação do significado da pessoa humana que passa pela nova forma

de lhe atribuir respeito. Enquanto, nas sociedades tradicionais, o respeito à pessoa

humana estava atrelado a uma concepção de honra que pressupunha distinções e

privilégio, na contemporaneidade, a honra é substituída pela concepção de dignidade. A

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dignidade está baseada na ideia de que todo o ser humano é digno de respeito e

pressupõe um reconhecimento universal entre iguais. Nas palavras do autor:

Contra esta noção de honra temos a noção moderna de dignidade, que hoje possui um sentido universalista e igualitário. Daí falarmos em “dignidade dos seres humanos” ou dignidade de cidadão. Baseia-se na premissa de que é comum a todas as pessoas. Naturalmente, este conceito de dignidade é o único que é compatível com a sociedade democrática, e era inevitável que pusesse de lado o velho conceito de honra. (TAYLOR, 1994, p.47)

Que o poder governamental emana do povo, isso é fundante na democracia política, mas

é imperativo que se destaque que a validade desse princípio é dada na perspectiva de

que todos os homens são essencialmente iguais. Para tanto, todos são dotados de igual

dignidade, porque são todos agentes racionais, por isso morais. Vale ainda ratificar que

este princípio e os padrões reais de comportamento na sociedade que dele resultam, têm

sua raiz definida em: “Ideologicamente, essa crença deriva da concepção cristã de

fraternidade de todos os homens enquanto filhos de Deus” (MANNHEIM, 2012, p.145).

É verdade que, sem essa concepção, as sociedades ocidentais jamais poderiam

desenvolver uma ordem política que garantisse um status igual para todos os agentes

humanos, o que não significa que se deve ignorar o processo histórico a que o mesmo

foi submetido e certas modificações favoráveis na estrutura social e política no

Ocidente, que possibilitaram a sua formulação. Desse modo, “a pressão de amplos

estratos médios e inferiores cada vez mais influentes, social e politicamente, foi

necessária para transformar o princípio cristão de igualdade numa realidade institucional

e política”, ou seja, “o igual tratamento de todos os indivíduos como traço básico da

sociedade moderna foi imposto pelo crescente poder adquirido pelas camadas sociais

inferiores” (MANNHEIM, 2012, p.146).

Esse princípio pode nos induzir a um equivoco óbvio: pensar que o princípio da

igualdade essencial de todos os homens implique ou legitime um nivelamento mecânico

dos cidadãos. O princípio não implica que todos os homens sejam iguais quanto as suas

qualidades, méritos e dons, mas unicamente que todos personificam o mesmo princípio

ontológico de humanidade. O primeiro princípio fundante da democracia política não

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nega que, sob condições de justa competição, alguns indivíduos se revelem superiores

aos outros. Antes, o princípio exige que a competição seja justa, que se conceda o

mesmo status inicial, de modo que ninguém se sinta favorecido ou prejudicado, como

ocorria nas sociedades tradicionais, em que alguns desfrutavam de certos privilégios

hereditários. Isso nos remete ao segundo princípio.