A prédica e a mise en scène
II. 3 1 A prédica, um dispositivo do poder disciplinar
Conforme a proposta inicial deste capítulo, sem tratar aqui especificamente do teatro, como já referi, destaquei alguns documentos de outro tipo, na presunção de que estes, de alguma maneira, pudessem oferecer indicações sobre as possibilidades da mise en scène, como os jesuítas pensavam um espaço de ordem. Fixando-me num arco de tempo que se estende pela segunda metade do séc. XVI, concedi-me uma incursão em meados do século seguinte, somente na medida em que o documento ali selecionado parecesse sistematizar, em algum modo, as regras formuladas e já em uso no século precedente.
É impossível ignorar que, assim procedendo, coloquei-me num dos períodos mais decisivos para a definição de uma retórica cristã, no meio de uma polêmica que questionaria até a possibilidade do uso da palavra retórica, arte identificada com a palavra pagã192, como será visto. Não obstante a reação católica que se desencadeia, em Roma, contra as buone Lettere, os eruditos continuaram, porém, a estudar as fontes antigas da ars dicendi, a arte retórica entendida como a pedagogia da sabedoria, em especial, os jesuítas.
Na contenda contra a retórica e, sobretudo, contra os escritos de Cícero, os jesuítas desempenharão um papel relevante em sua defesa. É notável a função de Cícero como princípio de mediação e de síntese ao centro da retórica dos jesuítas, considerada eclética por Marc Fumaroli193. Parece-me, entretanto, ser possível matizar as bases deste suposto ecletismo, o que será feito mais adiante, analisando a noção de adaptação jesuítica, cujas matrizes situo, justamente, em Cícero e
192 Marc F
UMAROLI. L’età dell’eloquenza: Retorica e res literaria dal Rinascimento alle
soglie dell’epoca classica. Traduzione di Emma Bas, Margherita Botto e Graziella Cillario. Milano: Adelphi, 2002. p.127
Quintiliano, na III Parte deste trabalho, capítulo III.1, sobre a percepção jesuítica de uma ars oratória entre os nativos, no Brasil do séc. XVI.
Antes mesmo que estes autores fossem entronizados na Ratio Studiorum jesuítica, publicada somente em 1599, já encontravam livre curso nos escritos prescritivos de Loyola. Como será visto, na formação discursiva jesuítica, a intertextualidade externa com os autores pagãos havia sido admiravelmente compatibilizada. Daí, a possibilidade de continuar destacando o papel singular da discursividade da Companhia de Jesus, num debate que perpassava e oferecia diversas possibilidades à Igreja.
A leitura do belo trabalho de Fumaroli, especialmente ao tratar da reforma da eloqüência sacra, é recomendável194. Sobretudo, considerando-se a advertência de Rusconi, que alerta para a quase inexistência de estudos sobre a passagem do sermo
modernus, dos últimos anos da Idade Média, para a retórica eclesiástica da Idade Moderna plena195. De fato não existe, segundo ele, uma história da predicação para os séculos XV e XVI que considere o sermão como um acontecimento complexo, envolvendo as diferentes Ordens religiosas e a própria Igreja. Faltam estudos em que se achem imbricados problemas políticos, religiosos, sociais, retóricos e literários, inerentes a este gênero de discurso, para além de considerações sobre temas isolados, de caráter eminentemente lingüístico e literário.196
Como já afirmei, coloquei-me num dos períodos mais polêmicos na definição de uma retórica cristã, o que é compreensível pelo papel que a disseminação da doutrina sã, isto é, aquela que se estava definindo em Trento, assumiu, sobretudo, após o Concílio (1545-1563). Recolocava-se, então, esse problema antigo para o cristianismo e, naquele momento, em especial, para o catolicismo romano desafiado. Catolicismo que buscava novamente o seu sentido literal, isto é, universal.
194 Id. Ibid. 195 Cf. Roberto R
USCONI. Rhetorica Ecclesiastica: la predicazione nell’età pos-tridentina fra
pulpito e biblioteca. In: La predicazione in Italia dopo il Concilio di Trento tra Cinquecento e Settecento. Atti del X Convegno di Studio dell’Associazione Italiana dei Professori di Storia della Chiesa. Napoli, 6-9 settembre 1994. Roma: Edizioni Dehoniane, 1996. p. 15-46. p. 44 e seq.
Para além de definir a doutrina, era preciso elaborar, mais do que nunca, os meios de sua difusão. Estes seriam fundados, muito particularmente, na formação do sacerdote, na predicação e no ensinamento do catecismo. A predicação, em especial, foi objeto de uma das primeiras sessões conciliares, mais precisamente, a Quinta, ocorrida em 17 de junho de 1546. Nesta ocasião, foi emitido o importante decreto
Super lectione et praedicatione, o qual foi seguido, dezessete anos depois, pelo Cânone IV, do Decretum de reformatione, aprovado na XXIV Sessão (1563), logo após a XXIII sessão, que visou à criação de seminários.
Era fundamental que os pastores de almas instruíssem,
[…] com discursos edificantes […], segundo sua capacidade e a de suas ovelhas, ensinando-lhes o que é necessário que todos saibam para conseguir a salvação eterna, anunciando-lhes com brevidade e
clareza os vícios de que devem fugir e as virtudes que devem praticar , para que consigam evitar as penas do inferno e conseguir a felicidade eterna. 197
Ensinando-lhes o que é necessário – este ponto receberia ênfases diversas entre este ano de 1546 e aquele de 1563. O objetivo, em 1563, era bem preciso, “aptius praesentium temporum usui accomodando”, adaptar ao uso do presente, o decreto anterior, de 1546. Se em 1546, a prédica foi colocada no mesmo nível da leitura do Evangelho, no momento da conclusão do Concílio, ao contrário, a predicação vinha estreitamente coligada ao ensino metódico dos “rudimenta fidei” (vale dizer, da doutrina cristã, ou melhor, católica)198. De fato, à medida que se chegava ao fim do século XVI, não se tendo ainda os seminários diocesanos previstos pelo Concílio, o ensino dos rudimentos da fé assumia papel relevante nos púlpitos que, na ausência de um clero secular bem formado para desempenhar as tarefas pastorais previstas pelos decretos conciliares – fez com que a tarefa da predicação fosse novamente assumida pelas ordens religiosas, tanto as que surgiram nos últimos séculos da Idade Média, como as que seriam fundadas durante o séc.
197 Sacrossanto, Ecuménico y general Concilio de Trento. Documentos del Concílio de
Trento. Disponível in: http://www.multinedios.org/docs/d000436/ Sessão V Decreto sobre la reforma. Cap. 2. Tradução e itálicos meus.
198 Roberto R
XVI, destacando-se, entre as que antecederam ao próprio início do Concílio, os jesuítas199.
Brevidade e clareza – eis a fórmula, aparentemente simples, recomendada, cujo entendimento oporia as Ordens mais antigas às modernas. Eis abertas as mais férvidas discussões sobre o direito do uso e sobre a forma adequada à Palavra, tão bem descritos por Fumaroli200.
“Nemo audeat aliter docere aut praedicare” [Ninguém ouse diferentemente ensinar ou predicar]. Esta intimação contida na introdução ao decreto sobre a justificação, emanado na VI Sessão, de 1547, revela a portada da obra enunciada pelos padres do concílio: não somente o “docere”, isto é, o ensinamento teológico reservado aos clérigos, mas também o “praedicare”, dirigido a todos os fiéis.201 Antonio Acerbi, destaca o que, para ele, é uma novidade na apresentação do texto destinado a estes fins: a apresentação positiva da doutrina ortodoxa, isto é, antes do anátema, a excomunhão, a proibição, vem claramente expresso o que, de fato, se deve ser, dizer e fazer.
Assim, o que parece emergir nas disposições de Trento é o exercício de um certo tipo de poder – disciplinar, como o definiu Foucault –, que, no seu essencial, era positivo, isto é, mais do que dizer não, dizia aquilo que se devia efetivamente construir. Os mecanismos de poder postos em movimento eram generativos, visavam a produzir e redefinir sujeitos, investiam na produção de suas capacidades e de sua produtividade. Mecanismos de poder nos quais existiam as interdições, mas apenas existiam a título de instrumentos. O essencial de toda essa disciplinarização dos indivíduos, como diria Foucault, a propósito de outro objeto, não era negativo.202.
199 Id. p. 19. 200 Marc F
UMAROLI. L’età dell’eloquenza. Op. cit.
201 Antonio A
CERBI. Il decreto tridentino sulla giustificazione e la sua ricezione nei
catechismi da Canisio a Deharbe. In: Massimo Marcocchi et al. Il Concilio di Trento: stanze di riforma e aspetti dottrinali. Milano: Vita e Pensiero, 1997. p. 45-116.
202 Michel FOUCAULT. Ditos e escritos V: ética, sexualidade, política. Org. e seleção de
textos Manoel Barros da Motta. Tradução Elisa Monteiro, Inês Autran Dourado Barbosa. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004. p. 75.
Foucault diria mais: “[…] o que quero dizer é que o mecanismo não era
essencialmente de interdição, mas sim de produção, era, pelo contrário, de intensificação e de multiplicação.” Para, em seguida, perguntar: “Os mecanismos de poder mais intensamente inscritos em nossas sociedades não são aqueles que chegam a produzir alguma coisa, que conseguem se ampliar, se intensificar?”203 Seguindo as prescrições de Trento, a resposta parece que é positiva. Em conseqüência, por mais de um século a retórica assumiu uma singular relevância na cultura do Ocidente.
Parece, assim, explicar-se a novidade assinalada anteriormente, o fato de antes dos Cânones, isto é, da forma tradicional de condenação dos erros doutrinais, o citado decreto trazer os capítulos, ou seja, a apresentação positiva da doutrina ortodoxa. Com esta novidade, o decreto se oferecia como guia autorizado, não somente para a correta formulação do ensino nas escolas, mas também para a instrução do povo cristão. Que os padres do Concílio mirassem à predicação aos fiéis, aparece num particular, ressaltado por Hubert Jedin, o grande historiador do Concílio: depois da promulgação deste decreto, em 13 de janeiro de 1547, os legados pediram ao papa que providenciasse a sua imediata publicação oficial, “para que este decreto já pudesse servir de guia para a predicação da iminente Quaresma.”204
Parece-me, portanto, possível tomar a prédica como um dos dispositivos principais do poder disciplinar que se passava a exercer. O papel de ímpar relevância assumido pela forma de portar a Palavra não passou despercebido e, de fato, chama a atenção para a contigüidade na formação do actor e do orator. Esta questão seria muito bem afrontada pela Companhia de Jesus, que jamais perdeu de vista o estabelecimento de uma nítida separação entre o púlpito e o teatro.
203 Id. Ibid. 204 Cf. Hubert J
EDIN. Storia del Concilio di Trento. 2.ed. Brescia: Morceliana, 1974. 4 v., v.