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3 A CONSTRUÇÃO DO ATOR “DILMA”

3.3 A PRESIDENTE E SUA “SOMBRA”

A terceira charge, objeto de nossa análise, é também de autoria de Jean e foi publicada no jornal Folha de São Paulo no dia 05 de novembro de 2010, data posterior ao segundo turno das eleições em que se deu a vitória de Dilma.

No texto visual, a figura de Dilma é ancorada espacialmente em uma praia.

Sendo assim, o enunciador, para criar o efeito de sentido de veracidade, quis apresentá-la em um momento no qual não havia compromissos de campanha, um momento pós-eleição, que pressuporia um período de descanso da presidente.

Ocorre, no entanto, que Dilma, sentada em uma toalha de praia, dirige seu olhar à sombra que aparece na areia, observando que essa sombra não é dela, mas sim do presidente Lula. A sombra está representada como se fosse a figura de um fantasma, visto que não é dotada de olhos, mas apenas de órbitas oculares.

Nesse sentido, a presidente eleita revela, por meio de seu olhar, o papel patêmico de um sujeito em estado de medo, de temor, como se não quisesse ser guiada pela sombra do ex-presidente, mas não pudesse dela se libertar.

Em semiótica das paixões o medo, é definido pela modalidade do não querer-ser e, no caso de Dilma, ela parecer não querer a presença de Lula, mas não pode fazer nada para se desvincular dela.

O texto revela, portanto, por meio do olhar da presidente, o tumulto modal em que ela se encontrava: ela parecia não querer-ser dominada pela sombra do governo “Lula”, mas encontrava-se passiva frente a isso, uma vez que, durante a campanha eleitoral deixou-se conduzir por Lula e agora não poderia desvincular-se de sua figura, de sua sombra.

Observa-se, mais uma vez, a voz irônica do enunciador que apresenta a figura de Dilma como indissociável da figura de Lula, eles são representados como corpo e sombra, ou seja, como inseparáveis.

A palavra sombra é assim definida, no nível de dicionário:

espaço sem luz, ou escurecido pela interposição de um corpo opaco.

Reprodução numa superfície mais clara, do contorno de uma figura que se interpõe entre esta e o foco luminoso. Lugar não batido pelo sol ou falta de claridade. Escuridão, treva. Mancha escura. (AURÉLIO, 2011, p. 822).

Sendo assim, na charge podemos perceber que a figura a figura de Dilma é impedida por Lula de ter sua própria sombra, metaforizando a perda de identidade da presidente. Nesse sentido, podemos interpretar a sombra como a do fantasma do governo Lula, que perseguiria os passos de Dilma em seu governo. Desse ponto de vista, encontramos a seguinte definição para o termo fantasma no dicionário:: ser sobrenatural, geralmente a alma de um defunto que retorna ao mundo dos vivos; assombração, espectro, aparição, sombra, visagem. (AURÉLIO, 2011, p. 421).

Por outro lado, na crônica de Barros e Silva, publicada no mesmo dia, na mesma página da charge, observamos a seguinte declaração em que ele fala da “mudança”

no cenário nacional. De acordo com o cronista:

Sai de cena, com Lula, o mágico capaz de tirar as meias sem tirar os sapatos.

Desaparecem a inteligência intuitiva, a exuberância cênica, o vínculo afetivo com a plateia, a graça e o talento de quem sabe manipular enorme arsenal simbólico. Dilma é uma gestora. Seu idioma é o administrês. Gosta de siglas, números, planilhas, projetos, metas, obras. Seu perfil técnico, duro, contrasta com os de Lula e FHC, providos de enormes recursos pessoais, e para quem a Presidência foi antes de tudo o palco da arte da grande política.Veremos o que vai dar (BARROS E SILVA, 2010, p.02)

A fala de Barros e Silva é ambígua: nesse aspecto, pode ir ao encontro da charge publicada por Jean, a qual, por meio da representação hiperbólica da sombra de Lula, ofuscando a da própria Dilma, parece sugerir que teríamos um terceiro mandato de Lula, uma vez que a presidente eleita não teria o mesmo carisma do ex-presidente, o qual ofuscaria, pois o novo governo, impedindo Dilma de brilhar com luz própria No entanto, o olhar enigmático de Dilma, no texto chargístico, se associa, por outro lado, ao texto de Barros e Silva que, ao traçar a diferença entre o perfil de Lula e Dilma, finaliza o artigo com uma dúvida sobre a possível mudança que poderia ocorrer no cenário político com a vitória de Dilma, cujo governo não teria o mesmo brilho do governo do então presidente.

No que se refere à ancoragem dos atores no espaço percebe-se que o enunciador apresenta a imagem da sombra fantasmática do ex-presidente Lula de maneira exagerada. Sua representação cobre quase metade da charge. Nesse aspecto, vale lembrar, segundo Lopes (1986, p. 87), que a figura da hipérbole pode ser entendida como uma tentativa de

magnificar a essência ou ser [...], isolando-o de certo modo do contexto que o cerca a fim de localizá-lo no local de honra de um primeiro plano

“Lula” na charge, por meio de uma representação hiperbólica, uma vez que a figurativização desse ator ocupa grande parte do espaço apresentado, deixando para a representação de Dilma apenas um espaço limitado basicamente pela sua toalhinha de praia minúscula.

Pode-se perceber, portanto, a intenção do enunciador de evidenciar o poder descomunal do então presidente em face de sua sucessora. Nesse sentido, o enunciador sugere que o ex-presidente ofuscaria o papel de sua sucessora por meio de sua imagem de líder poderoso, e, como uma sombra, não possibilitaria à presidente eleita brilhar com luz própria,

ou seja, exercer seu papel independentemente da força carismática de seu criador. Lula pode ainda ser caracterizado como aquele que tudo sabe e tudo vê uma vez que está representado na charge como um fantasma, muito maior que o ser humano, representado por Dilma.

Observamos ainda na charge a categoria topológica /englobado vs englobante/

onde Dilma é a figura englobada, pois na charge encontra-se envolvida pela sombra/fantasma de Lula. Tal categoria topológica da expressão se correlaciona à categoria do conteúdo /opressão vs liberdade/ em que a figura de Dilma é oprimida pelo poder descomunal da figura do presidente Lula. Dessa maneira, percebemos nesta charge a instauração de uma relação semissimbólica, com o objetivo de criar o efeito de sentido de humor irônico para o texto.

Portanto, a figura hiperbólica da sombra do então presidente, projetada eideticamente como a de um fantasma, ofuscando a presidente eleita, sugere ironicamente que ela não conseguiria suplantar a força do mito “Lula” que estaria, pois, sempre à sua volta, como um fantasma a rondá-la.