3 A CONSTRUÇÃO DO ATOR “DILMA”
3.4 GOVERNO DILMA?
A charge de Benett do dia 02 de novembro de 2010 aponta ironicamente para a possibilidade de um “terceiro mandato de Lula”, que seria, portanto, o mentor do governo
Dilma.
A charge encontra-se dividida em duas partes, na primeira delas Lula, por meio da debreagem interna de segundo grau, que cria o efeito de sentido de verdade para o texto, dialoga com Dilma dizendo: “Não haverá interferências, palpites, sugestões, ou opiniões!” Já na segunda parte da charge, manifestam-se Lula e Dilma, e aquele termina seu discurso dirigindo seu olhar à presidente eleita dizendo: “A não ser que eu lhe peça. Ok?”
Dilma então, por meio de um olhar que revela impaciência , com os olhos voltados para cima, responde: “Ok...”.
A resposta de Dilma revela seu aprisionamento a Lula, assim, apesar de seu olhar sugerir, de certa forma, que ela não queria permitir que o ex-presidente entrasse com
“palpites, sugestões ou opiniões” em seu governo, ela sabia que não poderia fazer nada contra esse fazer de Lula, visto que ele foi o sujeito responsável pela sua conjunção com o objeto-valor “presidência”.
Sendo assim, o enunciador da charge, ao apresentar a segunda parte do diálogo, na qual Dilma diz Ok, concordando com a fala de Lula, quis sugerir que Dilma iria acatar os
“palpites, sugestões ou opiniões”, de Lula em seu governo.
Tal opinião trava diálogo com a crônica de Eliane Cantanhêde do mesmo dia.
Em seu texto, a cronista diz, a respeito de Lula e Dilma: “Ele fez a candidata, impôs seu nome ao PT, garantiu-lhe a vitória, vem escolhendo os ministros desde a campanha, determina como será o governo e será o dono do país, de fato, também no mandato da sucessora. Até voltar, de direito, pelas eleições de 2014” (CANTANHÊDE, 2010, p. 2).
Na opinião de Cantanhêde, portanto, nota-se novamente a instauração de Lula como sujeito do fazer e de Dilma como sujeito de estado em que ele teria sido o responsável pela conquista do objeto-valor “presidência” por parte da sucessora.
Em outro texto, de Sérgio Dávila, publicado na mesma página da charge e também no mesmo dia, sob o título “Dilma pode; o que fará?” observamos, por outro lado a seguinte afirmação:
Em seu discurso de agradecimento, anteontem à noite, Dilma exortou os pais a dizer às filhas “Sim, a mulher pode!”, adaptando o mote da campanha obamista “Yes, we can!” (“Sim, nós podemos!”, em inglês). De fato, Dilma poderá. Resta saber o que “a mulher de Lula” fará com esse poder.
(DÁVILA, 2010, p.2)
Ao atribuir a Dilma o papel temático de “mulher de Lula”, o autor ironicamente indicia que a nova presidente seria alguém que possuiria uma relação profunda com o ex-presidente, ou ainda, como sugere o “Ok” de sua fala na charge, como um sujeito que deveria obediência a outro.
A ausência de identidade da Dilma candidata, devido à sua subordinação a Lula fez com que Dilma fosse considerada pelo articulista como alguém cujo “desempenho na campanha foi tão mediano, as propostas tão ausentes, as promessas tão vagas, que só se pode esperar que ela seja melhor presidente do que foi candidata” (DÁVILA, 2010, p. 2). No entanto, o jornalista, sugere que, investida de poder, tal qual Dilma explicitou em seu discurso, Dilma seria uma incógnita e, mesmo como mulher de Lula, poderia surpreender.
Observamos, ainda, na charge a categoria do plano de conteúdo / passividade vs. atividade/, a qual se associa, à categoria cromática /cor quente vs cor fria/. O primeiro termo da categoria cromática está associado ao vestido vermelho de Dilma e o segundo, ao terno azul de Lula. restaria outra alternativa a não ser acatar as interferências de Lula em seu governo, apesar de, na aparência, nas vestes, simular o ideário do PT por meio da roupa vermelha.
Nesse sentido, parece haver uma contradição entre os termos das categorias semânticas, o que contribui para a criação da figura da ironia e do humor que a charge causa.
Assim o vermelho da veste de Dilma, outrora associado aos temores de mudança de direção no governo Dilma, seria algo da ordem da aparência, na essência, seu governo, se tornaria um continuísmo da era Lula, conforme sugere a charge.
A ironia instaurada nesse texto se manifesta também ao nos depararmos com Lula, na segunda parte da charge, sugerindo, no plano verbal, exatamente o que negou na primeira parte do texto. Logo, “interferências”, “palpites”, “sugestões”, “opiniões”, compõem um percurso figurativo que tematiza a ingerência de Lula no futuro governo Dilma, o que ela parece acatar de forma passiva, em sua fala , apesar do olhar, de impaciência.
Nesse sentido, ao analisarmos os olhares de Lula e Dilma, na segunda parte da charge, observamos que, ao se dirigir a Dilma, Lula olha para ela buscando um olhar de aceitação por parte da companheira. No entanto, o olhar de Dilma é o de um sujeito que
parece cansado de aceitar os desígnios de Lula, apesar de sua fala sugerir-lhe obediência, Assim, o enunciador da charge, ironicamente sugere que, mesmo os mais ferrenhos adeptos do ideário do PT, como Dilma parecia ser, se sujeitariam aos desígnios de Lula, como revela seu assentimento com o OK. Em outras palavras, a nova presidente, uma figura que, pelo cargo que iria ocupar, deveria ser a “mandante” aparece na charge em posição de submissão ao velho companheiro. Todavia, o estado de impaciência, que também se capta em seu olhar, parece ambiguamente sugerir que, investida do poder, e apesar de “mulher de Lula” ela poderia surpreender.