DRAMATURGIA E IMAGINÁRIO SOCIAL – O PRIMEIRO DE MAIO, DE PIETRO GOR
3.2.1. A primavera conflagrada e o cenário campestre
Voltemos à peça. Quando Ida conversava com seu pai, notamos já algumas alusões aos ciclos da Natureza. Por exemplo, enquanto a jovem camponesa seria a “flor que nasce”, seu velho pai seria a “árvore que tomba”. É claro que a menção aos ciclos naturais no trecho citado é uma referência à primavera; esta, como se sabe, no hemisfério norte, apresenta seus sinais mais evidentes no mês de maio. As metáforas primaveris são uma constante em toda a peça. Nelas embrenhamo-nos em um complexo campo simbólico, repleto de imagens associadas aos ciclos da Natureza e aos eflúvios trazidos por aquela estação. Tais imagens, simbolicamente, também anunciam o advento de um “mundo novo”, liberto das amarras do passado.
Se, por um lado, na peça, a exuberância de representações em torno da primavera é evidente, por outro, nos artigos da imprensa anarquista, essas representações são muito mais escassas. As razões desse relativo desprezo pelas imagens primaveris na imprensa nacional são explicitadas em um divertido texto anticlerical publicado em A Lanterna, no dia 2 de julho de 1907. Logo no início, o autor (M. Doriz) assinala a inviabilidade de associar, “aqui pelas zonas tropicais”, o mês de maio aos eflúvios primaveris. Desnecessário dizer: aqui, em terras tropicais, estamos nesse mês em pleno outono.
Se na imprensa anarquista do Brasil as referências à primavera são escassas, como vimos, em Primeiro de Maio (peça composta, devemos lembrar, por um italiano oriundo das “zonas temperadas”) elas são abundantes. Já no prólogo, quando o ator
aponta para o fundo do cenário, composto por representações de um campo e de um mar, ele declama uma estrofe carregada de imagens primaveris. Primando sempre pelo didatismo, o ator descreve o cenário apresentando os “verdes prados sorridentes” e os “frescos jardins florescentes”. A presença dessas representações aqui não é fortuita - a lírica peça é permeada, do início ao fim, por metáforas e símbolos repletos de significados. Logo na seqüência, ainda na mesma estrofe, o ator prenuncia a chegada da liberdade. Naquele “primeiro de maio venturoso, o mundo obreiro” a vê sorrir “por vez primeira – qual nova bandeira”. Identificamos aqui uma imbricação entre os eflúvios primaveris e as imagens que anunciam o advento de um “novo mundo” livre e justo – imbricação recorrente na peça. A primavera que faz germinar as plantas traz também a semente da “renovação” na sociedade.
Além de associar os eflúvios da primavera ao advento da liberdade, a peça (ainda em sua cena introdutória) deixa claro que a Natureza é generosa, mas, por si só, não exatamente pródiga. Ela pouco oferece sem o esforço que envolve o trabalho humano. No poema que constitui o prólogo, já em sua penúltima estrofe, o campo “salpicado de flores e verdura” é, na verdade, fruto dos suores de “ativos produtores”; são as “hostes de oprimidos” que o cultivam.
Portanto, não nos iludamos com a exaltação da Natureza em Primeiro de Maio. As alusões a ela servem aqui como um mero pretexto para defender outros ideais mais “elevados”: a valorização do trabalho e, por extensão, a criação de um mundo melhor. O cenário campestre e o tom bucólico da obra nem de longe podem ser associados ao locus amoenus do Arcadismo (o Jovem não é Dirceu e Ida não é Marília!). Tivemos já a oportunidade de conhecer, no pequeno resumo acima, a descrição que Ida faz dos horrores da lida no arrozal. Além disso, em toda a peça, são constantes as menções à exploração e às injustiças que aquele velho mundo teima em perpetuar. Ora, se esse mundo, fadado a perecer, não é de fato nenhum paraíso, o que dizer do país distante do Estrangeiro? Parece-nos claro que ele se constitui em uma utopia. No entanto, essa simples constatação não nos basta. A questão sobre a qual devemos nos debruçar é outra: que tipo de utopia seria esta? Tal questão, mais complexa do que se imagina, nós discutiremos mais adiante. Voltemos à primavera.
Podemos dizer que as metáforas primaveris da peça condensam-se no hino Primeiro de Maio, entoado logo após o prólogo. Composto também por Pietro Gori, em 1892 - quando o autor esteve detido no cárcere de San Vittore (em Milão) -, ele sintetiza
o argumento da “renovação”, associado aos sinais da primavera e aos ciclos da Natureza. Se o hino condensa os significados primaveris do 1º. de Maio, pensamos que, por ora, ele deva ser o nosso eixo central. Isso não descarta digressões pelos episódios da peça e pelos artigos da imprensa que também manifestem as imagens simbólicas daquela estação.
Como já dissemos, o hino de Pietro Gori mescla imagens da primavera com sentimentos de esperança de um “porvir melhor”. No entanto, do início ao fim, permeiam-no freqüentes incitações à luta e à abstenção do trabalho. Vejamo-no mais de perto, começando pelos seus dois primeiros versos.
Vem ó Maio, saúdam-te os povos, Em ti colhem viril confiança;
Após invocar o mês de maio, os dois primeiros versos expressam uma imagem agrícola mesclada pela afirmação de uma vigorosa determinação. Para além do ideal internacionalista199, depreendido da menção aos “povos” que saúdam aquele mês,
pensamos que a representação da “colheita” sugere aqui algumas reflexões. Os mesmos povos que saúdam aquele mês, “colhem” nele uma “viril confiança”. “Colher confiança” mistura aqui significados diversos: a colheita remete-nos ao que proporciona a estação primaveril (alusão ao ciclo natural); por outro lado, a noção de confiança sugere-nos uma disposição (mesmo que ainda vaga) para a luta; esta, no imaginário anarquista, está intimamente relacionada com o significado de protesto atribuído à data. Além do mais, devemos lembrar que só se colhe aquilo que se planta. E as sementes, aqui, podem tanto ser as que germinam na terra quanto aquelas que florescem na cabeça (os germes do grande Ideal que deve ser propagado pelos quatro cantos do mundo). Sendo assim, a faina do campo, realizada pelas “hostes de oprimidos”, imbrica-se com a idéia de vigor e determinação – assim como com a noção de propagação do Ideal que há de redimir a todos.
199 Sobre o sentimento internacionalista vinculado ao 1º. de Maio, ver Hobsbawm, Eric J. Mundos do
Trabalho. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987, pp. 111- 112. O autor insinua que parte da força que o 1º. de Maio possui talvez esteja ligada ao sentimento internacionalista. Afinal, a efeméride foi planejada para ser “uma única manifestação simultânea internacional”. Na esteira de Hobsbawm, ressaltamos ainda que as “reivindicações públicas de raízes populares impuseram aos partidos e à Internacional a repetição anual” da comemoração. Mais adiante voltaremos ao tema da transformação do 1º. de Maio em data comemorativa da classe trabalhadora.
Outra imagem primaveril desponta no terceiro verso da primeira estrofe, quando o autor clama ao mês de maio para que ele traga “cerúlea bonança”. Aqui, a imagem primaveril é diretamente relacionada com a esperança de tempos melhores. O mesmo ocorre no quarto verso. Nele, o autor pede para que o mesmo mês traga, a todos, “dias novos”. Como dissemos acima, as imagens de um futuro melhor e de um “mundo novo” são recorrentes, tanto na peça de Pietro Gori quanto nos inúmeros artigos da imprensa anarquista referentes à data. Cabe aqui apenas reforçar a nítida associação entre primavera e “renovação”.
Para além do trecho supracitado - em que Ida afirma a seu pai que ele é a “árvore que tomba” e ela a “flor que nasce” -, tal associação manifesta-se de forma clara em pelo menos mais dois episódios da peça. Primeiramente, devemos mencionar, já no início da cena 1, o momento em que o Jovem pede para a sua mãe não amaldiçoar os “modernos tempos”. Estes, segundo o bom rapaz, “fizeram germinar a semente e frutificar as searas”, dando margem à ciência e “justificando a história da evolução humana”. Nesta passagem, não é apenas a relação entre os novos tempos e a primavera que deve ser ressaltada. Para além dela, aparece também uma outra associação: aquela entre os “modernos tempos” e o desenvolvimento da ciência. Digna de nota é também a referência à evolução humana200.
O segundo momento em que as metáforas da primavera imbricam-se com as imagens de um “novo tempo” encontra-se no final da cena 6. É lá que Ida, em um de seus rompantes recitativos, tenta explicar ao seu velho pai as razões pelas quais o 1º. de Maio é tão importante para os trabalhadores. Em determinado momento da discussão, a jovem camponesa relaciona as imagens da primavera com aquelas vinculadas à idéia de “renovação”. Após dizer que, naquela data, os trabalhadores “compreenderam que eles são o tudo nesta sociedade meramente econômica”, Ida afirma que a efeméride significa
200 Aqui, como em vários outros momentos em nossa pesquisa, devemos assinalar que a apropriação de
um conceito elaborado algures sofre – em seu processo de assimilação - uma transformação em seu significado original. Ou seja, a concepção de evolucionismo no interior do pensamento anarquista adquire um sentido por vezes radicalmente diferente daquele elaborado por Darwin (ou pelos positivistas que também faziam uso da expressão). A teoria evolutiva elaborada por Kropotkin – para ficarmos no exemplo mais emblemático – leva em consideração um fator importante que o naturalista inglês desprezou em seus estudos: a colaboração e aquilo que Kropotkin e outros anarquistas chamaram de “ajuda mútua”. Para além da luta pela sobrevivência, o anarquista russo destacou o papel da solidariedade como fundamental na adaptação dos seres vivos (incluindo o próprio Homem) à Natureza. Para a noção de “evolução” no pensamento do anarquista russo, ver Kropotkin, Peter; Anarchism – A Collection of
Revolutionary Writings. Mineola - New York, Dover Publications, 2002; pp. 53/54. Sobre a noção de “ajuda mútua” no autor citado, ver Tragtenberg, Maurício (sel.); Kropotkin – Textos Escolhidos. Porto Alegre, L&PM, 1987; pp. 143/170.
também que “Maio, após o inverno sem o fogo e sem pão, vem enflorar as fontes [sic] banhadas de suor”. Poderíamos dizer que, neste trecho, mais uma vez, os eflúvios primaveris trazem alento àqueles que trabalham. Se o inverno, fincado no mundo velho e decadente, trouxe frio e trouxe fome, a benfazeja primavera, por sua vez, traz consigo a possibilidade de um “novo mundo”. Em tal significado conferido à data, Ida ressalta a esperança de um “porvir melhor”.
Identificamos ainda novos ares de esperança e promessas de um futuro melhor na segunda estrofe do hino de Pietro Gori. Aqui, como poderemos perceber, a ênfase recai sobre a idéia de frutificação. Analisemos mais de perto seus versos.
Vibre o hino de esperanças aladas Ao grão verde que o fruto matura, À campina onde a messe futura, Já flori sobre as negras queimadas.
Mais uma vez, parece evidente a associação do ideal internacionalista (“esperanças aladas”, que atravessam fronteiras) com as metáforas primaveris. Alude-se aqui a um campo já semeado, esperando apenas a maturação. Já nos dois últimos versos temos a mesma metáfora do campo semeado vinculada a uma vaga sugestão revolucionária. Novamente, é preciso lembrar que, se a messe futura já flori, é porque as sementes já foram lançadas ao solo. Poderíamos pensar em que consistem essas sementes e quem foram os “heróis” que as lançaram ao solo. Depreendemos outra associação nesses dois últimos versos: a “messe futura” flori sobre as “negras queimadas”. Na lógica do hino, a aurora de um “novo tempo” deve surgir das ruínas do velho. Já tivemos a oportunidade de analisar parte da dualidade passado/futuro que emerge em alguns momentos na peça. Cabe agora apenas notar que, assim como nas duas alegorias acima analisadas, a aurora do “novo tempo” sucede algum cataclismo revolucionário que podemos subentender da idéia de “negras queimadas”. Ou seja, para o campo florir, é preciso incendiar o que nele havia anteriormente.
Sendo assim, fica difícil afirmar que, nessa obra de Pietro Gori (e o hino é parte constituinte dela), “o `velho mundo´ [...] não precisa ser combatido frontalmente”201.
201 A respeito de tal visão sobre a obra Primeiro de Maio, ver Alves de Lima, Mariângela e Thereza
Vargas, Maria. Op. Cit.; p.58. “Nesse trabalho [Primeiro de Maio] o `velho mundo´ dos senhores da terra e da burguesia industrial não precisa ser combatido frontalmente. Basta um movimento no sentido de
Não obstante a atmosfera idílica, pensamos que em Primeiro de Maio o ideal revolucionário, apesar de não explicitado, insinua-se freqüentemente. Não é apenas no hino que ele se manifesta. Em outros momentos importantes, como já mencionamos anteriormente, a combatividade é estimulada por Ida, pelo Estrangeiro e mesmo pelo Jovem enfermo. Além disso, as próprias descrições que o Estrangeiro (e depois também a ardente Ida) faz da árdua viagem ao seu país implicam uma disposição para a luta que deve ser constantemente estimulada. O caminho é difícil, cheio de ameaças; tão difícil que o debilitado Jovem não pode segui-lo! Resumindo: atmosfera idílica, sim; “paz e amor”, não! Ou melhor, buscando o sentido implícito de algumas idéias-imagens veiculadas pelos círculos ácratas: “Paz entre nós, guerra aos senhores”.
Encontramos outra identificação semelhante entre combatividade e “renovação” em um poema de Celso Mendes, publicado em A Plebe no dia 30 de abril de 1921.Vejamo-no de perto.
Maio. Mês da Esperança. As alvoradas São lâminas azuis, ensangüentadas,
De imensas guilhotinas. A terra canta. O céu se arqueia. Tudo
É forte, luminoso, ardente, agudo, Nos céus e nas campinas. Maio do Amor, do Ódio e da Vingança,
Maio de Redenção e da Esperança. Tudo germina e cria. Que o teu seio materno docemente
Fecunde e frutifique esta semente De brasas: a Anarquia!
Composto por quatro pequenas estrofes, o poema, não por acaso intitulado 1º. de Maio, mistura imagens de esperança e rebeldia. Nele, as alvoradas são “lâminas azuis ensangüentadas”, o Amor mistura-se com o “Ódio” e a “Vingança”. Nesse poema, em maio, “tudo germina e cria”; no entanto, a semente que fecunda e frutifica é “de inaugurar uma nova sociedade. Há no velho mundo uma podridão natural que torna próxima a sua extinção”.
brasas”: chama-se “Anarquia”. Aqui, de forma inequívoca, a esperança renovada pelo maio primaveril imbrica-se na idéia de revolta. Se na peça o espírito revolucionário deixa-se entrever, no poema de Celso Mendes ele se manifesta de forma explícita. Nele, não há espaço para dúvidas: a renovação só se faz por meio da conflagração!
Não abandonemos a imprensa anarquista por enquanto. Nela, são recorrentes os textos rememorando os acontecimentos que culminaram na execução dos Mártires de Chicago. Dentre esses textos, destaca-se aquele extenso artigo publicado no periódico carioca A Greve do dia 1º. de maio de 1903. Nesse já citado texto, o autor (Elysio de Carvalho), em parte utilizando um excerto de um texto de Neno Vasco, refere-se àqueles trágicos episódios como sendo uma “flor de revolta e de sentimento, rubra e viva”. Mais adiante, Elysio traça as linhas gerais que configuram a idéia de “sangue fecundo”. Aqui, o sangue dos combativos trabalhadores de Chicago seria transformado em “excelente adubo para as abundantes e gloriosas colheitas”.202 Para finalizar o trecho
dedicado aos acontecimentos em torno da execução dos Mártires, o autor afirma terminantemente: “A semente foi lançada e ela fecundará a Terra”. “Flor de revolta”, “semente”, “sangue fecundo”... Apesar das representações primaveris não serem aqui mencionadas diretamente, é difícil não ver nessas imagens a idéia de “fecundidade” (relacionada sempre à noção de renovação que a primavera carrega consigo).
Essa noção de fertilidade aparece claramente nos dois primeiros versos da quarta estrofe do hino que serve de eixo central na presente análise .
Levantemos as mãos doloridas E formemos um feixe fecundo;
Aqui, a alusão à fecundidade imbrica-se com a noção de união. Na estrofe seguinte, ela sugere uma ligeira incitação à combatividade. Vejamo-na de perto.
202
Não são poucos os artigos da imprensa anarquista que trabalham com a metáfora do sangue; esta sempre aparece relacionada com os exemplos de martírio que as histórias dos combativos trabalhadores manifestam. Às vezes, a imagem do sangue associa-se com as idéias de “purificação” e “batismo”. Isso ocorre, por exemplo, em O Vehiculo (edição de 8 de novembro de 1906). Ou então, o sangue é relacionado com a idéia de “santificação”, como em um artigo de A Greve publicado em 15 de maio de 1903. A metáfora do “sangue fecundo”, por sua vez, pode ser identificada não apenas no artigo que analisamos agora (A Greve de 1º. de maio de 1903), como também na edição de 8 de junho de 1915 do periódico carioca A Voz do Trabalhador.Em um outro texto sobre as comemorações em torno do 1º. de Maio, publicado em A Lucta Proletaria do dia 1º. de maio de 1908, o autor refere-se à data como estando sob o signo de “um mar vermelho de sangue”.
Sofrimentos, ideais, juventudes, Primaveras de túrbido arcano, Verde Maio do gênero humano, Dae coragem aos ânimos rudes!
Devemos ressaltar nessa estrofe o sentido sombrio e misterioso que a primavera adquire – assim como a associação do “sofrimento” com os “ideais” e a noção de “juventude”. O imaginário anarquista em torno do 1º. de Maio é repleto de imagens contraditórias que encerram quase sempre uma nítida oposição de idéias e sentimentos. No trecho acima transcrito, podemos identificar dois elementos que nos chamam a atenção: primeiro, a identificação dos ciclos de renovação naturais com o impulso transformador do ser humano; segundo, a confiança no espírito de mudança que maio suscita. Se na Natureza tudo floresce e frutifica, no “gênero humano” aquele mês deve ensejar o impulso à indispensável renovação social. Verifica-se o mesmo na última estrofe do hino.
Enflorai ao rebelde caído,
Com os olhos, fixando o nascente, Ao obreiro que luta fremente, Ao poeta, gentil, esvaído.
O “rebelde caído” e o “obreiro que luta fremente” encerram ainda uma outra idéia que, assim como a de luta, une-se à metáfora primaveril da “renovação”: a noção de “sacrifício”. Esta, como vimos acima, transparece nas descrições que Ida e o Estrangeiro fazem do caminho que leva ao “país ditoso”. Em outra passagem da peça a renovação ensejada pelo mês de maio também aparece entrelaçada com a idéia de “sacrifício”. Trata-se do episódio em que o enfermo Jovem, na última cena, perece tragicamente. Nesta passagem devemos atentar para o que diz o Jovem antes de morrer. Para ele, “o dia da reparação, virá [...] ante o florescimento deste Maio que abre as rosas que ornarão meu túmulo ”. Ou seja, é preciso que o amável Jovem morra para que o “novo mundo” apareça. “Renovação” e “sacrifício”, mais uma vez, aparecem ligados de forma intricada. Ou melhor, o segundo transmuta-se na primeira.
Como ressaltamos acima, no hino de Pietro Gori – assim como nos artigos e na peça em geral – a conquista de um “porvir melhor” não ocorrerá de forma “natural” (ou, como sempre se atribui ao anarquismo, de modo “espontâneo”). Parece-nos evidente
que a “renovação” ensejada pelo maio “ridente” (mas, por vezes, também “túrbido”) só será efetivada por meio de um concentrado esforço e de uma luta indispensável. Cabe àquele mês estimular a conflagração final que, das ruínas do velho mundo, fará brotar as sementes (já plantadas) de um mundo melhor.