DRAMATURGIA E IMAGINÁRIO SOCIAL – O PRIMEIRO DE MAIO, DE PIETRO GOR
3.3. O país do Estrangeiro: uma Utopia de tipo diferente
Articuladas com as metáforas primaveris, não foram poucas as mensagens de esperança que Primeiro de Maio transmitiu. Já nos artigos da imprensa anarquista, como afirmamos anteriormente, as metáforas da primavera são menos prolíficas. Isso porque, como vimos, os periódicos que analisamos foram todos publicados aqui, nas “zonas tropicais”. Se as imagens primaveris são escassas naquela imprensa, o mesmo não acontece com as mensagens de esperança. Tivemos já a oportunidade de entrever algumas delas em poemas, figuras e artigos analisados acima. Ligadas sempre à idéia difusa de um “porvir melhor”, as mensagens de esperança na imprensa anarquista associam-se também com a noção de revolução203.
Mas, afinal: o que seria, para um anarquista de então, o ideal triunfante tão almejado? Um bom indício desse ideal nós podemos detectar na análise do país de onde vem o intrépido Estrangeiro da peça. Já tivemos a oportunidade de conhecer um pouco das características desse país. Mas, para que possamos entender melhor essa terra, transcreveremos a descrição feita sobre ela pelo próprio Estrangeiro.
Já na cena 2, quando Ida pergunta ao peregrino (que acabara de chegar) como é o seu país, ele, transportado “pela evocação das lembranças”, afirma:
É ali... o país feliz... “verso la parte donde si leva il sole...” A terra é de todos como o ar e a luz. Os homens são irmãos... o trabalho honra a quem o executa e só os inválidos ou as crianças são os que não cultivam esse belo esporte... o ódio não existe; tudo é paz e amor... a única lei: a Liberdade... o único laço, o Amor... Para todos o bem-estar, para todos a ciência. A mulher não é a escrava, mas a companheira reconfortadora do homem. A miséria é desconhecida... A igualdade econômica e social para todos... Não há exércitos; as guerras são desconhecidas; o
203 A respeito das associações entre as mensagens de esperança e a projeção da Revolução, ver ainda os
artigos sobre 1º. de Maio publicados em A Greve (01.05.1903), La Propaganda Libertaria (01.05.1914) e
A Plebe (30.04.1921). No primeiro artigo, o autor (Elysio de Carvalho) faz um prognóstico bem alvissareiro: para ele, “o triunfo não pode estar longe”. Para o autor do segundo artigo citado, o 1º. de Maio faria acordar nos corações “um sentimento forte”, que impeliria o povo a tomar as praças públicas; promoveria também sonhos “com novos arrebores [sic] iluminados de esperanças”. Já o autor do terceiro artigo mencionado afirma que, não obstante todas as repressões desencadeadas pelo perverso sistema, nada impedirá o “advento da revolução que deverá em breve transformar a face da terra”
homem é livre para pensar e agir; as crianças são educadas sem dogmas: racionalmente... os velhos descansam no conforto do lar, rodeados pela juventude que alegremente entoa um hino de paz e de bondade. Este venturoso país, está ali... ali, “verso la parte donde si leva il sole”. Em toda a peça, esta é praticamente a única descrição que o “misterioso peregrino” faz de seu país. E o que é importante frisar é que apenas ela já basta para encantar todos (ou quase todos). Um outro episódio que, por via oblíqua, faz menção àquele país desenrola-se quando a ardente Ida descreve ao Jovem o sonho que ela tivera. No entanto, no relato que Ida faz ao noivo dessa visão onírica, ela apenas repete, em parte, a descrição que o Estrangeiro já fizera. Vejamos mais de perto a descrição daquele sonho.
Ida (extática, ao evocar a beleza de seu sonho) – A cidade misteriosa... o país feliz... A terra na qual o trabalho é brasão de nobreza. Em cujo seio o ócio não existe... A única lei é a liberdade... o único laço, o amor. Para todos o bem-estar... para todos a ciência. A mulher não é escrava, mas a companheira do homem.
Como podemos notar, em sua descrição do “venturoso país” com o qual sonhara, Ida contenta-se em apresentar, de forma breve e resumida, alguns elementos já presentes na descrição do Estrangeiro. Nada fundamentalmente diferente aparece em sua visão.
Vimos já que o país imaginário do Estrangeiro é de fato uma utopia. No entanto, que tipo de utopia seria essa? Podemos compará-la de forma direta com as demais utopias? Até que ponto tais comparações são (ou não) pertinentes? As questões que colocamos são, de fato, mais complicadas do que podemos supor. Para tentar solucioná- las, faremos uma breve genealogia dos modelos utópicos estruturadores. Em seguida, verificaremos até que ponto a terra do misterioso Estrangeiro aproxima-se (ou não) desses modelos. Para nos ajudar nessa difícil empreitada, recorreremos à análise feita por Bronislaw Baczko em um artigo intitulado (não por acaso) Utopia204.
O autor inicia sua abordagem debruçando-se sobre a obra homônima de Thomas Morus. Para Baczko, a Utopia do humanista inglês esconde “uma grande complexidade por detrás de uma aparente simplicidade”. Melhor dizendo, a obra de Thomas Morus “define um campo de multiplicidade de sentidos, prestando-se assim a leituras
igualmente múltiplas”205. Sem embargo - e de forma categórica -, o mesmo podemos
dizer sobre a peça de Pietro Gori e sobre o país de onde vem o Estrangeiro.
Para Baczko, a obra de Thomas Morus define o paradigma que influenciou durante séculos as produções literárias do gênero “utópico”. Entre os séculos XVI e XVIII, surgiram inúmeros romances e narrativas que, em linhas gerais, seguiram o modelo estruturador da Utopia do humanista inglês. São histórias de viagens imaginárias não destituídas de aventuras e emoções. Nelas, o corte espacial é recorrente: o lugar imaginário fica sempre algures, em uma terra distante daquela de onde vem o narrador. O episódio do desembarque naquele lugar segue também um modelo relativamente rígido: os aventureiros, em contato com a população nativa, enfrentam, no início, grandes dificuldades de comunicação. Por fim, uma característica central nessas obras “utópicas” refere-se às narrativas em torno da organização da “Cidade Feliz” imaginária. Praticamente toda a literatura que segue o “paradigma utópico” faz alusão a um “projeto de legislação ideal”. Nas obras do gênero, o papel de organizador da sociedade cabe sempre ao “grande legislador [...], cuja palavra e atos fundam uma história perfeitamente racional”206. É justamente isso o que ocorre na Utopia de Thomas
Morus. Portanto, esqueçamos por enquanto as obras a jusante; voltemo-nos à fonte, ou seja, à obra fundadora do humanista inglês.
Esqueçamos também os inúmeros pormenores que só interessam àqueles preocupados em entender a Utopia, de Morus, em sua completude. Aqui, o que nos atrai, principalmente, são as descrições que o personagem Rafael Hitlodeu207 faz daquela ilha imaginária – sobretudo as referências a sua organização social. Antes de mais nada, nos relatos de Hitlodeu, precisamos lembrar do papel desempenhado por Utopus, fundador e primeiro legislador de Utopia. Foi ele que, num passado já remoto, conquistou a ilha e conferiu a sua população a condição elevada em que ela se encontra. Foi Utopus também quem projetou as cidades edificadas a partir de então naquela ilha; cidades que, por sinal, seguiam todas um mesmo modelo. Elas eram tão iguais que, para
205 Ibid; p. 342. 206 Ibid.; p.357.
207 Na obra de Thomas Morus, Rafael Hitlodeu é um marinheiro experiente com quem o narrador teria
conversado em Antuérpia. Tal personagem teria viajado o mundo todo. Ele pertence àquela geração de navegadores que constituíram o que chamamos de Expansão Marítima; acompanhara Américo Vespúcio em suas viagens pelo Novo Mundo e conhecera inúmeros lugares exóticos e recônditos. Mas, além de marinheiro, Hitlodeu era também uma espécie de filósofo letrado que conhecia muito bem o latim e o grego. Além disso, gostava de refletir sobre os problemas humanos em geral. Sem hesitação, podemos considerá-lo um típico humanista do século XVI.
Hitlodeu, quem conhece uma conhece todas. Iguais também parecem ser os hábitos daqueles que vivem dentro delas. Todos os dias, em horas fixas, os toques de trombetas anunciam as refeições coletivas. Os utopianos até podem comer em casa, mas sacrificam esse direito em favor do prazer de saborear os deliciosos repastos junto aos demais citadinos.
Os habitantes das cidades vivem em casas que não lhes pertencem; aliás, de dez em dez anos, é realizado um sistema de sorteio e os moradores mudam de uma casa para outra (expediente que impede as famílias de enraizarem-se). As cidades de Utopia não crescem desordenadamente. Podemos dizer, inclusive, que elas nem sequer conseguem crescer. Isso porque cada uma delas é formada por 6 mil famílias. Como cada família pode ter no mínimo 10 e no máximo 16 adultos, cada cidade pode apresentar entre 60 mil e 96 mil adultos. Segundo Baczko, o “governo vela cuidadosamente pelo equilíbrio demográfico”208 de Utopia. Se uma cidade apresentar um número excedente de
habitantes, alguns utopianos podem ser deslocados.
Não é só no interior das cidades (ou entre elas) que se verifica um implacável sistema de rotação. Este também ocorre entre os habitantes das cidades e os do campo. Periodicamente, os moradores das primeiras eram designados para viver no segundo e vice-versa. Ora, se os habitantes de Utopia não podiam se fixar permanentemente em nenhum lugar, percebemos então que, na ilha imaginária, não existe propriedade privada - conseqüentemente, não se verificam nela grandes desigualdades sociais. Sendo assim, quem cuida da gestão pública em Utopia? No topo da administração existe um príncipe. Este não desfruta de um poder absoluto; pelo contrário, ele se submete a um Senado. Na base desse sistema de administração, as famílias encontram-se divididas em grupos de trinta; cada um desses grupos elege anualmente um magistrado. O conjunto de magistrados, por sua vez, escolhe o governador. Portanto, temos um modelo de administração que, em seus aspectos formais, assemelha-se muito com o de uma democracia parlamentar atual; ou, melhor dizendo, na definição do próprio Hitlodeu, tal modelo seria tipicamente republicano (qualquer possível alusão à República, de Platão, por certo não seria mera coincidência!).
No entanto, não devemos nos entusiasmar demasiadamente com as aparentes liberalidades de Utopia. Na verdade, como afirma Baczko, nela a “vida econômica, assim como a social, são rigorosamente ordenadas”. As roupas, por exemplo, são iguais
para todos os habitantes. Estes, apesar de trabalharem apenas seis horas por dia, estão proibidos de viver às custas dos outros: “A ociosidade foi banida da Utopia”209. Como
assim? Todo mundo trabalha da mesma forma e na mesma quantidade? Não, ainda estamos longe das ideologias socialistas do século XIX - Thomas Morus é um humanista do século XVI, não um militante de esquerda. Na sociedade por ele imaginada, aqueles que possuem talentos excepcionais devem dedicar-se exclusivamente aos estudos. Além disso, existe servidão na ilha imaginária! Os servos (estrangeiros e utopianos culpados de ignomínia) andam inclusive acorrentados. Aliás, a própria liberdade de locomoção é restrita em Utopia. Nela, aquilo que entendemos por “direito de ir e vir” está condicionado a uma autorização prévia das autoridades. Quem desrespeitar essa lei será punido com a servidão. Cá entre nós: tal modelo de organização encantaria os governantes de hoje em dia, não é mesmo? Esqueçamo-nos, no entanto, daqueles que não são dignos de memória. Voltemos ao que interessa no momento: a obra de Thomas Morus.
Muito já se disse a respeito do caráter autoritário dos modelos utópicos. De fato, baseando-nos no exemplo fornecido por Thomas Morus (criador, como vimos, do “paradigma utópico”), as expectativas em torno do que entendemos hoje por “liberdade” não são lá muito alvissareiras. No entanto, parece-nos que, com o passar do tempo (e por influência mesmo da obra do humanista inglês), o discurso utópico conquistou uma notável autonomia diante das narrativas literárias. A impressão que fica é a de que Thomas Morus, mesmo sem talvez o desejar, encorajou as gerações seguintes a criar, no plano narrativo, outros modelos utópicos que podem ou não estar de acordo com aquele de sua ilha imaginária.
Analisemos de perto o que diz Bronislaw Baczko a respeito da autonomia do discurso utópico.
[...] Pela força da imitação, as narrativas utópicas multiplicam-se e constituem por si sós uma longa série. Contudo, o discurso utópico não fica de modo algum preso ao modelo narrativo inventado por Morus. A utopia, enquanto representação da alteração social, da Cidade Nova situada num algures imaginário, depressa se revela multiforme no plano discursivo. [...] A utopia mantém, pois, relações múltiplas e complexas com as idéias filosóficas, as letras, os movimentos sociais, as correntes ideológicas, o simbolismo e o imaginário coletivos. As fronteiras das utopias tornam-se tanto mais móveis quanto mais abarcam a dinâmica social e cultural.
Oferecem estruturas de acolhimento às esperanças coletivas em busca de uma idéia moral e social, intervindo assim como agente ativo que contribui para a cristalização de sonhos confusos. As representações da Cidade Nova tornam-se deste modo um dos lugares, por vezes o lugar privilegiado, onde se exerce a imaginação social e onde são acolhidos, elaborados e produzidos os sonhos sociais.
Ou seja, parece-nos evidente que o discurso utópico não se reduz ao modelo instituído por Thomas Morus. Aliás, poderíamos mesmo afirmar que tal discurso não se reduz de forma mecânica (ou por força natural de derivação) a nenhum modelo rígido e previamente definido. É lógico que os padrões da narrativa utópica estruturam os confusos imaginários sociais, dando a eles uma forma discernível. No entanto, em suas complexas relações com tais imaginários, as estruturas narrativas não definem esquematicamente os conteúdos das representações coletivas. Tais conteúdos possuem vida própria; assumem características específicas que dependem, sobretudo, da dinâmica social de sua época – assim como dos princípios e valores com os quais eles se relacionam. Se, no interior da narrativa utópica, tais conteúdos adquirem uma forma definida, nem por isso eles se submetem irrestritamente ao rigor estrutural do gênero narrativo. Resumindo, podemos dizer que a Utopia de Thomas Morus definiu um padrão literário, mas nem de longe fixou um modelo utópico monolítico. Parece mesmo que a obra do humanista inglês abriu espaço para uma infinidade de exercícios lúdicos que se sucederam (e ainda se sucedem) no interior do “paradigma utópico” (ou mesmo em oposição a ele) e da literatura em geral.
Portanto, não devemos nos apegar demais ao modelo social instituído por Thomas Morus (como se ele fosse o único possível). Neste caso, reduziríamos a enorme complexidade do gênero utópico a um padrão monolítico de projeções com um fundo eminentemente autoritário. Nem por isso devemos sustentar a tese oposta, segundo a qual todas as utopias encerram a promessa de um mundo livre de opressões e misérias. É claro que a ilha imaginária de Thomas Morus (assim como várias outras construções utópicas que lhe seguiram) está bem distante de ser um modelo libertário de igualdade e liberdade. Nem mesmo uma sociedade democrática e liberal ela parece apresentar. É lógico que, nos relatos feitos por Hitlodeu, toda a rigidez da organização de Utopia é justificada pelo compromisso com a preservação da paz e a manutenção da felicidade geral de seus habitantes. Estes, em momento algum parecem insatisfeitos: em Utopia, praticamente não há discórdias; a harmonia entre os cidadãos reina quase plenamente.
Enfim, se a ilha imaginária de Thomas Morus e vários outros lugares utópicos parecem encerrar uma concepção autoritária de sociedade, o que dizer então do “país ditoso” do Estrangeiro na peça Primeiro de Maio? Seria ele também um modelo enganador de sociedade “ideal”? Por trás das imagens atraentes apresentadas pelo “misterioso peregrino”, haveria os germes de um mundo rígido e (por que não?) totalitário?
Para responder a tais questões, devemos, antes de tudo, analisar com atenção onde residem os elementos possivelmente autoritários das utopias clássicas. Não por acaso, utilizaremos justamente o modelo fundador criado por Thomas Morus; afinal, como vimos, sua influência foi (e continua sendo) forte nas narrativas utópicas subseqüentes. E, quando nos debruçamos sobre o modelo de organização criado em Utopia, logo ficamos surpresos com a imensa quantidade de detalhes que Hitlodeu oferece em sua descrição. O mundo por ele apresentado caracteriza-se por uma acentuada racionalidade organizacional. Trata-se de uma sociedade ordenada rigidamente; nela os traços individualizantes parecem desaparecer diante do projeto civilizador imposto, no passado, por Utopus; projeto que, diga-se de passagem, foi reproduzido com exatidão pelas autoridades que lhe sucederam. É a mesma racionalidade obsessiva que confere àquela sociedade uma irritante uniformidade. Todas as cidades são iguais, assim como as roupas utilizadas pelos habitantes da ilha. Até mesmo os horários das refeições são definidos por igual para todos. Os hábitos e costumes que regem a cotidianidade dos utopianos são regulamentados de forma esquemática e invariável.
A excessiva racionalidade esquemática da ilha imaginária de Thomas Morus transparece na descrição detalhada que Hitlodeu faz de sua organização. Parece-nos que, para provar a todos que aquele mundo é de fato o melhor, Hitlodeu não poupa palavras. Ele descreve, nos seus mínimos detalhes, cada pormenor que lhe pareça relevante na configuração organizacional daquela ilha. Não descuida nem mesmo de apresentar os padrões de comportamento reproduzidos pela sociedade utopiana. Ou seja, naquele mundo descrito por Hitlodeu, cada um tem seu lugar, cada lugar tem sua função e cada função é previamente estabelecida por aqueles que cuidam da res publica.
Atentemos então para um dado interessante: o que em Utopia, de Thomas Morus, sobeja, em Primeiro de Maio, de Pietro Gori, carece. Referimo-nos, é claro, aos detalhes descritivos que os respectivos autores oferecem sobre a organização e os
padrões de comportamento de seus mundos imaginários. Se em Utopia há detalhes minuciosos sobre como a ilha está organizada, em Primeiro de Maio temos apenas indícios vagos de como seria o país do Estrangeiro. O que este anuncia além de vagas promessas de felicidade e bem-estar? Sobre o “país ditoso” do peregrino de Primeiro de Maio, sabemos apenas que nele não existe miséria, o amor reina entre todos, não há exércitos (portanto, não há guerras) e todos trabalham – menos os inválidos e as crianças; estas, por sua vez, são educadas sem dogmas. Além disso, naquele mundo imaginário, as mulheres não são escravas. Agora, como seria a educação daquelas crianças? Para não haver miséria, como os bens seriam geridos naquele país? Se não há exércitos, quais os dispositivos de segurança diante de uma possível ameaça externa? Se essa ameaça não existe, por que isso ocorre? Não haveria riquezas a conquistar nesse país? O que seria feito com tais riquezas? Como elas seriam distribuídas entre os membros da sociedade? E o trabalho, como é organizado? Se todos trabalham, como são repartidas as funções entre os membros daquela sociedade? O leitor atento há de dizer: “Ora, se o Estrangeiro afirma que todo habitante `é livre para pensar e agir´, logo, cada qual escolhe seu trabalho”. Voltamos, assim, ao caráter difuso e vago da descrição que o Estrangeiro faz de seu país. Quais as atividades desempenhadas pelos que trabalham? Quantas horas por dia cada um dedica ao serviço? Além disso, o que sabemos, por exemplo, sobre os hábitos e costumes dos habitantes desse país imaginário? Nele há cidades? Em caso afirmativo, como elas são? Quais relações elas estabelecem com o campo? Será que há distinção entre rural e urbano? Por quê?
Todas essas perguntas ficam sem respostas. Impossível dizer, com exatidão, como é o mundo do Estrangeiro. Ele escapa a qualquer precisão mais esquemática; sua racionalidade não se deixa entrever – muito menos uma suposta uniformização organizacional ou comportamental. Se a Utopia de Morus está pronta e acabada, o país do “misterioso peregrino” parece estar por construir. Sabe-se apenas que ele está lá, no Oriente (“verso la parte donde si leva il sole”); mas, dizer exatamente como ele é parece-nos impossível. Ele é apenas uma tênue projeção ideal genérica, é aquilo que se almeja; tanto mais o desejamos quanto menos o conhecemos. Aliás, arriscamo-nos a dizer que seus encantos residem justamente no caráter difuso de sua projeção.
Se, como salientou Baczko, não podemos “reduzir a variedade das invenções utópicas a um denominador comum”, se “a tradição utópica é plural e múltipla”, é claro que cada utopia nos remete a um quadro próprio de princípios e idéias – assim como a
um período histórico específico. Neste sentido, podemos afirmar que existem utopias de diferentes tipos. Algumas apresentam projetos imaginários racionais e unificadores