2 QUANDO CONTRATOS DE COMUNICAÇÃO SE RENOVAM: ASPECTOS
3.1 CARACTERÍSTICAS DOS PARATEXTOS EDITORIAIS
3.2.3 A CAPA E SEUS ANEXOS
3.2.3.1 A primeira capa (ou capa)
A capa de um livro é tanto o seu invólucro quanto o seu pórtico, o seu “cartão de visita” (BABO, 1993, p. 125), e pode ser mais que um acessório, “pode ser uma obra admirável com significado próprio” (POWERS, 2008, p. 135), constituindo a própria identidade do livro.
As informações que um leitor atento pode extrair da capa são amplas:
En ella pueden encontrarse prácticamente completos los siguientes datos: protagonista, tema, conflicto, tono, género literario, intención, referencias intertextuales, tipo de relación intertextual. Estos indicios desplegados ante los ojos del lector/espectador de un álbum permiten a veces una anticipación directa, sin fisuras. (DÍAZ ARMAS, 2006, p. 34)74
Além disso, a capa sugere um destinatário. Na maior parte dos livros potencialmente destinados à infância, quatro elementos figuram quase que obrigatoriamente na primeira capa: o título da obra; o(s) nome(s) de autor (escritor e ilustrador); o nome e o logotipo da editora; a ilustração – seja uma ilustração de miolo escolhida para ser também a ilustração da capa, seja uma ilustração feita especialmente para ela.
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Tradução nossa: “Nela se podem encontrar praticamente completos os seguintes dados: protagonista, tema, conflito, tom, gênero literário, intenção, referências intertextuais, tipo de relação intertextual. Esses indícios apresentados diante dos olhos do leitor/espectador de um livro ilustrado permitem, por vezes, uma antecipação direta, sem obstáculos.”
Em geral, os elementos de maior destaque são o título e a ilustração. É o que ocorre nas capas dos livros Visita à baleia (2012, já referenciado no subitem anterior), e Zan (2014), com texto e ilustrações de Jean-Claude R. Alphen, publicado pela Manati. Se naquele (figura 19) a ilustração ocupa toda a página, nesse último (figura 20), é o título que sobressai, e inclusive nos chama a atenção não só por suas dimensões, mas também pelo alinhamento inusual da letra maiúscula do nome do protagonista que dá título à obra, grafada como uma letra capitular, de rara ocorrência nessa zona de peritexto e neste elemento peritextual, o título do livro.
No caso dos nomes dos autores, é bastante comum, quando o texto é constituído das partes verbal e visual, que o nome do escritor do texto literário preceda o do ilustrador e seja grafado com fonte de corpo maior. É o que acontece em Visita à baleia, em que o nome do escritor Paulo Venturelli apresenta-se antes do nome do ilustrador Nelson Cruz e com fonte de corpo maior (figura 20).
Outras informações podem figurar na primeira capa. As mais recorrentes são as seguintes: título e logotipo da coleção que o livro integra (como na figura 21, no alto à esquerda); indicação genérica; nome do tradutor ou do organizador; número de tiragem ou edição; menções a láureas recebidas pela obra ou por seus autores.
A primeira capa, em regra, cria expectativas no leitor, possibilitando-lhe realizar antecipações que poderão ser ou não confirmadas com a leitura do livro. Em Zan, por exemplo, muito provavelmente os personagens desenhados dentro das letras do título serão tomados como protagonistas da história, ou um deles poderá ser assim considerado. Mesmo a palavra Zan, incomum e sem marca de gênero masculino ou feminino, poderá dar ensejo a muitas hipóteses. Essa indefinição pode ser justamente o propósito do autor, e,
mesmo após a leitura do texto, certas hipóteses serão confirmadas ou não. Nesse sentido, as capas podem ser mais ou menos elucidadoras, mais ou menos ambíguas, mais ou menos atraentes.
Há casos de livros que apresentam duas primeiras capas. É o que acontece em O
cântico dos cânticos (2013), de Angela Lago, editado pela Cosac Naify (figura 21); e O menino, o cachorro (2006), de Simone Bibian, com ilustrações de Mariana Massarani,
editado pela Manati (figuras 22 e 23).
Em O cântico dos cânticos, a história de encontro e separação de dois amantes é contada exclusivamente por meio do texto visual. Como a capa e a cinta que lhe é sobreposta trazem as mesmas informações em suas duas faces – o título da obra e o nome da autora –, havendo dois logotipos da editora em cada uma das extremidades da lombada, a leitura do livro tanto pode começar de um lado como do outro, sem qualquer interferência indiscreta de elementos pré ou pós-textuais. O branco das guardas e a total ausência de peritextos de caráter verbal nas páginas de miolo do livro asseguram essa possibilidade intencionalmente forjada pelo projeto gráfico-editorial da obra.
Figura 21 – Capa com cinta do livro O cântico
Em O menino, o cachorro (figuras 22 e 23), as duas perspectivas de uma mesma história – a parte em que um menino ganha um cachorro, intitulada O menino, e a parte em que um cachorro ganha um menino, intitulada O cachorro – têm um desfecho único na metade das páginas do miolo. Cada parte da história é contada em dezessete páginas simples, sendo as páginas do desfecho – as duas páginas centrais duplas – comuns a ambas as partes, quando então menino e cachorro se encontram e passam a ter um ao outro.
A inexistência de quarta capa e a consequente duplicidade da primeira capa, da página com os dados técnicos da obra, bem como da página de rosto, dão a ilusão de que se trata de dois livros em um, intensificando-se, por meio desses elementos peritextuais, o jogo ficcional. Tecnicamente, trata-se de narrativas paralelas, contadas a partir de dois diferentes, mas complementares, pontos de vista, em um livro com um só ISBN e com a indicação do número total de páginas onde se inscrevem as duas partes da história. Esse jogo ficcional, possível justamente pela conformação original e criativa dos peritextos, corrobora a circularidade da estrutura narrativa e torna o livro um objeto que tem suas perspectivas estética e lúdica potencializadas ao máximo.