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Nossa principal hipótese investigativa é a de que os textos literários integrantes do

corpus primário, que abordam temas considerados polêmicos – “Conto de escola”, de

Machado de Assis, com a temática da corrupção moral; “De cima para baixo”, de Artur Azevedo, com a temática das relações autoritárias viciosas; “Será o Benedito!”, de Mário de Andrade, com a temática da imponderabilidade da morte –, reúnem elementos, em seus níveis situacional, discursivo e formal (semiolinguístico), que vão ao encontro dos interesses e das possibilidades interpretativas do leitor infantil, permitindo-lhe produzir sentidos com base em seus conhecimentos sobre os dois códigos – o da “vida” e o do “texto”. Para Hunt:

A experiência (ou “criação”) com o texto converge (ou causa o embate) entre dois conjuntos de códigos: os da “vida” (conhecimento do mundo/causalidade/probabilidade etc.) e os do “texto” (conhecimento de convenções, expectativa genérica, referência intertextual etc.). (HUNT, 2010, p. 116).

A inscrição do leitor criança torna-se viável justamente porque, ao serem reeditados, os textos literários, além de reunirem elementos e aspectos que permitem a esse leitor compreender o duplo código “da vida” e “do texto”, ainda se tornam partes verbais de textos híbridos, ou seja, de textos constituídos por dupla semiose, verbal e visual. Isso nos levaria à segunda hipótese: a de que os recursos semiológicos dos textos híbridos possibilitam a projeção de visadas específicas direcionadas ao leitor criança, tão afeito à linguagem visual, já que “a imagem arrebata o espectador de imediato, um impacto que,

posteriormente, pode ser compreendido e lentamente observado, tendo em vista a pluralidade de seus elementos” (RIBEIRO, 2008, p. 125). Esses elementos plurais da imagem visual a que Ribeiro se refere, e que Oliveira indica como seus aspectos constitutivos – a cor, o cenário, a perspectiva, o ritmo, a composição (OLIVEIRA, 2008, p. 50-71) – são decisivos para o redimensionamento dos textos literários que, inicialmente, só dispunham de imagens verbais, construídas exclusivamente por meios linguísticos.

Nesse sentido, consideramos que os contratos de comunicação literários renovados permitem-nos pôr em questão os textos literários em que a criança pode estar inscrita como leitor destinatário e, consequentemente, o próprio rótulo de “infantil” na caracterização da literatura que têm a criança como potencial sujeito destinatário. Por isso, entendemos que haveria dois aspectos decisivos que justificariam a inscrição da criança como leitor destinatário dos textos de autores-escritores canônicos e autores-ilustradores consagrados: i) a interação entre as partes verbal e visual, resultando em um único texto híbrido; ii) o modo de organização da mise-en-scène material e discursiva por meio dos elementos paratextuais, que emprestam ao dispositivo livro características que muito o aproximam do tipo editorial livro ilustrado. Essa seria nossa terceira hipótese.

Sabendo que todo texto é produzido em uma situação contratual e que, para significar, todo texto depende da situação de comunicação e daquilo que a caracteriza – a identidade dos parceiros da troca, a finalidade e a visada enunciativa, o propósito tematizante, o dispositivo que evidencia as circunstâncias materiais particulares –, conceber o livro que contém um texto híbrido como o locus, por excelência, do contrato de comunicação, implica investigarmos seus dois sistemas semiológicos, o verbal e o visual, tanto na esfera do texto quanto na do paratexto. Assim, o texto literário não precisaria ter a criança como leitor destinatário nele inscrito aprioristicamente. Ela poderia ser inscrita como leitor destinatário a posteriori. Essa seria, então, nossa quarta e última hipótese.

Nesse caso, quais seriam as marcas que nos permitiriam inferir a inscrição do leitor destinatário infantil nos três textos do corpus primário? Que ocorrências nos níveis situacional, discursivo e formal (semiolinguístico) justificariam a renovação dos contratos de comunicação literários desses textos? Tais indagações nos levam à seguinte questão: Quais estratégias semiodiscursivas renovam os contratos de comunicação literários para serem direcionados ao público infantil?

Essa questão nos faz chegar ao objetivo central desta pesquisa: investigar os modos de renovação de diferentes contratos de comunicação literários correspondentes às

edições mais recentes de três textos, dois do gênero conto – Conto de escola de Machado de Assis e De cima para baixo de Artur Azevedo – e um do gênero crônica – Será o

Benedito! de Mário de Andrade –, produzidos entre o último quartel do século XIX e a

primeira metade do século XX. Nessas edições mais recentes, os textos exclusivamente verbais de autores-escritores brasileiros canônicos transformam-se em textos híbridos verbo-visuais pelo trabalho dos autores-ilustradores Nelson Cruz, Marcelo Ribeiro e Odilon Moraes e pela iniciativa dos editores. Esses textos tiveram, inicialmente, o adulto como potencial leitor destinatário neles inscritos, mas nas edições do século XXI têm a criança como seu potencial leitor destinatário.

Esse objetivo central orienta nossa pesquisa, ensejando outras questões, quais sejam: que elementos conectam as narrativas híbridas publicadas neste início de século XXI aos interesses do leitor infantil? Que estratégias discursivas estão presentes nessas narrativas que nos permitem enxergar a inscrição da criança como seu principal leitor destinatário? Como se dá a correspondência e a colaboração entre os parceiros iniciadores do processo de encenação narrativa – escritores, ilustradores e editores? Qual o papel e a relevância dos paratextos editoriais nos contratos de comunicação literários estabelecidos nas edições renovadas? Por que as ilustrações transcendem o valor de paratextos, integrando as partes visuais dos textos híbridos? Esses questionamentos estão na origem dos seguintes objetivos específicos desta pesquisa:

i) Indicar e caracterizar os componentes das diferentes situações de comunicação dos contratos de comunicação literários analisados: parceiros da encenação narrativa, canais físicos e códigos semiológicos.

ii) Identificar, no interior da problemática de influência dos livros que correspondem aos contratos renovados, os mecanismos produtores de efeitos (visados), decisivos para a inscrição da criança como potencial leitor destinatário.

iii) Identificar nos paratextos editoriais – como tipografia, capa e contracapa, folha de rosto, biografia e nome de autor – as estratégias de legitimação e credibilidade ligadas aos ethé dos autores-escritores e autores-ilustradores, as quais visam a angariar a adesão especialmente do leitor infantil aos projetos literários dos contratos renovados.

iv) Analisar os modos de composição e de organização dos elementos peritextuais – formato e tamanho, tipografia, capa e seus anexos, instância

prefacial, entre outros –, demonstrando como seus efeitos de sentido são comuns aos três livros correspondentes aos contratos renovados.

v) Verificar como os elementos peritextuais são responsáveis pela inscrição do leitor destinatário criança nos textos híbridos.

vi) Analisar como os efeitos patêmicos das encenações narrativas intensificam-se por meio da interação entre as partes verbal e visual dos textos híbridos, provável responsável pela construção das estratégias semiodiscursivas de captação e pelos recursos empregados para “fazer sentir”.

vii) Analisar como os procedimentos de construção narrativa relacionados à cronologia, ao ritmo e à localização espaço-temporal são redimensionados pela interação entre as partes verbal e visual dos textos, verificando se as partes visuais podem intensificar o ritmo narrativo de modo a corroborar a inscrição da criança como potencial leitor destinatário dos textos.