• Nenhum resultado encontrado

2 DIAGNÓSTICO DO MUNDO CONTEMPORÂNEO E O COLAPSO DA

2.2 C RIME CONTRA A HUMANIDADE E A PATRÍDIA : O LEGADO DO TOTALITARISMO

2.2.1 Eichmann e a Banalidade do Mal

2.2.1.3 A prisão, o julgamento e a sentença

Eichmann foi raptado17 da Argentina em 11 de maio de 1960, pela

Polícia Secreta de Israel, quando descia do ônibus que o trazia do trabalho. Segundo depoimento, Eichmann afirmou ter percebido que estava sendo seguido e observado há alguns dias, mas não quisera fugir. Ficou preso em uma casa em Buenos Aires durante dias, amarrado numa cama, mas sem receber outro tipo de violência física. Em 22 de maio de 1960, chegou a Jerusalém, trazido por um avião da El-Al (Linhas Aéreas de Israel). De 29 de maio de 1960 a 17 de janeiro de 1961, ele foi interrogado pela polícia israelense; as gravações do interrogatório foram transcritas, corrigidas e aprovadas por Eichmann.

O julgamento de Eichmann, no Tribunal de Jerusalém, iniciou em 11 de abril de 1961 e teve a sentença lida em 11 de dezembro do mesmo ano. Para Arendt, o julgamento constituiu um grande espetáculo. Eichmann foi condenado nas quinze acusações que lhe foram feitas, com algumas poucas ressalvas. As acusações de número um a quatro diziam respeito a crimes contra o povo judeu; as acusações de números cinco a doze diziam respeito a crimes contra a humanidade e os itens de número treze a quinze o acusavam de pertencer a organizações criminosas SS, Serviço de Segurança (SD), Polícia Secreta do Estado ou Gestapo. Eichmann insistiu em afirmar que nunca matara ninguém efetivamente por suas próprias mãos, mas que apenas auxiliara e instigara a realização dos crimes e dessa acusação ele aceitaria a culpa. A cada uma das acusações ele se declarava “inocente, no sentido da acusação”. O promotor pediu a pena de morte e o advogado de defesa, Dr. Robert Servatius, alegou que o acusado havia cometido “atos de Estado”.

A estratégia da defesa consistiu nas afirmações de que Eichmann havia se tornado um “bode expiatório” do governo alemão, que não poderia ser condenado por um crime de responsabilidade “do Estado” e que deveria ser absolvido porque, conforme a lei argentina, seu crime havia prescrito em 7 de maio Eichmann tivesse sido omitido, o conteúdo da reportagem seria suficiente para identificá-lo, o que torna estranho o fato de o Serviço Secreto israelense o ter descoberto apenas em 1959.

17 Há muita controvérsia acerca da captura de Eichmann, que teria envolvido desrespeito a leis internacionais e à soberania da Argentina. Contudo, um acordo entre Israel e Argentina deu por encerrado o incidente em 03 de agosto de 1960. Arendt (1999, p. 256 e 260 – 263) sugere, como fonte de informação sobre a captura de Eichmann, o livro de Moshe Pearlman, The capture of Adolf

de 1960; além disso, a defesa alegou que, na Alemanha, a pena de morte havia sido extinta. Eichmann, em seu último depoimento, defendeu-se dizendo que, apesar de ter se esforçado ao máximo para dizer a verdade, não havia sido compreendido pela corte, uma vez que nunca desejara a morte de seres humanos e, tampouco, nutrira ódio aos judeus. Admitiu que sua culpa decorria da sua virtude de obedecer e do fato de que líderes nazistas abusaram dessa sua virtude. Ele se considerava uma vítima das falácias nazistas e aceitava que deveria sofrer pelas ações de outros, mas jamais assumiu ser o monstro cuja execução traria algum “conforto” aos que assim lhe chamavam. A sentença de morte foi proferida às nove horas do dia 15 de dezembro de 1961.

Em 22 de março de 1962, iniciaram-se as atividades da Corte de Apelação junto à Suprema Corte de Israel. A apelação de Servatius baseou-se no argumento de que uma injustiça havia sido cometida, em um Tribunal também injusto. Em 29 de maio de 1962, o segundo julgamento foi lido, confirmando todos os pontos das decisões da Corte Distrital. O julgamento da Corte de Apelação nada mais foi do que uma revisão do julgamento anterior, chegando a ponto de assumir a linguagem da acusação, ao dizer que Eichmann e seus cúmplices mantinham um “zelo fanático” pela Solução Final e uma “insaciável sede de sangue” pelos judeus (ARENDT, 1999, p. 271). Em 29 de maio do mesmo ano, o presidente de Israel recebe o pedido de clemência de Eichmann, redigido à mão, em quatro páginas, conjuntamente com uma carta da sua esposa e da sua família, de Linz. O presidente Itzhak Ben-Zvi também recebeu milhares de cartas do mundo todo solicitando clemência, mas rejeitou o pedido em 31 de maio de 1962. Poucas horas depois, Eichmann era enforcado. Seu corpo foi cremado e suas cinzas jogadas no Mediterrâneo, longe das águas israelenses.

Segundo Arendt, Eichmann foi para a execução com dignidade, não precisando de ajuda para caminhar até a câmara de execução e recusando o capuz para cobrir o rosto. Para ela, nos últimos momentos, Eichmann demonstrou ser quem sempre fora: necessitou de palavras, copiadas de outros funerais, que o animasse, e sua memória o traiu pela última vez, “esqueceu que aquele era seu próprio funeral” – isto ficou claro em suas últimas palavras: “Dentro de pouco tempo, senhores, iremos encontrar-nos de novo. Esse é o destino de todos os homens. Viva a Alemanha, viva a Argentina, viva a Áustria. Não as esquecerei” (EICHMANN apud ARENDT, 1999, p 274, grifos da autora).

É neste momento do relato de Arendt que a expressão “banalidade do mal” é apresentada: “Foi como se naqueles últimos minutos estivesse resumindo a lição que este longo percurso de maldade humana nos ensinou – a lição da temível

banalidade do mal, que desafia as palavras e os pensamentos.” (ARENDT, 1999, p.

274). Para Arendt, o mal que Eichmann cometeu não era como o dos shakespeareanos Iago ou Ricardo III; não havia nele nada diabólico ou monstruoso. O que ele sempre perseguira fora a ascensão em sua carreira burocrática e apenas isso o motivara, nunca ódio, cobiça ou inveja. Não se tratava de imbecilidade, mas de um distanciamento da realidade, pura irreflexão, superficialidade, muito mais devastadores do que os piores instintos reunidos. Ele era um homem comum, igual a muitos outros. Era tudo isso que, segundo Arendt, assustava tanto.