2 DIAGNÓSTICO DO MUNDO CONTEMPORÂNEO E O COLAPSO DA
2.2 C RIME CONTRA A HUMANIDADE E A PATRÍDIA : O LEGADO DO TOTALITARISMO
2.2.1 Eichmann e a Banalidade do Mal
2.2.1.2 O perpetrador do mal
Na tentativa de compreender o significado da banalidade do mal, acompanhar a trajetória daquele que deixou Arendt chocada é fundamental. Mesmo aturdida, ela foi capaz de efetuar uma elaboração conceitual que auxiliasse na compreensão do fenômeno contemporâneo da incapacidade de julgamento moral por parte de homens e mulheres, que permitiram a ascensão do totalitarismo. Segundo Arendt, o nazismo “criou” um novo tipo de crime (massacre administrativo, crime em massa) e um novo tipo de criminoso (muitas pessoas envolvidas em vários níveis e variadas atividades para a efetivação do crime); enfim, criou um mal sem precedente. Talvez seja impossível compreender a expressão banalidade do mal sem antes compreender quem foi Eichmann e quais foram seus atos.
Pode-se afirmar que essa é uma longa história11: Otto Adolf Eichmann
nasceu em 19 de março de 1906 na cidade alemã de Solingen. Era filho de Karl Adolf e Maria Eichmann e membro de uma sólida família de classe média, segundo os padrões austríacos da época. Em 1913, seu pai, funcionário da Companhia de
Bondes e Eletricidade, é transferido para Linz (Áustria), onde a família viveu por
vários anos. Eichmann era o filho mais velho, tinha três irmãos e uma irmã. Desses, apenas Eichmann não conseguiu concluir os estudos na escola secundária, tampouco na escola vocacional para engenharia, na qual foi matriculado quando
11 Todo o relato sobre a trajetória de Eichmann foi escrito tendo por base de pesquisa e referência o texto Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal, de Hannah Arendt. Portanto, as referências bibliográficas serão utilizadas apenas quando houver citação direta do texto de Arendt.
perceberam suas limitações. Apesar disso, em seus documentos oficiais, sua profissão sempre foi descrita como engenheiro de construção. Como sua habilidade para os estudos era pouco promissora, seu pai o tirou da escola e o fez trabalhar. Primeiro como trabalhador em uma empresa de mineração que seu pai havia comprado ao sair da Companhia de Bondes, depois como vendedor da Companhia
Elektrobau austríaca (1925-1927), mais tarde como vendedor viajante da
Companhia de Óleo a Vácuo de Viena, Áustria (1927-1933). Esse último trabalho,
segundo o próprio Eichmann, lhe fora oferecido, mas, conforme pesquisa de Arendt, o emprego lhe foi dado a pedido de um parente seu junto ao diretor-geral da companhia.
Em 1932, aos 26 anos de idade, Eichmann filiou-se ao Partido Nacional Socialista. Na primavera de 1933, quase que acidentalmente, entrou para a SS –
Tropa de Elite do Partido [nazista], primeiro como soldado nos campos de
Treinamento Militar da Áustria – por isso, muitas vezes, ele foi considerado austríaco, apesar de nunca ter abandonado a cidadania alemã –, depois como cabo e, mais tarde (1941), chegando à chefia da seção B-4, do Bureau IV do Escritório
Central da Segurança do Reich, em Berlim. Arendt explica que Eichmann não entrou
para o partido por convicção, o que poderia ser visto até como um mérito, uma vez que a ideologia nazista não buscava membros que pudessem ter opiniões e convicções, mas pela possibilidade de construir ali uma carreira promissora, uma vez que, aos olhos de sua família e de sua classe social e, possivelmente, a seus próprios olhos, ele era um fracassado, não tendo conseguido manter o mesmo
status da sua família de origem e sendo visto como um típico membro da baixa
classe média.
Segundo Arendt, Eichmann era ambicioso e pretensioso; entrou para a SS porque não aguentava mais o trabalho rotineiro da Companhia de Óleo a Vácuo, não suportava mais os fracassos e frustrações que sempre o acompanharam e queria fazer parte da História, das “colunas em marcha do Reich dos Mil Anos”. Contudo, mesmo na SS, seus fracassos continuaram: nunca passou de
Obersturmbannführer, equivalente ao posto de tenente-coronel. No Serviço de
Segurança da Reichsfüher SS – SD (órgão criado por Henrich Himmler com a
função de serviço de inteligência do partido), inicialmente (1934) foi designado para o Departamento de Informação, com a tarefa de arquivar documentos relativos à maçonaria e de criar um museu sobre ela. Logo depois (1935), foi designado para
outro departamento, inteiramente novo e responsável apenas pelos assuntos referentes a judeus. Seu novo chefe exigiu que ele lesse o clássico do sionismo, Der
Judenstaat, de Theodor Herzl, e Eichmann imediatamente se converteu ao sionismo
e passou a se ocupar definitivamente com a busca de uma solução política para a necessidade de criação de um estado judeu, bem como com a disseminação dessas ideias entre os colegas. Aprendeu algumas palavras em hebraico, o que lhe permitia ler, com certa dificuldade, um jornal iídiche12. Mais tarde, também foi aconselhado a ler História do sionismo, de Josef Böhm. Com estas leituras, estudou a organização do movimento sionista e passou a conhecer a estrutura da comunidade judaica. Apesar de ainda não poder ser considerado um perito da questão judaica, essas atividades foram suficientes à sua indicação para atuar como espião oficial dos escritórios sionistas e de suas reuniões. Eichmann casou, em março de 1935, com Veronika Lieb, com quem estava noivo havia dois anos. Para Arendt, esse casamento seguramente foi fruto das pretensões de carreira de Eichmann, uma vez que os funcionários casados tinham maior segurança no emprego e maiores chances de ser promovidos.
Em 1938, depois da anexação da Áustria ao Reich, Eichmann foi enviado para Viena (Áustria) com a tarefa de organizar um tipo especial e desconhecido de emigração, a “emigração forçada”. Todos os judeus foram forçados a emigrar13, independentemente de sua cidadania ou de sua vontade, isto é, foram
expulsos. O objetivo dessa atividade era tornar a Alemanha judenrein (livre de judeus). Eichmann recebeu, pouco antes deste período, uma promoção para o grau de tenente – tornara-se um oficial da SS, além de ter sido condecorado por seu vasto conhecimento acerca dos ideais e métodos de organização do sionismo. Assim, o posto de Chefe do Centro de Emigração dos Judeus Austríacos constituiu, aos olhos de Eichmann, a oportunidade mais importante de crescimento de sua carreira, que progredira, até então, a passos lentos. Eichmann não mediu esforços para executar, da melhor forma possível, sua tarefa: em oito meses, 45 mil judeus deixaram a Áustria (enquanto, no mesmo período, na Alemanha, apenas 19 mil foram expulsos); ao final de dezoito meses, 148 mil judeus deixaram legalmente a Áustria (cerca de 60% do total da população judaica do país).
12 Língua internacional dos judeus, mistura de alemão, línguas eslavas e hebraico. 13 Posteriormente, ao se tratar da questão dos apátridas, esse tema será retomado.
A Segunda Grande Guerra Mundial eclodiu em 1º de setembro de 1939 e, um mês depois, Eichmann é chamado para comandar o Centro para a Emigração Judaica, em Berlim. Essa transferência teria sido, para Eichmann, uma grande promoção se tivesse acontecido um ano antes, observa Arendt, pois a anexação do território Polonês ao III Reich trouxe consigo cerca de dois milhões e meio de judeus que “aumentaram” o “problema” que o regime alemão se colocava. “Emigração forçada” seria impossível em período de guerra e, com isso, a “especialidade” de Eichmann ficou obsoleta, uma vez que a “solução” do “problema” teria que ser efetivada por outras vias.
Seis ou oito semanas depois do ataque da Alemanha à Rússia (22/06/1941), Eichmann é informado diretamente por Reinhardt Heydrich da decisão de efetivar-se uma solução violenta ao “problema” judeu. Eichmann, a partir daí, passou a ser um “portador de segredos” e não mais um “portador de ordens”. Esse segredo era protegido por um juramento especial que quem dele tomasse conhecimento era obrigado a prestar, além de conter certas “regras de linguagem”, que eram usadas em correspondências e relatórios oficiais. Assim, “solução final”, “evacuação”, “morte misericordiosa” e “tratamento especial” significavam assassinato; “reassentamento” e “trabalho no Leste” significavam deportação; o próprio termo “regras de linguagem” era um código que designava mentira. Tudo isso era usado com o intuito de se manter a ordem e a cooperação entre os diversos serviços necessários para efetivação da “solução final”; era, no dizer de Arendt, como que um escudo contra a realidade.
Em setembro de 1941, Eichmann organizou as primeiras deportações em massa da Alemanha e do Protetorado Tcheco, logo após suas primeiras visitas aos campos de extermínio. Mas algo imprevisível aconteceu: vinte mil judeus alemães e cinco mil ciganos, que segundo as ordens deveriam ser enviados ao território russo de Riga ou Minsk, são enviados para o gueto de Lódz, por ordens de Eichmann, que sabia não haver nesse gueto qualquer preparativo para o extermínio. Contudo, o campo estava lotado e, mais tarde, o destino dessas pessoas acabou sendo mesmo Riga ou Minsk.
Para Arendt, a atitude de Eichmann poderia ser entendida a partir de uma única origem: sua incapacidade de pensar criticamente, de julgar por si próprio e de agir autonomamente. Segundo a autora, os problemas de consciência, não só de Eichmann, mas da maioria dos membros do Partido Nazista e do povo alemão
que permanecia calada, eram “resolvidos” pelos frequentes slogans, clichês e frases feitas, que concediam ânimo a todos. Além disso, a superfluidade e a atomização levaram os seres humanos a se fecharem na interioridade do seu Eu, de forma que a esfera pública do mundo já não lhes dizia respeito e ninguém mais se sentia responsável pelo outro ou pelo mundo. Para dar sentido a suas vidas insignificantes, a maioria optou por seguir o “trem da história”, abdicando de sua condição humana de singularidade e pluralidade, pensamento e ação. Eichmann, até o final, fora animado pelos clichês. Himmler foi o principal criador dos slogans que concediam ânimo a todos, como mencionado acima, sendo um dos mais famosos o que afirmava: “Minha Honra é minha Lealdade”, retirado de um discurso que Hitler teria proferido em 1931. Outra frase famosa, que “animava” os membros da burocracia nazista, era: “A ordem para resolver a questão judaica, essa foi a ordem mais assustadora que uma organização jamais recebeu”. Eichmann chamava essas frases de “palavras aladas”, pois, através delas, conseguia obedecer a todas as ordens, por mais insanas que fossem. Arendt percebe que, além dessas frases, a própria guerra, como Hitler havia previsto, também teve peso fundamental para resolver possíveis “problemas” de consciência, tanto dos membros do partido quanto de pessoas que tinha conhecimento da “solução final”. Como se via mortos por toda parte, passou-se a olhar a morte com indiferença. As próprias câmaras de gás também não eram coisas recentes – a primeira fora construída em 1939, para se fazer cumprir um decreto de Hitler que previa uma “morte misericordiosa” para pessoas com doenças incuráveis. Enfim, as câmaras de gás eram entendidas como “morte médica”, ligadas a programas de eutanásia.
Antes da ordem para a “solução final” do “problema” relativo à população judaica, alguns regulamentos prepararam o terreno; esses regulamentos foram adotados, com algumas modificações, em diversos países. Eichmann radicalizou no cumprimento desses regulamentos. Seu esforço foi na direção de que nenhum judeu lhe escapasse; para ele, o que importava era obedecer a ordem de tornar a Alemanha livre de judeus, judenrein14.
A execução da “solução final” necessitava dos esforços coordenados de todos os ministérios e serviços públicos, não apenas da aceitação do aparelho estatal do III Reich. Com o intuito de criar essa coordenação, foi realizada uma
conferência com os subsecretários de Estado, que ficou conhecida como
Conferência de Wannsee e aconteceu em janeiro de 1942 num subúrbio de Berlim.
Eichmann dela participou, exercendo a função de secretário. Apesar de haver previsão de dificuldades na obtenção de adesão dos funcionários de carreira superior do serviço público para a efetivação dos assassinatos em massa, a “solução final” foi recebida com entusiasmo por todos os participantes da reunião e nela foram apresentadas várias sugestões concretas para o extermínio de cerca de 11 milhões de judeus. A reunião provocou em Eichmann a certeza de que os assassinatos eram a solução para a “questão” judaica. Vendo-se diante das grandes personalidades do III Reich e da elite do serviço público, ambas afinadas com a solução sangrenta e disputando a liderança dessa solução, Eichmann sentiu-se livre de toda culpa: “[...] Naquele momento, eu tive uma espécie de sensação de Pôncio Pilatos, pois me senti livre de toda culpa [...].” (EICHMANN apud ARENDT, 1999, p. 130). A partir daquele momento, Eichmann tornou-se um perito em “evacuação forçada” e, de acordo com o relato da sua memória, efetivado nos interrogatórios que precederam seu julgamento em Jerusalém, tudo fluiu perfeitamente, tornando- se rotina.
Outros dois fatores que foram importantes para acalmar a “consciência” de Eichmann: o primeiro foi o fato de ele não ver absolutamente ninguém contrário à “solução final” e o segundo foi a enorme cooperação das próprias vítimas, os judeus. Para Arendt, o trabalho administrativo e policial dos judeus foi imprescindível para a efetivação da solução final; sem essa cooperação teria ocorrido verdadeiro caos e instauração de pânico que impossibilitariam a evacuação ordenada e calma que aconteceu15. A autora exemplifica as tarefas de cada um: a polícia judaica colaborou
na concentração e condução das pessoas até os trens e na prisão daqueles que tentavam se esconder ou fugir; os funcionários judeus colaboraram na confecção das listas de pessoas de origem judaica e de seus bens e propriedades, no controle dos apartamentos vazios, na entrega dos bens da comunidade em perfeita ordem para o confisco final e na entrega das Estrelas Amarelas, que identificavam os judeus.
15 Segundo Arendt (1999, p. 142), pesquisas apontam que, se não houvesse acontecido a colaboração dos Conselhos Judeus, teriam sobrevivido cerca de 40% a 50% dos judeus assassinados.
Os panfletos publicados na época e inspirados pelos nazistas demonstravam o quanto os funcionários e o Conselho Judeu Central apreciavam os seus novos poderes. Os conselhos eram responsáveis por selecionar os judeus que seriam enviados para os campos “comuns” e os privilegiados, que iriam para campos “melhores”. O Campo de Theresienstadt – que serviu de gueto especial para algumas categorias excepcionais, o único que a Cruz Vermelha teve autorização de visitar e que foi, estrategicamente, uma vitrine para o mundo – é um exemplo da cooperação entre os Conselhos Judeus e os nazistas.
Segundo Arendt, o fato mais incrível e surpreendente sobre esse tema foi que, nos campos de concentração, eram os comandos judeus os responsáveis pelo trabalho direto do extermínio (acionar as câmaras de gás, cuidar dos fornos de incineração, extrair os dentes de ouro das vítimas, enterrar as vítimas nas valas e depois desenterrar e incinerar para não deixar vestígios etc.).
Apesar da barbárie, alguns poucos souberam se manter contrários ao fluxo dos acontecimentos. O caso exemplar de resistência não violenta foi o da Dinamarca, que ousou falar com os poderosos alemães e proteger os judeus apátridas, opondo-se politicamente contra os nazistas. As estratégias dos dinamarqueses foram variadas, tais como: greve dos funcionários; revelação dos planos de invasão às casas de judeus; embarque de 5919 judeus para a Suécia, com o financiamento de ricos dinamarqueses e com a ajuda da frota pesqueira dinamarquesa.
Em outubro de 1944, com a aproximação da derrota dos alemães, Himmler ordena a demolição das instalações do Campo de Auschwitz. Contudo, Eichmann discorda desse tipo de procedimento e de qualquer tentativa de escamotear os procedimentos referentes à “solução final”. Por essa época, muitos oficiais nazistas, inclusive alguns subordinados de Eichmann, deixam de cumprir a ordem de extermínio com o objetivo de vir a barganhar vantagens pessoais, que iam desde acúmulo de dinheiro e riquezas – obtidos com a venda de judeus e com o confisco de seus bens – à tentativa de futuros acordos com os Aliados, com base na ilusão de que poderiam ser “perdoados” por terem poupado a vida de muitos judeus, ao invés de continuarem a assassiná-los.
Apesar de toda pressão, Eichmann não se “corrompeu”. Segundo ele, continuar leal ao Führer e a suas leis era seu dever. Ele começou a sabotar as ordens do agora moderado Himmler, por exemplo, organizando marchas a pé de
judeus desde Budapeste até a fronteira da Áustria (novembro de 1944), quando houve o colapso dos transportes, por bombardeio Aliado. Durante o julgamento de Eichmann, em Jerusalém, as testemunhas de acusação afirmaram que esse teria sido seu período de maior impiedade. No início daquele mesmo ano, Eichmann já havia se defrontado com situações parecidas como quando, ao ser enviado à Hungria (março de 1944) – o que caracterizou mais um rebaixamento em sua carreira –, precisou organizar a evacuação daquele país. Mesmo com a chegada do Exército Vermelho, que já se movimentava nos montes Cárpatos em direção à fronteira húngara, Eichmann obcecadamente consegue deportar para Auschwitz, em dois meses, 434.351 pessoas, em 147 trens, alocando cerca de cem pessoas por vagão lacrado. Nunca houve deportação e extermínio tão rápidos, constata Arendt.
Em janeiro de 1945, Eichmann começou a ser derrotado pela “ala moderada” dos oficiais nazistas – que pretendiam barganhar vidas poupadas por vantagens no pós-guerra – e sua tão sonhada carreira recebe o golpe final. Kurt Becher é promovido a Standartenführer, cargo que sempre despertara as ambições de Eichmann. Becher ficou responsável por todos os campos de concentração e Eichmann foi transferido para o insignificante departamento encarregado da “Luta Contra as Igrejas”. Desse momento até a derrota final da Alemanha, foram meses de total declínio para ele: permaneceu em Berlim sem nada para fazer, a não ser queimar todos os documentos de seu departamento. O departamento de Eichmann foi único a conseguir realizar plenamente a destruição dos comprometedores documentos; contudo, isso não foi suficiente para “isentar” seu departamento, uma vez que correspondências haviam sido expedidas dali e endereçadas a outros departamentos e, através dessas, os Aliados tiveram acesso aos arquivos de Eichmann. Além disso, ele se preocupava com as instalações de defesa para a batalha final de Berlim e acompanhava os delegados da Cruz Vermelha nas visitas a
Theresienstadt.
Em abril de 1945, Eichmann recebe uma ordem de Himmler: selecionar de cem a duzentos judeus importantes de Theresienstadt e acomodá-los em hotéis na Áustria. Himmler os usaria como reféns nas negociações com Eisenhower. Eichmann não conseguiu cumprir as ordens, pois não teve mais acesso a
Theresienstadt. Consegue chegar até Alt-Aussee (Áustria) e encontra Kaltenbrunner,
que lhe ordena formar um comando de guerrilha nas montanhas. Isso ele considerou digno fazer; reuniu alguns homens sem experiência, armou-os e se preparou para o
ataque, que não se concretizou, pois recebeu a última ordem de Himmler: não atacar ingleses e norte-americanos. Foi o fim para Eichmann, diz Arendt.
A derrota da Alemanha não tardou (08 de maio de 1945 – data oficial da derrota). Eichmann foi preso pelos norte-americanos, levado para um campo de concentração e submetido a interrogatório sem, contudo, revelar sua identidade. Sua esposa acreditou que ele havia morrido e tentou obter um atestado de óbito, sem conseguir. Veronika Eichmann e os três filhos foram deixados sem dinheiro e passaram a viver sob os favores da família Eichmann, em Linz.
Com o início dos julgamentos em Nuremberg, em novembro de 1945, o nome de Otto Adolf Eichmann passou a ser mencionado com frequência em declarações, tanto de réus quanto de testemunhas da acusação. Eichmann optou por fugir da prisão, o que fez com a ajuda de outros prisioneiros que sabiam da sua identidade. Por quatro anos ele permaneceu em Lüneburger Heide, 8 km ao sul de Hamburgo, onde trabalhou como lenhador e usou o nome de Otto Heninger. No início de 1950, conseguiu estabelecer contato com uma organização clandestina de veteranos da SS (ODESSA), que o auxiliou na fuga da Alemanha. Em maio de 1950, cruzou a Áustria e chegou à Itália. Lá foi recebido por um padre franciscano que lhe forneceu um passaporte de refugiado (apátrida) com o nome de Richard Klement e o enviou para Buenos Aires. Em Buenos Aires, obteve facilmente documentos com o nome de Ricardo Klement e autorização para trabalhar. Exerceu atividade em diversos empregos mal remunerados mas, mesmo assim, conseguiu retomar contato com sua esposa e, em 1952, trouxe a família para a Argentina. Após a chegada de Veronika e dos três filhos à Argentina, Eichmann conseguiu um emprego na fábrica