CAPÍTULO 2 EXERCÍCIO DO PODER DISCIPLINAR
2.1 A Sociedade disciplinar
2.1.4 A prisão
O início do século XIX marca um novo modo de punição: a prisão, instituição que ocupa a quarta parte do livro Vigiar e punir116.
Trata-se de um mecanismo de punição que sugere nova configuração das relações de poder, com novo significado político e diferentes propósitos.
O ritual solene, público, oneroso, ostensivo e doloroso, marcado por uma forma de poder soberana, personificada pelo rei, dá lugar a novos procedimentos: silenciosos, difusos, econômicos e sutis. O supliciado convola-se em prisioneiro. É o fim das penas físicas, dos suplícios. Aparece, enfim, a prisão.
Portanto, é de se identificar a presença de formas punitivas, procedimentos e resultados diferentes. Constata-se, dessa forma, em cada momento histórico, uma forma de exercício do poder.
Fala-se, pois, em “evolução” das formas punitivas relativamente a uma nova economia de poder, e não sob o ponto de vista de um aprimoramento, progressão e eficiência de mecanismos.
Foucault considera a instituição-prisão como uma forma “concentrada, exemplar, simbólica”117 de instituição disciplinar, certo que de
algum modo todas as instituições se caracterizariam pela forma discreta do modelo prisional.
116 A estrutura do texto conta com a seguinte divisão: a primeira parte trata do “suplício”; a segunda
cuida da “punição”; a terceira discorre sobre a “disciplina”; e, por fim, o texto refere-se à “prisão”.
O surgimento da prisão, como modelo de punição predominante da época, causa certa estranheza a Foucault, especialmente por revelar duas ambiguidades.
A primeira ambiguidade é identificada pela incompatibilidade que ela revela com os princípios que nortearam as propostas de reforma humanista preconizadas pelo direito penal no início do século XVIII. O movimento guiado pela reforma humanista pautava-se, basicamente, pela diversidade de penas a serem aplicadas, orientando-se pelos princípios da individualização das penas (que permitia a adequação da pena ao crime praticado, contando, para tanto, com as características pessoais de cada infrator) e proporcionalidade (que prestigiava a adoção de uma pena razoável, ante os diferentes níveis de gravidade da ofensa dirigida ao bem jurídico protegido). O modelo punitivo adotado, porém, apresentou um sistema de penalidade único: a prisão. Para todos os delitos, uma só pena: o aprisionamento.
A segunda ambiguidade relaciona-se a dois aspectos da prisão: o de seu sucesso institucional (já que generalizada e marcada por sua manutenção até nos dias atuais) e seu fracasso (sob o ponto de vista da recuperação do indivíduo e do controle da criminalidade).
A partir dessas ambiguidades, a pergunta inevitável: como justificar o nascimento da prisão?
A resposta foucaultiana esboça-se no sentido de que o nascimento da prisão não se deveu, essencialmente, ao desaparecimento do suplício e instalação de um novo tipo de punição alinhada a um processo de “suavização” das penas. O caráter humanitário da pena, em virtude disso, não dá conta de sustentar o seu aparecimento. Foucault pondera que a explicação
deve ser buscada a partir da noção de “suplemento disciplinar em relação ao jurídico”118.
Num certo sentido, significa dizer que a prisão não pôde ser concebida, exclusivamente, em termos estritamente jurídicos relacionados às teorias penais, mas, sobretudo, em termos disciplinares, pois a função disciplinar exercida no espaço institucional da prisão teria o condão de explicar a manutenção da prisão nas sociedades modernas, donde se conclui que a discussão sobre a prisão deve focalizar mais o domínio das relações de poder, e menos o domínio jurídico.
Para Foucault, a conjuntura que permitiu o nascimento da prisão relacionou-se a uma política de gestão dos ilegalismos, o que implicava “recuperar o problema dos ilegalismos, ou seja, o problema de qual seria o lugar da prisão na gestão da delinquência em face da sua utilidade econômica e política”119.
O termo ilegalismo não é sinônimo de ilegalidade. Não se limita à prática de um ato ilegal, antijurídico, contrário ao direito. É mais amplo. Articula-se com elementos extrajurídicos (políticos, econômicos e sociais), pois o ilegalismo remete à ideia de gestão de condutas ilegais, irregulares, efetivamente praticadas. A utilização da expressão irregulares sugere afastar a ideia intimamente ligada e restrita à lei120 e que se aproxima de uma espécie
de “margem de tolerância”121 que permite retirar a eficácia obrigatória de
regras. Estabelece-se, com isso, um rompimento do rigorismo da lei.
O ilegalismo faz circular um jogo de interesses e forças, de caráter político, econômico e social, num dado momento histórico, “em que muitas
118 FOUCAULT, M. Vigiar e punir. Rio de Janeiro: Vozes, 1997, p. 208.
119 FONSECA, M. A. Michel Foucault e o direito. São Paulo: Max Limonad, 2002, p.173.
120 O termo “lei”, em Foucault, não possui um conceito preciso, de modo que há várias formas da
noção de lei em seus trabalhos. Registre-se que os conceitos de “norma” e “lei”, no plano das práticas ligadas aos mecanismos de poder, apresentam implicações.
vezes legalidade e ilegalidade não se opõem no plano efetivo das práticas sociais aceitas”122. É, portanto, um regime funcional estratégico que opera no
interior de uma sociedade, segundo determinada legislação, em que não se identifica a existência de um sistema punitivo absolutamente neutro.
A prisão, nesse sentido, considera-se como um espaço disciplinar privilegiado capaz de funcionar os ilegalismos. Entende-se, a partir da perspectiva foucaultiana, que a prisão não é apenas uma forma de punição, não se trata somente de um espaço construído e organizado para fins de cumprimento de uma sanção jurídica tendente a restringir o direito fundamental de locomoção de indivíduos, mas exerce-se nela uma função mais complexa. Ela é, sobretudo, um local onde se desenvolve uma função disciplinar que permite a constituição de saberes, o exercício de mecanismos de poder e a produção de novos indivíduos. A prisão teria, assim, a “função de não mais punir infrações de indivíduos, mas de corrigir suas virtualidades”123.
Desse modo, a prisão volta-se ao controle e reforma psicológica de indivíduos, evitando-se a prática de futuros atos delitivos, estabelecendo-se, com isso, uma “ortopedia social”124, expressão utilizada por Foucault para
indicar a noção de um exercício de poder tendente a corrigir os indivíduos, e não apenas puni-los.
Tem-se que a penalidade do século XIX reporta-se a um controle sobre a periculosidade “não tanto sobre se o que fizeram os indivíduos está em conformidade ou não com a lei, mas ao nível do que podem fazer, do que
122 FONSECA, M. A. Vigiar e punir – 30 anos. São Paulo: Revista Brasileira de Ciências Criminais,
2006, p. 310.
123 FOUCAULT, M. A verdade e as formas jurídicas. Rio de Janeiro: NAU, 2003, p. 86. 124 Idem, ibid, p. 86.
são capazes de fazer, do que estão sujeitos a fazer, do que estão na iminência de fazer”125.
Com efeito, o sistema punitivo, à luz da nova função de controle sobre o comportamento dos indivíduos, ganhou outros contornos.
A tarefa de controle deixou de ser exclusivamente judiciária. Sedimentaram-se novas instâncias de poder, como as instâncias policial, penitenciária, médica, psicológica, dentre outras, que passaram a integrar o controle dos comportamentos dos indivíduos.
Identificam-se, assim, a existência de “poderes laterais”126 estranhos
à atividade típica judicial e que atuariam sobre a conduta dos reclusos. É o que sucede com o exercício de atividades administrativas desempenhadas por agentes penitenciários e diretores prisionais que exprimem certo controle e avaliação do condenado-recluso. A propósito, vale lembrar que o poder exercido no ambiente da prisão não deriva do Estado, de um órgão, uma classe social ou de qualquer outra instituição. O poder não tem propriedade. É mais estratégia. É funcional.
Trata-se de um funcionamento de poder polimorfo que não emana de um elemento centralizado e personificado. Ao contrário, o poder que nela circula é pulverizado, difuso, múltiplo, minucioso e disciplinar.
A prisão destaca-se, ainda, como uma instituição que mais guarda identidade com o modelo de funcionamento do desenho de Bentham, um emblemático esquema capaz de resolver questões relativas à vigilância no ambiente prisional.
125 FOUCAULT, M. A verdade e as formas jurídicas. Rio de Janeiro: NAU, 2003, p. 85. 126 Idem, ibid, p. 86.
Eis a prisão, forma institucional e modelo de vigilância garantidor do exercício do poder disciplinar, uma instituição própria de um tipo de sociedade a que Foucault designa por sociedade disciplinar.
À vista das noções envolvendo a sociedade disciplinar, é preciso apontar que o início do século XXI apresenta paulatina instalação de novas forças que, de certa forma, sugeririam o funcionamento de novos mecanismos de poder127. É, neste percurso, que se pretende esboçar um significado da
vigilância eletrônica de indivíduos-condenados.
127 Trata-se de novos mecanismos de poder relacionados à sociedade de controle, como indicado no