CAPÍTULO 4 – O SETOR SUCROALCOOLEIRO NO LITORAL NORTE
4.1 A PROBLEMÁTICA AMBIENTAL NA ATUALIDADE E O
Historicamente, o meio ambiente vem sendo gradativamente degradado e o alerta vermelho a favor da biodiversidade surge em virtude do aumento desordenado da poluição. Em um primeiro momento tem-se o desenvolvimento da atividade agropecuária, proporcionando o desmatamento em grande parte das matas e florestas, em seguida a degradação ocorre de forma mais intensa com o surgimento da Revolução Industrial e, na atualidade, o consumo desenfreado é o ponto forte para o aumento descomedido da degradação ambiental. A sociedade capitalista consome sem pensar, a tecnologia é renovada na mesma proporção que se renovam os produtos: celulares, tabletes, notbooks, netbooks, ipad, iphone, etc. Não se pensa em trocar os produtos por necessidade, mas para ter o produto mais moderno, mais atual e a natureza cada vez mais servindo de matéria prima para a compulsão consumista das pessoas e como depósito dos resíduos descartados que retornam a natureza.
Por conseguinte, Barbieri (2007) traz que qualquer ser vivo retira da natureza sua subsistência, contudo, seu descarte será decomposto e absorvido por outros organismos, não sendo desperdiçado nada. Contudo, tal situação não ocorre com o ser humano, este de fato utiliza o meio ambiente como recipiente de resíduos, poluindo e degradando a natureza.
Leff (2011) ao tratar sobre a racionalidade ambiental informa que nos anos 1960 a consciência ambiental surgiu com a Primavera Silenciosa de Rachel Carson, onde a autora alerta sobre o DTT (Dicloro-Difenil-Tricloroetano), um pesticida poderoso que penetrava na cadeia alimentar, acumulando-se nos tecidos dos animais, inclusive do homem, com risco de
causar câncer e danos genéticos. Já nos anos 1970 a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano em Estocolmo foi um grande passo para a percepção da crise ecológica. Leff (2011, p. 16) ao tratar sobre a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente em Estocolmo em 1972 aduz sobre os “limites da racionalidade econômica e dos desafios da degradação ambiental no projeto civilizatório da humanidade”.
Criticando o capitalismo, Alier (2007) fala que os países consideram o crescimento econômico, analisado através do Produto Interno Bruto – PIB, como o melhor fator para atenuar os conflitos oriundos da má distribuição de renda entre as classes sociais, haja vista que a economia crescendo pode amenizar as disparidades entre ricos e pobres, devendo, portanto, os pobres buscar o desenvolvimento para se livrar da pobreza. Com isso, o meio ambiente surge como artigo de luxo, quando muito, considerado de segunda ou terceira ordem.
É notório que os danos ambientais causados pelas atividades empresariais afetam a natureza e a própria sociedade, haja vista a dependência do homem em relação a natureza para sua sobrevivência, com isso, as empresas que, obviamente, visam o lucro, só têm a intenção de implementar uma gestão ambiental em seu empreendimento se tiver alguma vantagem pecuniária. No setor sucroalcooleiro, não é diferente, as usinas perceberam que a atividade agrícola no plantio da monocultura da cana de açúcar pode, através do avanço de pesquisas e da tecnologia, utilizam várias técnicas para aproveitar totalmente os produtos e os subprodutos da cana, além de realizar o marketing verde e conseguir abertura no mercado interno e externo.
As normas nacionais e internacionais surgem, conforme Barbieri (2007), com o intuito de contribuir e impor a diminuição ou mitigação dos impactos causados pelas atividades empresariais na natureza, atribuindo leis para combater a poluição no ar, na água, no solo, enfim, os empreendimentos têm que respeitar as normas ou sofrer as consequências punitivas caso seja detectado algum dano ao meio ambiente, desde penas pecuniárias a imposição de pena privativa de liberdade, quando for identificado algum crime ambiental.
Economicamente tem-se vários fatores positivos para a produção da cultura cananvieira: quantidade elevada de mão de obra de baixa qualificação, fomento da economia local, aumento de contribuições tributárias aos governos federal, estadual e municipal. Contudo a custa de muita discrepância em torno da atividade no que diz respeito,
principalmente aos problemas sociais e ambientais. A colheita manual da cana é um trabalho árduo e desgastante, enquanto que a biodiversidade no local perde espaço para a monocultura. A produtividade anual da cana-de-açúcar é influenciada pelas condições climáticas e pela região produtora. Os principais produtos obtidos através do processamento da cana são açúcar e álcool. Os produtos secundários são: bagaço, xarope, torta de filtro, vinhaça concentrada e melaço. O bagaço da cana é quase totalmente utilizado como combustível para algumas usinas, produzindo toda a energia mecânica e térmica necessária ao processamento da cana-de-açúcar. Enquanto que a vinhaça é utilizada como fertilizante, contudo, ainda persiste a queima da lavoura para o corte, o que produz emissão de gases tóxicos na atmosfera. Além disso, a plantação da cana na APA Barra de Mamanguape e na TI Potiguara proporciona vários conflitos socioambientais e fundiários, porque não se enquadra em um modelo sustentável.
O uso dos agrotóxicos pela indústria sucroalcooleira para controlar o crescimento de plantas daninhas e fomentar o crescimento da produção canavieira proporciona, contudo, a contaminação do solo, dos rios e dos aquíferos, prejudicando a saúde humana, a biodiversidade, além de causar danos para a própria agricultura, haja vista o empobrecimento do solo.
Os interesses em jogo são dos oligopólios, conforme SEBRAE (2005, p. 163), grandes marcas como Abbot, Navaris, Bayer e Ecoscience, mas interessadas no desenvolvimento de plantas transgênicas resistentes as pragas e na comercialização dos seus produtos. Portanto, não há preocupação com a biodiversidade ou a saúde humana, mas apenas com o crescimento econômico e a lucratividade. Tal situação ocorre em nível mundial, como bem observa Pinheiro, Nasr e Luz (1998, p. 140) ao dizer que não só no Brasil, mas em todo o mundo, as estruturas de governo foram transformadas em cartórios para proteger graciosamente os interesses das indústrias multinacionais. Os autores comentam ainda sobre a contaminação ambiental e alertam sobre a negação por parte das empresas e do próprio governo brasileiro da existência de venenos poderosos como as DIOXINAS e FURNOS, TCAB, TCAOB, além de outras substâncias maléficas contidas nos agrotóxicos.
De acordo com o IBGE, na Produção Agrícola Municipal – PAM (2012), a cana de açúcar foi o segundo produto na participação dos 20 produtos de maior valor na produção do Brasil em 2012, com 19,8%, perdendo apenas para a soja (24,7%). A cana teve 9.752.328 ha de área plantada ou destinada à colheita em 2012, sendo 9.705.388 ha de área colhida, com
721.077.287 toneladas de cana de açúcar produzida, tendo como rendimento médio 74.297 kg/ha, com uma variação da produção em relação ao ano de 2011 de -1,8%. O valor da produção da cana de açúcar em 2012 foi de mais de quarenta bilhões de reais (R$ 40.451.016.000,00), com uma variação do valor da produção em relação ao ano de 2011 de 3,1%.
Diante dos dados do IBGE, mesmo com a diminuição na produção de cana de açúcar de 2012 em relação ao ano de 2011, houve um aumento no valor da produção de cana de açúcar, com isso é uma atividade econômicamente lucrativa, porém que ocasiona impactos ambientais negativos, conforme Alexandre (2003), Zhouri e Laschefski (2010) e Lora (2000) no Quadro 04.
Quadro 04 – Atividade Industrial e os impactos ambientais negativos
ATIVIDADE INDUSTRIAL IMPACTOS AMBIENTAIS NEGATIVOS
Implantação da monocultura da cana de açúcar e do consequente desmatamento das matas;
Redução da biodiversidade;
Erosão do solo Assoreamento dos rios e diminuição do volume dos corpos hídricos
Adubação química, dos defensivos e herbicidas agrícolas, como também dos corretivos minerais
Contaminação dos rios e dos aquíferos e contaminação do solo
Utilização de máquinas pesadas durante a atividade agrícola
Compactação do solo
Queima da cana Emissão de fuligem que ocasiona gases de efeito estufa;
Concentração de renda Condições desumanas dos trabalhadores no corte da cana.
Fonte: Adaptado de Alexandre (2003), Zhouri e Laschefski (2010) e Lora (2000).
As atividades empresariais que possam causar algum dano ambiental à biodiversidade, para poderem funcionar devem ter uma licença ambiental, conforme Farias (2011). Desta forma, como é notório o impacto causado pela monocultura da cana de açúcar no meio ambiente, as usinas devem ter a licença ambiental para funcionar. Contudo, Melo (2011, p.
89) ao tratar sobre o Setor Sucroalcooleiro e as licenças ambientais em Pernambuco informa que:
“No caso dos empreendimentos sucroalcooleiros, eles não realizaram Estudos de Impacto Ambiental/Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) para a sua implantação ou modificação, nem obtiveram Licença Prévia ou de Instalação, pois quando do surgimento da legislação ambiental estas atividades já estavam consolidadas havia mais de quatro séculos.”
Esta mesma situação ocorreu no setor sucroalcooleiro na Paraíba, onde se pode observar através das entrevistas analisadas no Capítulo 5 que as empresas têm interesse no licenciamento ambiental em virtude de possibilidades de negócios internacionais, contudo, as licenças ainda não existem.
O licenciamento, segundo Farias (2011, p. 29) é um mecanismo que promove a interface entre o empreendedor, cuja atividade pode interferir na estrutura do meio ambiente, e o Estado, que garante a conformidade com os objetivos propostos na Política Nacional do Meio Ambiente.
As agroindústrias canavieiras necessitam de licenciamento ambiental para a realização de sua produção, haja vista a previsão legal na Resolução do Conama 01/86, para tanto desde sua instalação até sua produção e comercialização há a obrigatoriedade de elaboração de um EIA/RIMA e a emissão das licenças ambientais (LP, LI e LO), portanto, é uma atividade que depende da fiscalização do governo para poder funcionar. Contudo, as agroindústrias funcionam em virtude de autorização do poder executivo municipal que concede alvará de funcionamento, alegando as empresas que estão atuando dentro da legalidade, mas não há a expedição de licença ambiental pelo órgão competente.
Por sua vez, com relação ao mercado internacional, em virtude de suas exigências legais, há ainda a necessidade de certificações sejam empresariais ou ambientais. Assim, força a agroindústria canavieira, caso queira competir no mercado externo, à observação das regras de certificação.
Estudos feitos por Hanny e Rey-Sánchez (2009) para verificar a viabilidade da certificação da cana de açúcar e do álcool com base na norma NBR ISO 9001:2000, e os autores supracitados constataram que a certificação NBR ISO 9001:2000 é amplamente viável. Os autores também constaram que das empresas que possuíam a certificação,
alegavam ter vantagens competitivas perante a concorrência. É importante frisar que a ISO 9000 trata sobre a gestão de qualidade das organizações, sendo a ISO 9001:2000 aperfeiçoada no controle de processo, focando nos consumidores. Enquanto a ISO 14001:2004 trata sobre a gestão ambiental.
Barbieri (2007, p. 137) informa que a ecoeficiência é um modelo de gestão ambiental introduzido em 1992 e baseia-se na ideia de que a redução de materiais e energia por unidade de produção ou serviço aumenta a competitividade da empresa, ao mesmo tempo que reduz as pressões sobre o meio ambiente.
A International Organization for Standardization – ISO, segundo Barbieri (2007, p. 159) é uma instituição formada por órgãos internacionais de normalização criada em 1947, com o objetivo de desenvolver a normalização e atividades relacionadas para facilitar as trocas de bens e serviços no mercado internacional.
Conforme Barbieri (2007) a ISO 14000 possui as seguintes áreas temáticas: sistema de gestão ambiental, auditoria ambiental, avaliação de desempenho ambiental, rotulagem ambiental, avaliação de ciclo de vida e aspectos ambientais em normas de produtos.
Soratto, Varvakis e Horri (2007) concordam que a certificação tem um diferencial positivo no que diz respeito à facilitação das decisões de compra dos consumidores e a entrada em mercados mais exigentes. E conforme salienta Espíndola (2009), o processo de certificação do etanol combustível tem sido conduzido pelo poder público, pelo setor sucroalcooleiro e por diversos sistemas independentes. Porém, a realidade em muitas empresas deste setor ainda é o funcionamento sem a existência da licença ambiental, necessitando, com isso, de uma maior fiscalização dos órgãos municipais, estaduais e federais competentes para a verificação do respeito das empresas em relação à legislação ambiental e, consequentemente a própria sociedade deveria também ser rigorosa no consumo apenas dos produtos de empreendimentos que tenham responsabilidade social e ambiental.
A percepção empresarial concernente a preocupação ambiental está envolvida com um termo, denominado de ética, que segundo Leff (2011) surge com a valorização ou revalorização da vida do ser humano. Ou seja, a visão lucrativa empresarial deve ser colocada em segundo lugar, surgindo em primeiro a sadia qualidade de vida. Colocar esse pensamento em prática é difícil, mas não impossível basta ter vontade em empregar projetos ambientais empresariais e aproveitar boas práticas agroecológicas existentes, inclusive com os indígenas utilizando a etnoconservação.
O principal desafio dos empreendimentos é, segundo May (2003) operar em áreas ambientalmente sensíveis. A qualidade de vida da comunidade no entorno dessas grandes empresas são consideradas, em virtude da imagem que a empresa precisa repassar aos seus clientes/consumidores, portanto, as questões socioambientais são importantes para o empreendimento.
As condições de vida e a problemática ambiental são tratadas em todo o mundo, instigando questões, críticas e buscando soluções (CARVALHO et al, 2010). A relação entre meio ambiente e desenvolvimento é um assunto analisado pela população, mas também é um pensamento empresarial (MAY, 2003). As empresas são impulsionadas não apenas pelo lucro, mas em busca deste, precisam ser eco eficientes.