Partindo de um conceito de “rural” ambíguo e frequentemente contestado, tem sido extremamente difícil chegar a um consenso quanto à natureza específica do processo de desenvolvimento “rural”. Não há uma abordagem única de desenvolvimento “rural” e mesmo uma abordagem cada vez mais globalizante torna difícil, ou quase impossível, generalizar os problemas ou mesmo a sua solução (Diniz, 1999; Diniz e Guerry, 2002). Diniz e Guerry (2002) referem que a multiplicidade de definições tem, obviamente, dificultado a operacionalização do desenvolvimento “rural” através de políticas, programas e projetos promovidos direta ou indiretamente pelo governo. Na secção anterior argumentámos que o índice de centralidade dos centros urbanos permite identificar os concelhos com menor índice de centralidade, ou menor capacidade de polarização, em Portugal e que a década de 80 é marcada pela tensão existente entre a tendência que atenua as diferenças entre o rural e o urbano e a que reforça a sua distinção, reintroduzindo para esse efeito a noção de natureza. Neste âmbito, Lane (1994) argumenta que uma abordagem sustentável pode ser capaz de reconciliar as tensões existentes entre as forças de desenvolvimento “rural”, que procuram reverter o declínio rural, e as forças de conservação.
Segundo May e Revitt (2000) o que constitui a sustentabilidade tem sido igualmente tema de muitos debates e as suas interpretações variam significativamente. O conceito de desenvolvimento sustentável foi proposto pela primeira vez no relatório Our Common Future, preparado em 1987 pela Comissão Mundial para o Ambiente e o Desenvolvimento, onde foi definido como “o desenvolvimento que vai ao encontro das necessidades das gerações do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras em satisfazer as
Doutoramento em Turismo 37 suas próprias necessidades” (EU, 2006:31). A implementação do desenvolvimento sustentável assentava inicialmente em dois pilares fundamentais: o desenvolvimento económico e a proteção do ambiente. Neste âmbito, em 1992 na conferência das Nações Unidas sobre Ambiente e Desenvolvimento (CNUAD), realizada no Rio de Janeiro, designada por “Cimeira da Terra”, foi adotado um Plano de Ação para o desenvolvimento sustentável, elaboraram-se estratégias, programa e medidas integradas para suster e inverter os efeitos da degradação ambiental e para promover um desenvolvimento compatível com o meio ambiental e sustentável em todos os países (Gonçalves, 2007:85- 86). Após a Cimeira Social de Copenhaga, realizada em 1995, foi integrada a vertente social, como o terceiro pilar do conceito de desenvolvimento sustentável (Gonçalves, 2007).
O facto dos objetivos fixados na Cimeira de 1992 terem sido cumpridos de forma reduzida levou a que na Segunda Cimeira da Terra ou Cimeira da Terra + 5, realizada em 1997 pelas Nações Unidas o desenvolvimento sustentável assumisse entidade própria, podendo-se falar a partir desse momento, de “sustentabilidade integral” por se considerarem as dimensões ecológica, económica, social e cultural (Gonçalves, 2007:86). Hardy et al (2010) criticam a forma como o desenvolvimento sustentável tem sido aplicado e discutido na literatura académica da indústria turística e propõem que as futuras concetualizações de turismo sustentável abordem a comunidade local, da mesma forma que abordam a economia e o ambiente, através de processos como o envolvimento dos stakeholders. Neste contexto Gonçalves (2007: 85-86) refere que aos três pilares de desenvolvimento sustentável a dimensão institucional, que chama atenção para as questões relativas às formas de governação, das instituições e dos sistemas legislativos (flexibilidade, transparência, democracia) – nos seus diversos níveis – e para o quadro de participação dos grupos de interesse (sindicatos e empresas) e da sociedade civil (organizações não governamentais – ONG), considerados como parceiros essenciais na promoção dos objetivos do desenvolvimento sustentável deve constituir outro pilar do desenvolvimento sustentável. Isto significa, que a visão, objetivos e política da própria comunidade pode melhorar a qualidade de vida dos residentes e contribuir para o desenvolvimento. Embora seja impossível alcançar um conceito universal de desenvolvimento, existe consenso de
38 Doutoramento em Turismo que o desenvolvimento altera as condições de vida das pessoas, bem como o seu controlo sobre essas mesmas condições (Hoggart e Buller, 1987).
Assim sendo, “o desenvolvimento rural será visto como um processo intervencionista de mudança qualitativa, quantitativa e/ou distributiva, a que conduza, de uma maneira ou de outra, a uma melhoria das condições de vida de uma comunidade” (Diniz, 1999:97-99). Neste âmbito, o desenvolvimento “rural” sustentável implicará a articulação entre as várias dimensões da sustentabilidade, nomeadamente a sustentabilidade económica, social, cultural, ambiental e institucional (a dimensão do exercício da cidadania e da governação, por parte de todos os atores sociais implicados nos processos de desenvolvimento) (Lima 2008). De acordo com Choi e Murray (2010) este processo requer informação, educação e formação dos residentes, governo e empresários locais para aumentar o conhecimento público e criar as capacidades técnicas necessárias.
A União Europeia está caracterizada pela concentração espacial de polos de desenvolvimento económico, onde o capitalismo e o crescimento económico concentram- se nas forças mais produtivas de determinadas regiões, criando uma distribuição desigual do crescimento e disparidades económicas regionais (U.E., 2006). Assim, “a ambição de alcançar a convergência económica e bem-estar a longo prazo entre as regiões Europeias, necessita de ser complementada por políticas de coesão social, capazes de endereçar estes desequilíbrios entre os indivíduos, com uma dimensão territorial capaz de abordar as disparidades espaciais” (EU, 2006:85). Neste âmbito, a União Europeia (2006) refere que o desenvolvimento sustentável do setor do turismo está totalmente em linha com os objetivos de coesão de um desenvolvimento equilibrado do território da União. Esta argumentação fundamenta-se no facto do turismo ter o potencial de contribuir para uma distribuição mais equilibrada das atividades económicas e das oportunidades de emprego no território da União (U.E., 2006).
O desenvolvimento do turismo e, sobretudo, o turismo sustentável não segue os mesmos padrões de outras atividades económicas, considerando que a economia do turismo é uma indústria que se baseia maioritariamente em pequenas empresas, permite uma maior disseminação dos benefícios na economia e na sociedade, contribuindo assim para o
Doutoramento em Turismo 39 objetivo de convergência (U.E, 2006). Por outro lado, o turismo requer força laboral, formada e sem ser formada e, por norma, concentra-se fora dos maiores polos de desenvolvimento (U.E, 2006). Como consequência, as pessoas e regiões mais variadas podem beneficiar disso, incluindo as áreas e regiões menos povoadas com dificuldades de acesso. Desta forma, os objetivos de desenvolvimento sustentável aplicados à atividade turística podem garantir a sua boa gestão sob condições económicas e sociais, enquanto contribui para a proteção ambiental, incluindo a preservação dos patrimónios da União Europeia (U.E., 2006).
Assim, na segunda metade de 1990 o desenvolvimento do turismo sustentável tornou-se uma prioridade para as instituições da Comunidade Europeia e a Comissão propõe a promoção do desenvolvimento das suas atividades na Europa (Saturnino, 2009). Existem muitas dificuldades na implementação dos princípios da sustentabilidade numa economia de mercado livre e uma das formas consiste na criação de estratégias de gestão e de desenvolvimento sustentável (Landorf, 2009; OCDE, 1994). Neste âmbito, a Agenda 21 tem como objetivo “desenvolver e implementar medidas efetivas de planeamento de uso do solo que maximizem os benefícios potenciais do turismo sobre o ambiente e a economia, enquanto minimizam eventuais prejuízos ambientais e culturais” (OMT, 1998:23). A maioria das medidas implementadas através da Agenda 21 baseia-se a nível local, embora as campanhas nacionais tenham de assegurar esse processo (U.E., 2006). Ao nível internacional, a temática do desenvolvimento do turismo sustentável é abordada pela Comissão das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável que, em 1999, adota a decisão 7/346,requerendo o desenvolvimento e implementação de políticas e estratégias nacionais para o turismo sustentável, baseadas na Agenda 21 (U.E., 2006). Em 2002 é realizada a Cimeira da Terra em Johannesburg, e o seu plano de implementação, e o turismo passa a ser considerado uma área política prioritária para alcançar o desenvolvimento sustentável (U.E., 2006).
Contudo, as estratégias de sustentabilidade mencionadas na Agenda 21 têm tido uma aplicação limitada devido à complexidade de conseguir-se alcançar um verdadeiro sistema económico, ambiental e social integrado (Basiago, 1998, citado por Landorf, 2009). Segundo a União Europeia (2006) a Agenda 21 Europeia para o turismo, enquanto
40 Doutoramento em Turismo estrutura comum, poderá contribuir para a implementação de estratégias coerentes de turismo sustentável nos respetivos Estados Membros. Este processo teve início em 2001 e inclui uma avaliação integrada da atividade turística, através da U.E., o desenvolvimento de uma estratégia integradora para o setor e a elaboração de indicadores harmonizados de desenvolvimento sustentável para o turismo (U.E., 2006).
A União Europeia (2006) considera os seguintes objetivos de sustentabilidade para o turismo Europeu: i) a promoção da proteção do ambiente e do desenvolvimento sustentável; ii) repensar o lugar do turismo na economia regional através da conceção de objetivos estratégicos específicos e de meios de implementação; iii) melhorar a cooperação entre regiões e Estados Membros numa base territorial, contribuindo para o aumento da convergência e coesão das regiões dentro da União; iv) melhorar a colaboração entre os vários atores envolvidos no turismo em todos os níveis de governação, através da disseminação de parcerias entre as autoridades públicas e entre atores públicos e privados, permitindo maior responsabilidade social e aumentando a consciência dos produtores e consumidores sobre a sustentabilidade; v) apoiar as iniciativas que atuam para uma implementação do turismo sustentável através de um financiamento adequado, incluindo a contribuição do turismo para financiar a proteção dos patrimónios natural e cultural.
1.7 Conclusão
Ao longo deste capítulo foi possível verificar que existe uma série de limitações e de diferentes pontos de vista para definir o turismo (e o “turismo residencial), quer pelo lado da procura, quer pelo lado da oferta. Neste contexto, alguns investigadores encaram o “turismo residencial” e as “segundas residências” como fazendo parte da esfera da atividade turística, enquanto outros consideram que as “segundas residências” constituem a interseção entre o turismo e a migração, bem como ainda outros associam o “turismo residencial” às novas formas de habitabilidade das sociedades modernas. Ao considerarem- se os resultados obtidos nos capítulos 2 e 6, desta tese, foi possível concluir que a “segunda residência” não é um alojamento turístico e que a pernoita em alojamentos turísticos será o critério mais adequado para definir turismo (e o turismo residencial). Nesta perspetiva, o
Doutoramento em Turismo 41 alojamento turístico é o local onde hóspede não tem a sua residência e fornece estadas oneradas de forma regular (ou ocasional), enquanto a “segunda residência” corresponde apenas a uma das residências de pelo menos uma família/indivíduo.
Por outro lado, tendo-se reconhecido igualmente a diversidade de sentidos e significados sociais do termo “rural”, bem como a diversidade e variedade de tipologias adotadas constatámos que o índice de centralidade dos centros urbanos permite identificar os concelhos com menor índice de centralidade, ou menor capacidade de polarização, em Portugal. Concluímos ainda que uma abordagem sustentável de desenvolvimento do turismo nestas áreas, pela articulação da sua vertente económica, social, cultural, ambiental e institucional, é a mais capaz de reconciliar as tensões existentes entre as forças de desenvolvimento “rural”, que procuram reverter o declínio rural, e as forças de conservação. A relação entre o regresso dos emigrantes portugueses (e as suas residências no local de origem) com o desenvolvimento do turismo sustentável nas regiões mais carenciadas será outro tema a desenvolver na secção 4.5, do capítulo 4.
Doutoramento em Turismo 43 Capítulo 2
A distribuição espacial das “segundas residências” em Portugal
2.1 Introdução
No capítulo 1 foi possível efetuar uma análise conceptual dos termos turismo, turismo residencial, alojamento turístico e desenvolvimento “rural” – variáveis-chave desta investigação. Com este capítulo pretende-se analisar a distribuição espacial das “segundas residências” em Portugal, no sentido de perceber a sua relação com o setor do turismo ou, pelo contrário, com as migrações em Portugal. Deste modo, começamos por desenvolver esta análise demonstrando a relação entre a localização das “segundas residências” com os