LOCAL DIST.
3.5 Os fatores push e pull na mobilidade dos emigrantes
Tendo-se concluído nas secções anteriores que as remessas dos emigrantes, quando canalizadas para atividades orientadas ao crescimento, e o seu regresso aos locais de origem, que são as áreas “rurais” em análise nesta tese, podem contribuir para o seu desenvolvimento pretendemos de seguida analisar a mobilidade da população “rural”, com o objetivo de identificar os fatores push e pull. Deste modo, os vários estudos publicados em Portugal referem como principais razões da evolução do fenómeno que, durante a década de 60 e primeira metade da de 70, conduziu ao êxodo de emigrantes isolados e de famílias inteiras, hoje radicadas em diversos países e cidades de imigração, a falta de
Doutoramento em Turismo 117 emprego e de salários que perspetivassem um futuro mais digno e seguro (ver por exemplo Arroteia, 1985; 2001; Arroteia e Fiss, 2007; Althoff, 1985; Baganha e Góis, 1999; Ferrão, 1996; Ferreira, 1976; Gonçalves, 2007; Leeds, 1983a; Murteira, 1965; Poinard, 1983a; Portela e Nobre, 2001; Rocha-Trindade, 1976). As causas da emigração para as ex colónias, que ocorreram no mesmo período, apontam no mesmo sentido (ver Dias, 2008). Para além disso, a emigração portuguesa não terminou entre 1973-1974 e registou um aumento em finais da década de 1980 e no início da década de 1990 (Ferrão, 1996; Lucas, 1997). Contudo, a década de 1990 foi claramente marcada por uma redução progressiva dos fluxos estimados e especialmente pela afirmação de uma lógica de emigração temporária, envolvendo formas de movimentação “pendular” de longa distância e de larga amplitude com alguns países da EU (Alemanha, Reino Unido, França) (Ferrão, 1996; Malheiros; 2005).
Segundo Peixoto (2007) mesmo ignorando muito do novo contexto da emigração, são objetivos económicos, de modo a maximizarem o rendimento que auferem num qualquer trabalho no estrangeiro, visando a melhoria das condições de vida, que ainda incitam os portugueses a abandonar, mesmo que temporariamente, as regiões de origem - as mesmas que continuam a não conseguir preencher as suas necessidades. Isto significa que um fluxo relativamente pequeno de emigrantes ainda deixa o país todos os anos à procura de trabalho tanto nos destinos tradicionais como em novos destinos (Malheiros, 2005). Neste sentido, face à diversidade de correntes migratórias portuguesas, Baganha (1994) refere que houve uma passagem de correntes essencialmente compostas por emigrantes trabalhadores para predominantemente compostas por familiares de trabalhadores emigrantes entre 1978 e 1985 e novamente, nos últimos anos, no regresso à dominância da componente trabalho.
De acordo com o Conselho da Europa (citado por Arroteia, 1998:51) as principais dificuldades com que se debate a população de jovens emigrantes, apesar das medidas tomadas pelos países de origem e pelos países de imigração, devem-se fundamentalmente a uma escolaridade medíocre resultando, por sua vez, em problemas linguísticos e de adaptação sociocultural; acesso ao emprego em condições desfavoráveis, na sequência de uma escolaridade reduzida por falta de formação profissional adaptada, de informação
118 Doutoramento em Turismo quando da escolha da profissão, impossibilidade, de facto ou de direito, em exercer determinadas profissões; referência a duas culturas com o risco de não se identificar com nenhuma e perder toda a identidade; marginalização em relação à vida cívica e política do país onde nasceram e onde passaram grande parte da adolescência; e incerteza quanto ao lugar onde viverão no futuro. Rato (2001) refere que no quadro de estudos dedicados à problemática do regresso dos portugueses que tinham emigrado para os países da CEE, durante a década de 60 e primeira metade da de 70, os resultados de alguns dos inquéritos sobre o perfil económico-social e até psicológico dos emigrantes retornados têm um âmbito geográfico e temporal limitados e, dessa forma, a extrapolação dos respetivos resultados tem de ser efetuada com cuidado.
Deste modo, entre os inquéritos realizados destaca o estudo de Silva et al de 1984, onde foram realizados 692 inquéritos, cobrindo os seguintes concelhos: Viana do Castelo, Vila Verde, Macedo de Cavaleiros e Gondomar (Região Norte); Estarreja, Oliveira do Bairro, Seia e Sabugal, (Região Centro); Pombal, Coruche e Almada (Lisboa e Vale do Tejo); Loulé (Algarve). Os autores do referido estudo referem que o regresso dá-se ainda, para a maioria deles, durante a vida ativa, com uma duração média de vida ativa relativamente elevada e destacam a necessidade de dinamizar a criação local de postos de trabalho e de promover a formação profissional do emigrante retornado, assim como a de toda a restante mão-de-obra) (ver também os estudos publicados por Amaro, 1985; Gonçalves, 2007; Martins, 1967; Poinard, 1983a; Roca, 1999; Rocha-Trindade, 1988, citado por Gonçalves, 2007). Para as novas gerações, particularmente de filhos de emigrantes que ficaram em Portugal enquanto os pais trabalhavam no estrangeiro, as oportunidades também se encontram bloqueadas dentro do seu próprio país (Silva et al, 1984). Neste contexto, em relação aos retornados portugueses, Pires et al (1987) referem que procuraram instalar-se nas regiões do país onde viviam as suas famílias e/ou onde mais facilmente conseguiriam obter um emprego (sobretudo na área metropolitana de Lisboa).
Segundo Arroteia (1998) a manutenção dos que ainda vivem na aldeia de origem dos seus familiares irá depender do desenvolvimento futuro da indústria, dos serviços, da agricultura e da própria emigração, uma vez que na ausência de novos postos de trabalho e de perspetivas, mais sedutoras, de entrada no mercado de emprego, agravar-se-ão, pelo
Doutoramento em Turismo 119 desânimo e falta de incentivo, as possibilidades de promoção social porque aspira esta população. Neste contexto, Unger (1986) argumenta que um maior nível de desenvolvimento na área de origem dos emigrantes regressados também influencia o seu processo de reintegração, caso contrário a tendência será para voltarem a reemigrar. Deste modo, se forem criadas condições sustentáveis de crescimento nos países de origem, com vista ao seu desenvolvimento, reduzir-se-ão as diferenças de rendimento entre os países de origem e de acolhimento e, consequentemente, diminuirá a emigração e aumentará o regresso (Gonçalves, 2007). Neste sentido, o desenvolvimento influencia o regresso, na medida em que dá origem a fatores de atração e fixação das populações. Tal como refere Amaro (1985) as potencialidades contidas no regresso dos filhos dos emigrantes não terão um grande impacte no desenvolvimento regional se continuarem a atuar na sua forma espontânea, carecendo de incentivos e orientação.
A par da dificuldade em encontrar trabalho (mais sentida nos concelhos rurais), o estudo de Silva et al (1984) também refere que a adaptação à vida local é considerada como o principal problema sentido pelos emigrantes quando regressados a Portugal (sendo menos sentida pelos emigrantes regressados a residir em concelhos rurais), seguindo-se outros problemas económicos. Neste contexto, Arroteia (1998) argumenta que o estreitamento dos laços de amizade é um dos fatores preponderantes de integração na sociedade local dos jovens emigrantes regressados. Estando os emigrantes regressados familiarizados com o destino, onde têm amigos e familiares a residir, as barreiras e os custos psicológicos do regresso serão menores comparativamente com os indivíduos que chegam pela primeira vez (Gmelch, 1986). Segundo o estudo de Gmelch (1986) a variável que mais se relaciona com o grau de adaptação dos emigrantes regressados é a satisfação com a vida social, daí a importância das relações sociais e da aceitação por parte da população local.
De acordo com Amante (2006) os emigrantes portugueses que fixaram residência nas zonas urbanas mais próximas não deixam enfraquecer os laços de pertença aos seus locais de origem, voltando sempre que têm oportunidade, como uma estratégia de reforço da cultura e identidade locais. A maioria dos seus descendentes tem uma biografia de ligações ao sistema económico afetivo, o espaço aldeão durante as férias de verão, que funcionam como um componente importante das sociabilidades familiares e contribuem para alargar e
120 Doutoramento em Turismo aprofundar as redes de sociabilidade entre os descendentes (jovens franceses de “raiz” e filhos de emigrantes de outras origens) e outros jovens de origem portuguesa (Carvalheiro, 2007:155). Neste sentido, as visitas regulares das comunidades de emigrantes constituem uma estratégia para a manutenção dos laços sociais no local de origem e contribuem para a sua reintegração e decisão sobre o regresso definitivo (Duval, 2004). Segundo Duval (2004) este nível de reintegração está acima e para além da unidade familiar individual. Por outro lado, quando os objetivos económicos delineados à partida são atingidos os fatores afetivos de ligação à família e à terra são os que assumem maior peso na decisão de regressar (Amaro, 1985; Martins, 1967; Rempel e Lobdell, 1978; Silva et al, 1984). Neste sentido, a generalidade dos estudos realizados revela que cerca de 90% dos emigrantes dizem ter regressado para a mesma freguesia onde viviam antes de emigrar, que a idade favorece o regresso ao local de origem, que é muito mais nítido no caso dos concelhos “rurais” e também mais acentuado para os emigrantes regressados a trabalhar no setor agrícola (94%) do que nos setores não agrícolas (85%) (ver por exemplo Amaro, 1985; Cepeda, 1988; Gonçalves, 2007; Lewis e Williams, 1986; Lucas, 1997; Poinard, 1983b; Portela e Nobre, 2001; Rocha-Trindade, 1976; Rocha-Trindade, 1992; Serrão, 1985; Silva et al, 1984). Embora se constate que a idade favorece o regresso ao local de origem, pelas razões já apresentadas, Ferrão (1996) argumenta que esta situação também é mais provável quando não existe cordão umbilical da propriedade fundiária, que permite estabelecer, como sucede com outros grupos, uma ponte com o mundo não urbano. O estudo de Lewis e Williams (1986) acrescenta ainda que o reduzido número de regressos dos retornados às áreas de origem (43%) deve-se à falta de laços pessoais com o país após vários anos como colonos e também ao facto de 10% ter nascido fora.
Neste âmbito, a investigação de Gonçalves (2007) identifica como motivos apresentados para justificar o sentimento de pertença dos emigrantes portugueses, o nascimento e a origem como vetor principal de ligação ao país escolhido (78,9%). Salienta igualmente que o segundo motivo, com 21,1% das respostas, é a duração da estadia e a vivência no país de origem. A investigadora argumenta que esta relação de pertença está claramente representada quando a análise se cruza com a naturalidade dos sujeitos e o desejo de regressar a Portugal aparece como uma realidade para qualquer escalão etário considerado.
Doutoramento em Turismo 121 Para além disso, refere ainda que a influência do grau de ensino alcançado pelos inquiridos não parece ser tão evidente no que diz respeito ao desejo do regresso a Portugal, bem como também é relativamente maior para os mono cidadãos do que para os duplos. De acordo com Caspari (1985:197) a integração ou participação no estilo de vida urbano e industrial “francês” é resistido e a relativa segurança material é acompanhada pelo materialismo e individualismo, associados a valores negativos e ao declínio no padrão moralista. Ao contrário, Portugal representa um sistema moral e cultural coesivo caraterizado pela extensão da família, vivência na aldeia, vitalidade da religião e convívio (Caspari, 1985). Neste sentido, é a imagem de um passado “tradicional” e de uma cultura “rural” autónoma que é enfatizada e incutida pelos emigrantes portugueses da primeira geração aos seus filhos (Caspari, 1985).
Segundo Grindle (2000) embora o desemprego seja a causa principal da emigração e do regresso, atuando como uma força push, existem outras forças que atraem os emigrantes para uma região, tais como a proximidade à família e amigos, o ambiente social e físico da vida “rural”, os baixos níveis de criminalidade e um estilo de vida relaxado. Deste modo, quando o emigrante considera o regresso os fatores push e pull são muito diferentes e baseiam-se nas suas experiências na área de acolhimento. O mesmo investigador refere ainda que, a ligação à família e ao lugar tem prioridade sobre os salários mais elevados e que as oportunidades de emprego na comunidade de origem são a condição mínima e não a motivação principal para regressar (ver também Champion e Vandermotten, 1997; Errington e de Persson et al, citado por Bryden e Bollman, 2000). Entre os vários estudos realizados sobre os fatores que influenciam uma maior qualidade de vida Champion e Vandermotten (1997) referem o baixo nível de poluição, de criminalidade, bons cuidados de saúde e o baixo custo de vida.
De acordo com Ferrão (1996) a mobilidade geográfica evolui no sentido de valorizar outras formas de circulação não estritamente migratórias, pelo alargamento e intensificação dos movimentos pendulares diários, bem como multiplicação dos casos de mobilidade residencial não acompanhada por alterações no que se refere ao local de emprego. Deste modo, a mobilidade de pessoas (e de empresas) para as áreas “rurais” não é apenas determinada pela disponibilidade de trabalho e de outras oportunidades económicas, mas
122 Doutoramento em Turismo também pelos novos valores colocados nas áreas “rurais”, como por exemplo um ambiente puro, vida comunitária, espaço para lazer, paisagens agradáveis, estilos de vida, cultura “rural”, etc., e ainda, em alguns casos, a disponibilidade para construções redundantes e o baixo custo da habitação (Bryden e Bollman, 2000; Stewart, 2001). Face ao exposto, reconhecemos que a mobilidade da população “rural” tem sido condicionada por condições locais e de atração nas áreas rurais. Por outras palavras, as oportunidades de emprego e de rendimento têm-se revelado como fatores push e pull na influência dos emigrantes regressarem a Portugal. No entanto, são a condição mínima e não a motivação principal para o regresso, uma vez que a ligação à família e ao lugar (ou estilo de vida “rural”) constituem-se igualmente como fatores pull.
3.6 O associativismo como estratégia de coesão da identidade das comunidades