3. Enquadramento da Prática Profissional
3.3. Contexto funcional
3.3.3. A Professora Cooperante: “D’Artagnan”
Ao conhecer a PC compreendi rapidamente, que era uma pessoa diferente das outras. Em 24 horas conseguia fazer muitas mais do que uma pessoa normal, pois possuía uma capacidade enorme de gerir e organizar tudo à sua volta. “Tina Mais Cedo” era o que lhe chamávamos em segredo, posteriormente revelado, em que “Tina” descendia da abreviatura do seu primeiro nome e “Mais Cedo” era algo que a caracterizava devido à sua capacidade de querer sempre organizar e planear tudo atempadamente e com responsabilidade. Foi uma característica que ao longo do ano letivo a nossa PC nos tentou transferir, mostrando-nos as imensas vantagens de um planeamento prévio. Aprendemos que ao preparamos algo com antecedência então reservamos mais tempo para aperfeiçoar os nossos projetos e assim garantir o sucesso e tratar de possíveis imprevistos que possam acontecer.
Este nome, apesar de engraçado, não tinha qualquer relação com descortesia ou divertimento, pois o nosso respeito e admiração pela PC eram gigantescos!
Considero que a nossa PC tinha perfil, não só para ser PC, mas também para ser tudo o que desejasse, pois nunca vi pessoa tão dedicada e convencida de que tudo é possível com empenho. Como afirma Reina (2013, p. 87) “ser professor cooperante, é uma responsabilidade e um desafio e requer
ter-se perfil. O professor cooperante tem muita responsabilidade na imagem que dá da educação física aos futuros professores”. A imagem que nos dava
sobre a EF, percebia-se através das nossas reuniões e da observação das suas aulas.
Nas reuniões, sempre nos tentou transmitir que deveríamos saber argumentar sobre a importância da nossa disciplina, defender a EF e não deixar que fosse discriminada ou ridicularizada por outros. Devíamos ter o cuidado e atenção de planear todas as aulas, por mais experientes que fossemos, mostrar aos alunos a nossa paixão pelo desporto para que esta pudesse ser transmitida para eles e escolher exercícios motivadores mas que, ao mesmo tempo, fossem portadores de aprendizagem para os alunos.
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Devíamos também estar abertos à inovação e não nos confortar com a utilização contínua dos mesmos exercícios e da lecionação das mesmas aulas, atender à individualidade dos alunos e trabalhar por níveis, mas sem pecarmos pela descriminação dos alunos menos capacitados.
O mais surpreendente é que se via na forma de estar e de lecionar da nossa professora todos esses ensinamentos que nos tentava transmitir. A PC era uma pessoa sincera e com coragem, que não tinha qualquer receio em falar quando discordava, conseguindo manter um bom clima. Defendia o seu parecer sempre que necessário e esforçava-se para dar soluções aos problemas encontrados. Estes problemas diziam respeito a si ou às suas turmas, pois quando eram problemas nossos, a professora incentivava-nos à procura das nossas próprias respostas e soluções.
A sua procura por novas situações ou métodos de ensino era incansável e, na minha perspetiva, era por causa disso que gostava de ser PC. O EP permita-lhe ter renovados convívios com os EE que traziam novas abordagens da FADEUP de ano para ano. Ao ser PC poderia estar sempre a atualizar-se, pois era uma pessoa muito interessada e que se preocupava em conceber um PEA cada vez melhor e, assim, melhorar a conceção da EF que está instalada. Acima de tudo, via-se que gostava do que fazia e, “para ser professor
cooperante, é necessário gostar de ser professor, gostar da escola, gostar do que se ensina, ser entusiasta, aceitar a inovação, aceitar desafios e confrontos, ter paixão pelo exercício físico e ser capaz de passar esse gosto aos nossos alunos e estagiários” (Reina, 2013, p. 88).
A PC não só sabia motivar os seus alunos, como sabia motivar-nos a nós e esse era um dos seus métodos. Valorizava muito as nossas ideias e ouvia-nos, demonstrando-se sempre interessada pelos nossos devaneios.
Existia muita sensibilidade da parte da professora que se refletia na preocupação que tinha connosco em vários aspetos. O EP era apenas um deles. Todos os dias, fosse num intervalo, numa reunião, num almoço, existia sempre espaço para ouvir um desabafo dos seus EE. Não só ouvia como procurava confortar-nos.
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Todas as terças-feiras tinha o cuidado de perguntar os resultados dos nossos jogos do fim de semana, se tínhamos jogado, se tínhamos ganho, etc. Deixava-nos envolver-nos pelo nosso relato e no fim riamos todos juntos. Também nós (NE) nos preocupávamos com o bem-estar da nossa professora. Apesar de acontecer raras vezes, não gostávamos de a sentir triste ou desanimada e, por isso, nesses dias tínhamos o cuidado de não deixar nada por fazer do EP, de contar uma anedota ou uma história animadora, de criarmos ainda melhor ambiente que o costume.
Relativamente às aulas a PC permitiu que lecionássemos com as nossas bases e a nossa conceção. Sempre que entendeu, avisou-nos que algo poderia não correr bem, outras vezes deixou-nos errar para aprender. Questionou-nos várias vezes qual o objetivo daquela aula ou daquela situação de aprendizagem, pondo à prova o nosso conhecimento e nossa capacidade de argumentação e explicação.
Nos planos de aula, começou por corrigir muito, mas foi-nos dando cada vez mais autonomia e menos correções que defendia que já deviam estar consolidadas. Após as aulas punha-nos a refletir sobre elas, por vezes sem abordar qualquer problema, outras vezes conduzindo-nos ao cerne da questão que falhou em aula, pois “é na formação inicial que se devem lançar as bases
que permitam reconhecer a autonomia como uma característica central no trabalho docente, a fim de que percebam que os saberes que caracterizam a profissão se entrelaçam numa estrutura complexa de conhecimento e ação, que se materializa, de forma muito pessoal, nas aulas que cada um leciona”
(Rodrigues, 2013, p. 95).
Quanto à nossa atuação na escola, tendo em conta que os nossos objetivos eram altos, a PC permitiu que pudéssemos explorar vários papéis e desde organizar torneios e atividades, exprimirmo-nos nas reuniões ou até ser tutores, sem nunca criar qualquer objeção. Contudo, certificou-se sempre que tínhamos tudo planeado e que sabíamos o que estávamos a fazer, para que não existissem conflitos ou surpresas desagradáveis.
Outra coisa que a Professora me ensinou e que pude transportar para a minha vida fora do estágio era que “a vida não é sempre uma linha reta”, pois
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existem muitos imprevistos e caminhos diferentes que se podem tomar. Sempre fui uma pessoa que se enervava quando algo não decorria como o previsto e era muito intolerante às falhas dos outros. Porém, esta professora fez de mim uma pessoa mais ponderada e madura, que mantinha a calma nos imprevistos e respeitava as posições dos meus pares. “O orientador deve
ajudar a contribuir para manter um bom clima relacional, que contribua para a criação de condições condizentes com o propósito de desenvolvimento, não só profissional, mas também humano, assim como ajudar o estagiário a desenvolver competências de reflexão, de autoconhecimento, de inovação e, acima de tudo, que o professor em formação desenvolva o gosto pelo ensino” (Rodrigues, 2013, p. 101).
Os meus colegas do NE, por vezes, até brincavam dizendo que a professora Cristina era a minha segunda mãe. Porém, na verdade, ela era a segunda mãe de nós os três. Formou-nos não só para sermos melhores profissionais, mas também para sermos melhores pessoas e isso, é na verdade o que um professor de EF deve fazer com os seus alunos. Não só deve ensina- los a praticar os vários desportos como deve educá-los.
Foi desta forma que a PC entrou na nossa vida e a influenciou de tal forma que se tornou um dos principais agentes da nossa formação. Além disso, ofereceu-nos a sua amizade e revelou-se uma das melhores pessoas que já conheci.