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3.4 A AMPLITUDE DOS EFEITOS DA DECISÃO INJUNCIONAL

3.4.4 A proposta de Barroso e a amplitude da jurisdição

Barroso sustenta sua tese no malogro dos objetivos principais do instituto da

injunção, isto é, no fato de que a maior parte dos direitos constitucionais carentes de

regulamentação

não foram implementados.

Distanciando-se

das duas teses

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predominantes no cenário da omissão legislativa, o autor sustenta a hipótese de que o

magistrado competente para o processamento e o julgamento de qualquer ação constitutiva

ou condenatória, fundamentando-se no princípio da máxima efetividade das normas

constitucionais

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, concretizaria a norma jurídica faltante que obstasse a fruição dos direitos

aplicando o art. 4º, da LICC, in verbis: “Quando a lei for omissa, o juiz decidirá o caso de

acordo com a analogia, os costumes e os princípios gerais de direito”.

Não se justifica, a propósito, o temor, freqüentemente verbalizado, de que a adoção de uma posição como a da presente proposta – ou mesmo a versão mais efetiva do mandado de injunção, defendida pela maior parte da doutrina – importaria no

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A linha do STF é a de não assumir uma competência de cunho normativo, mesmo que transitória ou limitada ao caso concreto. De outra parte, a doutrina majoritária professa um entendimento que permite a solução do caso concreto, sanando-se a omissão (BARROSO, 2001a, 268).

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O fundamento da presente proposta é o seguinte: toda norma constitucional é dotada de eficácia jurídica e deve ser interpretada e aplicada em busca de sua máxima efetividade (BARROSO, 2001a, p. 268).

exercício excessivo de competências normativas pelo Poder Judiciário. Não há hipótese de isto acontecer. Confirme-se (BARROSO, 2001a, 268).

A teoria baseia-se na classificação tipológica do autor. O fato de que somente as

normas definidoras de direitos

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, cuja eficácia e efetividade estejam condicionadas à edição

de uma norma infraconstitucional, dão azo à impetração do mandado de injunção levou

Barroso (2001a, p. 270) a propor a extinção instrumento constitucional de tutela, certo de

que o mandado de injunção “tornou-se uma complexidade desnecessária”. Mais simples,

rápida e prática seria a utilização da integração caso a caso, a ser perpetrada pelo juiz

natural da demanda, munido do permissivo legal de concretização do art. 4º, da LICC.

Ademais, a previsão da aplicabilidade imediata dos direitos e garantias

fundamentais (expressa no art. 5º, §1º, da CF) viabiliza a utilização do referido instrumento

de concretização normativa (BARROSO, 2001a, p. 144-145).

Barroso escamoteia o problema atribuindo às normas definidoras de direitos a

tarefa de predominantemente os prever e, assim o fazendo, legitimar ações judiciais

condenatórias de obrigação de fazer, conversível em perdas e danos.

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Isso porque os

direitos fundamentais são imediatamente aplicáveis e vinculam direta e ativamente o

legislador, é dizer, sua futura regulamentação não se insere na esfera da discricionariedade

legislativa: deve o comando ser efetivamente concretizado, sob pena de responsabilidade

do Estado.

No tocante à legitimidade desta atuação criativa do poder Judiciário, inexiste qualquer razão para infirmá-la. Já deixamos consignado que em uma democracia é não apenas possível, como desejável, que parcela do poder público seja exercida por cidadãos escolhidos com base em critérios de capacitação técnica e idoneidade pessoal, preservados das disputas e paixões políticas. A falta de emanação popular do poder exercido pelos magistrados é menos grave do que o seu envolvimento em campanhas eletivas, sujeitas a animosidades e compromissos incompatíveis com o mister a ser desempenhado [...] É possível concluir, ante o exposto, que ao Judiciário cabe sempre fazer prevalecer a Constituição, quer suprimindo os atos normativos com ela incompatíveis, quer suprindo as omissões legislativas que embaraçam sua efetivação (BARROSO, 2001a, p. 169-170).

Baluarte da teoria barrosiana é a reformulação do §1º do art. 5º, via emenda

constitucional

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, viabilizando o suprimento da lacuna pelo magistrado e selando

eternamente a discussão acerca da amplitude e efeitos do mandado de injunção:

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As normas constitucionais de organização não comportariam a impetração da ordem de injunção porque de eficácia plena e detentoras de ordens objetivas endereçadas aos órgãos públicos, dificilmente poderiam gerar qualquer pretensão individual fundada em omissões normativas. As normas programáticas, ainda na classificação de Barroso, não comportariam o writ injuncional porque indicariam fins a serem seguidos pelos órgãos públicos, sem especificar a conduta a ser adotada, isto é, não ensejam a exigibilidade de qualquer conduta positiva. Lembra o autor: “O máximo de eficácia e efetividade que se pode extrair de uma norma programática é a exigibilidade de conduta negativa, de abstenções. Pode-se, por exemplo, pretender a invalidação de atos emanados do poder público que embaracem a pesquisa ou que dificultem (em lugar de fomentar) práticas desportivas. Não muda o caráter programático da norma o fato de ela fazer menção a direito, se a estrutura do dispositivo claramente revela não ser esta a hipótese, como, v. g., ocorre com o art. 215, caput. Normas programáticas, portanto, não ensejam a impetração de mandado de injunção” (BARROSO, 2001a, 269).

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É o caso do art. 205, caput, c/c art. 208, I, da CF, que prevêem que “a educação, direito de todos e dever do Estado...” será efetivada “mediante a garantia de ensino fundamental, obrigatório e gratuito...”. Caso ausente a prestação dos serviços educacionais mínimos, cabe ao particular aforar ação condenatória em face do Estado objetivando o usufruto do direito constitucionalmente previsto.

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Na proposta de emenda constitucional publicada no livro O Direito Constitucional e a Efetividade de suas normas, Luís Roberto Barroso (2001a, p. 270) inclui no art. 2º do referido projeto a seguinte revogação expressa: “Art. 2º. Fica revogado o

§1º. As normas definidoras de direitos subjetivos constitucionais têm aplicação direta e imediata. Na falta de norma regulamentadora necessária ao seu pleno exercício, formulará o juiz competente a regra que regerá o caso concreto submetido à sua apreciação, com base na analogia, nos costumes e nos princípios gerais do direito (BARROSO, 2001a, p. 270).

A solução possui dois claros problemas. Primeiramente, imprime o aumento de

um ativismo judicial, ainda que a complementação da norma omissa esteja incluída no bojo

da atuação jurisdicional ampliada, em prol da harmonização dos poderes, aplicando-se o

princípio da separação dos poderes nos moldes da teoria norte-americana (checks and

balances).

Contudo, a tomada de posições positivas pelos julgadores de qualquer esfera do

Poder Judiciário é de difícil aceitação, em grande parte pelos reticentes magistrados

arraigados pelo mesmo legalismo normativista já mencionado.

Trata-se de mudança cultural dos operadores jurídicos, dificilmente assimilada

pela simples positivação do instrumento proposto por Barroso no corpo do texto

constitucional. Há que se criar mecanismos para sua implementação, sob pena de tornar-se

letra morta.

Assim, estar-se-ia expurgando do cenário jurisdicional instrumento constitucional

ativo para a integração dos direitos não regulamentados, potencializando, para tanto, as

atribuições dos magistrados.

Subseqüentemente, embora o juiz natural esteja mais perto do caso concreto

podendo melhor integrar a norma faltante em busca da efetiva justiça, sob critérios de

proporcionalidade e razoabilidade, a dispersão das integrações normativas das omissões

inconstitucionais levaria irremediavelmente à pluralidade e contrariedade de decisões

semelhantes e, por conseguinte, à insegurança jurídica. Obviamente o intuito do legislador

ao incluir na Constituição instrumento de tutela jurisdicional da inércia legislativa

concentrada nos Tribunais, competência a depender do órgão omisso ou da matéria a ser

legislada, buscou extirpar o problema gerado pela proposta de Barroso.

Todavia, há que se fazer uma ressalva. Não se busca neste trabalho, mitigar o

esforço do constitucionalismo brasileiro. Quer-se, igualmente, aliá-la à revalorização do

instrumento do mandado de injunção, em prol da máxima efetividade das normas

constitucionais, mormente dos direitos fundamentais de eficácia limitada porque carentes de

regulamentação ulterior, sob o corolário do princípio da vedação do retrocesso.