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8.7 Verbos ditransitivos

8.7.4 A proposta de Hale e Keyser

Como vimos anteriormente na seção 4.2.3, p. 28, Hale e Keyser propuseram um pro-grama de pesquisa em que a interpretação temática dos argumentos resulta das relações es-truturais internas ao constituinte em que eles figuram: “Argument structure is determined by properties of lexical items, in particular, by the syntactic configurations in which they must appear.”, Hale & Keyser (2002, p. 1).20 Segundo tal proposta, a teoria temática torna-se re-dundante como módulo gramatical independente. Para a implementação técnica do seu projeto, H&K ampliaram a proposta sintática de Larson, aplicando-a à projeção argumental de itens lexicais em geral, não apenas à de verbos.

Nesta seção abordaremos certos aspectos da teoria de H&K que dependem de soluções

18A diferença quanto ao ano de publicação da tese de Marantz (1981 para mim e 1984 para Larson) se deve a que minha citação referencia o texto originalmente publicado.

19“A posição tomada em Chomsky (1955/1975) pode ser sustentada, creio, por argumentos paralelos aos dados em Marantz (1984) em favor da alegação de que é o VP que atribui um papel-θao sujeito da sentença principal, e não simplesmente V.”

20“A estrutura argumental é determinada por propriedades dos itens lexicais, em particular, pelas configura-ções sintáticas em que eles devem figurar”.

sintáticas ao estilo da concha larsoniana e também analisaremos as representações por eles propostas para as estruturas de duplo-objeto e de duplo-complemento.

Hale e Keyser afastam-se do lexicalismo chomskiano ao propor que os princípios que regem a formação lexical são os mesmos que dirigem a derivação sentencial. Para H&K a estrutura interna de um item lexical é formada sintaticamente: “The verbcough. . . consists of two elements: a root and a verbal nucleus”, Hale & Keyser (2002, p. 2).21. O verbo, assim, é a configuração sintática, composta de uma raiz e de um núcleo. Entretanto H&K distinguem a sintaxe da derivação lexical da sintaxe da derivação sentencial, contrariamente à proposta da Morfologia Distribuída,

Segundo H&K, a fonologia de um constituinte é formada pela operação deconflation:

“Conflation consists in the process of copying the signature of the complement into the p-signature of the head, where the latter is ‘defective’.”22 Hale & Keyser (2002, p. 63). Nesta definição,assinatura-psignifica “assinatura fonológica”, e ela édefectivase é vazia ou se é um afixo, necessitando completar-se com a assinatura-p do complemento. Portanto,conflationé um fenômeno fonológico. Deve-se ter em conta queconflationé uma operação entre núcleos, uma vez que a “assinatura-p do complemento” é, de fato, aassinatura-p do núcleo do complemento.

Ou seja, conflation é também uma operação que ocorre sintaticamente, provocada por uma cadeia de núcleos (em sentido larsoniano). Além disso,conflationé uma operação de cópia, e não de movimento de material fonológico.

Portanto, o programa de pesquisa de Hale e Keyser vai muito além do modelo sintá-tico de Larson.23 A contribuição fundamental dos dois autores à teoria da linguagem, como entendo, consiste em demonstrar a viabilidade de: (a) determinação dos papeis temáticos a partir de configurações estruturais de constituintes; (b) formação sintática da estrutura interna de constituintes lexicais; (c) formação da fonologia de constituintes por meio de cadeias de núcleos.

Um caso típico de aplicação do aparato técnico de H&K é a representação da estrutura de duplo-complemento, mostrada no diagrama a seguir (Hale & Keyser 2002, p. 161) .

21“O verbocough. . . consiste de dois elementos: uma raiz e um núcleo verbal.”

22“Conflation consiste do processo de copiar a assinatura-p do complemento na assinatura-p do núcleo, em que a última[assinatura-p]é ‘defectiva’”

23Embora o modelo sintático de Larson esteja na base das realizações de H&K. Tem-se a impressão de que Larson não levou o seu modelo às consequências naturais, que seria a formação lexical por meios sintáticos, como o fizeram Hale e Keyser.

CAPÍTULO 8. ESTRUTURAS ATIVAS 132

V

V P

DP1

theme

P

DP2

goal P

to (8.25)

A solução de H&K é isomorfa à de Larson, com uma diferença: o núcleo mais baixo é uma preposição, enquanto que para Larson é V. Este não é um mero detalhe, sob o ponto de vista dos dois autores. Para eles, P é um núcleo que necessariamente projeta a posição de especificador,24

25 enquanto V projeta apenas complemento. Assim, P aparece sempre em colaboração com V quando se trata da geração de uma estrutura biargumental abaixo de V, que é o caso dos verbos ditransitivos. A verbalização de preposições tornou-se um dos mais importantes recursos da análise sintática após H&K.

Para a geração da estrutura de duplo-objeto, porém, a teoria de H&K enfrenta um contratempo: para obterem-se a sequência pronunciada e as relações de c-comando adequadas entre os argumentos internos, a estrutura verbal deve apresentar a forma exibida no próximo diagrama (Hale & Keyser 2002, p. 160).

24Para H&K, adjetivos, Adj, também projetam especificadores, com o apoio de outros núcleos, mas não nos deteremos neste ponto, no momento.

25Para Larson, PP não é um constituinte que requer um especificador; deste modo, a solução de Larson para a estrutura de duplo-complemento é estritamente binária.

V

V P

DP1

goal

P

DP2

theme P

(8.26)

Entretanto, como P é um núcleo fonologicamente nulo, deve necessariamente haverconflation entre ele e o núcleo do seu complemento. Este resultado é incorreto para a estrutura de duplo-objeto, em queDP2não incorpora.

Tal fato leva H&K a proporem a estrutura do próximo diagrama para a estrutura de duplo-objeto (Hale & Keyser 2002, p. 163).

V

V1 V

DP V

V2 V

DP1

bottle

V

DP2

baby V3

give (8.27)

Nesta solução,V3(give) estabelece com seus argumentos a mesma relação estrutural existente entre P e seus argumentos, na construção de duplo-complemento. A sequência pronunciada é

CAPÍTULO 8. ESTRUTURAS ATIVAS 134 obtida após (a) movimento de núcleo, em quegive, sucessivamente, move-se paraV2eV1, e (b) DP2(baby) é alçado à posição do especificador deV2, “. . . verbo[que]deve estar presente para permitir[este]movimento e lá aparece somente por esta razão”, p. 164.

A estrutura de duplo-objeto de H&K mostra a grande vitalidade da composição de núcleos proposta por Larson: três núcleos verbais aparecem em sucessão (V1, V2eV3). Entre-tanto, a solução deixa várias questões em aberto: (a) como surgem especificadores para núcleos verbais (que, para H&K, somente projetam complementos)?; (b) de que modoDP2(baby) pode mover-se para DP? A proposta parece ser extremamentead-hoc.

Deve-se, porém, observar que as soluções de H&K para os dois tipos de verbos di-transitivos (de duplo-objeto e de duplo-complemento) são independentes entre si: não há uma estrutura mais primitiva da qual a outra é derivada por transformação, como propuseram an-teriormente Chomsky e Larson. A solução de H&K, assim, é imune à crítica de que as duas estruturas apresentam diferenças semânticas inconciliáveis.