4.2 Teorias da formação argumental
4.2.3 Hale e Keyser
Diferentemente das duas propostas anteriores, Hale e Keyser (H&K) partem do prin-cípio de que a estrutura argumental de um item lexical resulta de suas propriedades estruturais, projetadas diretamente na sintaxe, e não do seu significado. Assim, a formação argumental não é resultante de estruturas semânticas (como as grades temáticas ou as estruturas de even-tos) projetadas sobre estruturas sintáticas por meio de algoritmos especiais, mas de princípios que restringem as propriedades estruturais: “During the course of our investigations, we have become persuaded that the proper representation of predicate argument structure is itself a syntax. That is to say, as a matter of strictly lexical representation, each lexical head projects its category to a phrasal level and determines within that projection an unambiguous system of structural relations holding between the head, its categorial projections, and its arguments (specifier, if present, and complement)”, Hale & Keyser (1993, p. 53).8
Esta proposta é posteriormente aprimorada em:
(a) “The term ‘argument structure’ is used here to refer to the system of structural relations holding between heads (nuclei) and their arguments within the syntactic structures projected by nuclear items.”, Hale & Keyser (2001, p. 11).9
(b) “These assumptions delimit a certain project: that of ascertaining the extent to which the observed behavior of lexical items is due to structural relations, rather than to the interac-tion of structure and some other component.” Hale & Keyser (2002, p. 1).10
Considerada a época da proposta inicial (1993 e anos imediatamente anteriores), H&K ofe-reciam uma visão lexicalista alternativa à da teoria dos Princípios e Parâmetros de Chomsky (1981), eliminando a teoria temática como módulo independente da gramática. Em consequên-cia, a proposta de H&K implicitamente questiona o próprio conceito de estrutura profunda (deep structure, DS). Deve-se observar que Hale & Keyser (1993) surge simultaneamente ao texto inicial da proposta minimalista de Chomsky (1993b), sendo ambos os artigos original-mente publicados em Hale & Keyser (Edts.) (1993). Assim, tanto H&K quanto Chomsky lan-çam, ao mesmo tempo, as bases para o questionamento da estrutura profunda como nível de representação linguística.
Para Hale & Keyser (2002, p. 13), há duas relações fundamentais de estrutura argu-mental:
8“Durante o curso de nossas investigações, nos tornamos persuadidos de que a representação adequada da estrutura argumental de um predicado é ela própria uma sintaxe. Isto significa dizer, no que concerne a uma repre-sentação estritamente lexical, que todo núcleo lexical projeta sua categoria sobre um nível frasal [sintagmático] e determina internamente a essa projeção um sistema não-ambíguo de relações estruturais existentes entre o núcleo, suas projeções categoriais, e seus argumentos (especificador, se houver, e complemento).”
9“O termo ‘estrutura argumental’ é usado aqui para referir o sistema de relações estruturais existentes entre heads(nuclei) e os seus argumentos nas estruturas sintáticas projetadas por itens nucleares.”
10“Estas suposições delimitam um certo projeto: aquele de averiguar a extensão segundo a qual o comporta-mento observado dos itens lexicais se deve a relações estruturais, ao invés de à interação entre estrutura e algum outro componente.”
(a) Núcleo-complemento (head-complement): Se X é o complemento de um núcleo H, entãoX é a única irmã deH (X eH c-comandam um ao outro);
(b) Especificador-complemento (specifier-head): SeX é oespecificadorde um núcleoH, e seP1é a primeira projeção deH(i.e.,H0, necessariamente não-vazia), entãoX é a única irmã deP1.
Assim, H&K desenvolvem a abordagem gerativista em que as relações sintáticas são estabelecidas por meio das relações entre núcleo, complemento e especificador.
As relações argumentais fundamentais, segundo H&K, permitem diretamente derivar as estruturas lexicais exibidas no próximo diagrama, em que “Headrepresenta o núcleo e suas projeções categoriais, eComprepresenta o complemento [eSpecrepresenta o especificador]”.
Tais estruturas lexicais serão por nós designadasconfigurações estruturais básicas:
a. Head
Head Comp
b. Head
Spec Head
Head Comp
c. Head*
Spec Head*
Head* Comp
d. Head
(4.1)
As configurações estruturais básicas apresentam as seguintes características:11
(a) O núcleo toma um complemento mas nenhum especificador, projetando a estrutura denominada “monádica”;
(b) O núcleo projeta uma estrutura composta de duas relações, núcleo-complemento e especificador-núcleo, formando o “tipo diádico básico”;
11Nas análises do restante da seção, as letras a, b, c, d serão utilizadas para designar as configurações estruturais mostradas no diagrama.
CAPÍTULO 4. IDEIAS FUNDAMENTAIS 30 (c) O núcleo desta configuração “requer um especificador mas exclui um complemento”.
O núcleo em questão é denotado por Comp, que projeta o especificador Spec com a ajuda de um outro núcleo, Head; a condição auxiliar de Head para a projeção de Spec é indicada pelo asterisco, tendo-se assim Head∗;
(d) Um núcleo que não projeta complemento nem especificador, correspondendo ao “tipo atômico, o mais simples”.
De acordo com H&K, as configurações estruturais básicas são neutras com relação a categorias morfossintáticas (V, N, etc.): “we will assume that morphosyntactic category and structural type are independent variables in the grammar of lexical projections”, p. 14.12 Entretanto, em inglês, predominantemente, mas não necessariamente, as estruturas realizam-se do seguinte modo (p. 13): (a) V; (b) P; (c) A; (d) N. Portanto: V projeta apenas complemento; P projeta especificador e complemento; A projeta especificador, mas somente com a participação de um outro núcleo; N não projeta estrutura argumental.
A forma como uma estrutura é pronunciada depende, em certos casos, da operação de conflation, “um processo importante da morfologia do inglês”: “. . . the process according to which the phonological matrix of the head of a complement C is introduced into the empty pho-nological matrix of the head that selects (and is accordingly sister to) C”, p. 12.13 Por exemplo, a fonologia do verbocough/tossir, cuja derivação é parcialmente representada no diagrama a se-guir, é obtida porconflationda matriz fonológica nula do núcleo V com a matriz fonológica da raizcough. A operação deconflationé concomitante aoMerge(como esta operação é definida em Chomsky (1995)) do núcleo com o complemento.
V
V R
cough (4.2)
A proposta de H&K apresenta dificuldades para diferenciar a estrutura transitiva (lexical) da inacusativa. Para os dois autores, um verbo é um operador monádico (de tipo (a)), fato que permite a formação de verbos inergativos, como laugh, e incoativos alternantes, como clear, como é ilustrado no diagrama abaixo (Hale & Keyser 2002, pp. 15 e 16).
12“Assumiremos que categoria morfossintática e tipo estrutural são variáveis independentes na gramática das projeções lexicais”.
13“. . . o processo de acordo com o qual a matriz fonológica [componente fonológico] do núcleo de um comple-mento deCé introduzida na matriz fonológica vazia do núcleo que seleciona (e é portanto irmã de)C”.
V
A estrutura-base para derivação dos verbos incoativos-alternantes é de tipo (c), em que a posição de especificador é projetada pelo adjetivo, A, e não pelo núcleo verbal, V. Como V é de tipo (a), e a estrutura de tipo (b), em que o núcleo projeta Spec e Comp, é realizada por preposições,14 o paradigma de H&K não apresenta uma configuração estrutural básica adequada à formação das estruturas transitivas, fato que leva a um tratamento de certo modo complexo de tais estruturas.
A este tema voltaremos posteriormente.
Fundamentalmente minha proposta difere da de H&K em dois importantes elementos:
(a) a operação de conflation não ocorre de modo imediato, no exato momento do Merge do núcleo com o complemento; a formação fonológica, no modelo que proponho, é executada por um processo postergado, executado por operações pós-sintáticas; (b)conflationatua não apenas no caso de núcleos de fonologia nula; a operação se aplica de modo mais geral, com núcleos dotados de fonologiadefectiva, isto é, que requerem complementação fonológica. Ademais, no modelo que proponho, um item lexical não projetadiretamente uma estrutura argumental, como as quatro configurações estruturais básicas de H&K; a formação argumental se passa de um modo mais indireto, como veremos no restante do trabalho — ficam assim solucionadas as dificuldades enfrentadas pelos dois autores para a representação das estruturas transitivas.
H&K são responsáveis por grandes avanços técnicos: propuseram uma implementação puramente sintática da projeção argumental de um item lexical. Ademais, mostraram, por meio da operação de conflation, que a formação da fonologia lexical de um item complexo (como os verbos denominais e tantos outros) se processa a partir da relação entre um núcleo e o seu complemento, seguida, exclusivamente, de operações fonológicas realizadas em uma cadeia de núcleos (por movimento ou, alternativamente, por cópia, uma questão em aberto).
A presente investigação se inscreve no programa de pesquisa inaugurado por Hale e Keyser; os resultados aqui apresentados muito devem às propostas dos dois autores.
14Embora H&K deixem em aberto a possibilidade de estruturas com Spec e Comp serem projetadas por quais-quer categorias lexicais, os dois autores efetivamente apenas consideram tais projeções como decorrentes de P, sobretudo para os dados do inglês. No estudo que fazem das estruturas transitivas (Hale & Keyser 2002, pp.
43–45), os verbos pertencem sempre ao tipo (a) e as preposições ao tipo (b).
CAPÍTULO 4. IDEIAS FUNDAMENTAIS 32