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A proposta de “Seqüências Didáticas (SD)”

3. OS GÊNEROS TEXTUAIS E O PROCEDIMENTO “SEQÜÊNCIAS DIDÁTICAS”

3.2 A proposta de “Seqüências Didáticas (SD)”

50 alfabetização refere-se mais especificamente ao simples domínio individual sobre a aquisição de códigos, sobre a capacidade de decodificar a escrita e sobre a habilidade “mecânica” para se produzir um texto, o conceito de letramento é bem mais amplo no sentido de que condiciona essa habilidade individual ao seu uso dentro das práticas sociais de leitura e escrita existentes no contexto social onde o indivíduo está inserido, sempre ligada com as práticas sociais de interação oral. O domínio dos gêneros pode possibilitar ao indivíduo, conforme Soares (2002), não só saber ler e escrever, mas exercer práticas sociais de leitura e escrita que circulam na sociedade em que vive, conjugado-as com práticas sociais de interação oral.

51 maneira mais adequada numa dada situação de comunicação” (Schneuwly e Dolz, 2004:97).

A metodologia de seqüências didáticas elaborada pelos autores da escola de Genebra tem a seguinte estrutura básica:

Figura 2: Esquema da Seqüência Didática. (Schneuwly e Dolz, 2004:98)

A apresentação da situação tem como principal objetivo apresentar um projeto coletivo de produção de um gênero oral ou escrito. Através dela, os alunos tomam conhecimento de qual gênero será abordado, como, por exemplo, a apresentação de uma receita de cozinha, que fará parte de um livro de receitas elaborado pela turma. É sugerido que nesta fase inicial os alunos leiam ou sejam expostos a um (ou mais) exemplos do gênero visado.

Ainda sobre apresentação da situação, deve-se estabelecer a quem se dirige a produção (colegas, pais, turmas da escola, etc), bem como qual forma assumirá a produção (gravação de áudio ou vídeo, folheto, cartaz, livro, etc) e quem participará da produção (todos os alunos, alguns alunos). Por fim, é necessário também que seja feita uma preparação dos conteúdos dos textos que serão produzidos.

Em seguida, ocorre a produção inicial, momento onde os alunos elaboram um primeiro texto oral ou escrito, revelando para si mesmos e para o professor a representação que possuem desta atividade. A produção inicial é, portanto, de grande importância, porque permite que o aluno reflita sobre o gênero em questão e confronte-se com determinadas dificuldades (e facilidades) na produção do mesmo, descobrindo o que já sabe fazer e conscientizando-se dos problemas que encontrou.

Apresentação

da situação Módulo

1

Módulo 2

Módulo n PRODUÇÃO

INICIAL

PRODUÇÃO FINAL

52 Por outro lado, o professor tem na produção inicial do aluno um instrumento que lhe fornece importantes informações a respeito das capacidades iniciais de cada aluno, isto é, da sua compreensão atual do que vem a ser o gênero trabalhado, assim como das suas possibilidades de construção tanto em termos de conteúdo textual como de escolhas lingüísticas.

Conforme Schneuwly e Dolz (op. cit), este efeito de conscientização resultante da produção inicial pode ser ampliado através de uma série de maneiras, como discussão em aula sobre desempenho de alguns alunos, troca de textos escritos entre os alunos, reescuta de gravação dos alunos que produziram o texto oral, etc.

Conforme será descrito na metodologia do presente estudo, uma das atividades de pós-tarefa foi justamente a socialização das críticas produzidas por cada aluno em grupos de 4 ou 5 participantes, objetivando em especial essa tomada de consciência sobre outras possibilidades em relação ao gênero, não usadas pelos alunos na sua produção inicial.

Passada a etapa de produção inicial, chega-se à fase de módulos nas seqüências didáticas. Os módulos têm como finalidade trabalhar os problemas que apareceram na primeira produção e fornecer aos alunos os instrumentos necessários para superá-los (Dolz e Schneuwly, 2004:103). Durante os módulos, a produção de um gênero é decomposta em etapas menores, em níveis mais simples. A seqüência didática segue, portanto, um movimento que vai do complexo para o simples.

É sugerido que se realize uma variedade de atividades que tenham como objetivo aumentar o acesso do aluno às noções e aos instrumentos pertinentes ao gênero em questão. Tais atividades podem ser, por exemplo, a observação e análise de textos, buscando colocar em evidência certos aspectos do funcionamento textual. O aluno pode, desta forma, observar e apropriar-se destas noções, de modo que essa consciência facilite e contribua para o enriquecimento da sua produção seguinte.

Além da observação e análise de textos, podem-se realizar, na fase de módulos, tarefas simplificadas de produção de textos. Neste caso, a idéia é concentrar-se mais particularmente em algum aspecto preciso da elaboração de um texto. Por exemplo, reorganizar o conteúdo de uma descrição narrativa, ou então inserir uma parte que faltava em um dado texto. Mais precisamente no caso desta pesquisa, separar aspectos considerados importantes no gênero crítica de filme e trabalhá-los

53 isoladamente – embora isso não signifique que o texto final será compartimentado e linear. Assim, poder-se-ia focar em um módulo determinadas maneiras de realizar narrativas, focando nos tempos verbais, que normalmente ocorre no presente em críticas de filmes.

Nos módulos, portanto, os alunos constroem progressivamente conhecimentos sobre o gênero, preparam-se para fazer, na produção final, o movimento inverso, isto é, do simples para o complexo.

A produção final é o momento de colocar em prática as noções e os instrumentos elaborados separadamente nos módulos. É a oportunidade de o aluno, agora munido de maior entendimento acerca do gênero, elaborar uma versão mais complexa ou rica do gênero visado.

As Seqüências Didáticas, em função da perspectiva de etapas que vão capacitando o aluno a usar determinado gênero textual, possibilitam uma avaliação do tipo somativo, isto é, o aluno encontra em aula os elementos que servirão de critérios de avaliação. Os módulos podem fornecer elementos que farão parte de uma grade avaliativa que, por ser conhecida explicitamente pelos aprendizes, torna-se mais válida e justa. Ela permite ao professor desfazer-se de critérios subjetivos e comentários alusivos, não compreendidos pelos alunos. Ao realizar a produção final, o aluno busca atender aos critérios que vão sendo apresentados e construídos ao longo dos módulos.