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A proposta do Poder Legislativo: Lei nº 12.871

1. Introdução

5.3. Contextualização e Formulação da Política do Programa Mais Médicos

5.3.2. A proposta do Poder Legislativo: Lei nº 12.871

A Lei n. 12.871 foi homologada em outubro de 2013 e instituiu definitivamente o Programa Mais Médicos. O desenho final da política se mantém substancialmente em relação à autorização para o funcionamento de cursos de medicina e ao Projeto Mais Médicos para o Brasil. Entretanto, houve mudança radical no que se refere à formação médica. Para melhor compreensão da política, serão focadas, aqui, as mudanças ocorridas no Programa após aprovação no Congresso Nacional.

Em relação à autorização para funcionamento de cursos de medicina, foi instituído que, além de Instituições de Ensino, unidades hospitalares podem abrir cursos de graduação de medicina desde que possuam certificação como hospitais de ensino, residência médica em no mínimo dez especialidades e mantenham processo permanente de avaliação e certificação da qualidade de seus serviços1.

Para a autorização e renovação de autorização de cursos de medicina, foram acrescentados critérios de qualidade para as Instituições de Ensino no Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES): exigência de infraestrutura adequada, acesso a serviços de saúde, clínicas ou hospitais com as especialidades básicas indispensáveis à formação dos alunos e metas para corpo docente em tempo integral, para titulação acadêmica de mestrado e doutorado e para a capacidade de desenvolvimento de pesquisa e produção acadêmica.

Foram acrescentados também critérios em relação aos municípios onde os cursos de medicina serão ofertados. Será considerado para o município e região a relação do número de habitantes por médicos, a rede de cursos de graduação na área da saúde e programas de extensão que atendam à população em vulnerabilidade.

A grande mudança no desenho da política foi no capítulo Formação Médica no Brasil. O segundo ciclo que acrescentava mais dois anos na formação do médico para o exercício pleno da profissão, em atividades na Atenção Básica, gerou forte resistência das entidades médicas, como também das instituições e entidades de educação médica. Esta proposta, neste formato, não foi apresentada nem debatida nos espaços de discussão sobre provimento e formação de profissionais de saúde para o SUS e foi questionada até pelos setores mais progressistas dentro da educação médica, principalmente pela terminalidade da formação do médico na graduação de seis anos.

Diante deste cenário, a proposta do segundo ciclo foi reconsiderada e a Lei n. 12.871 instituiu alterações importantes para a graduação, residência médica e implementou o Contrato Organizativo da Ação Pública Ensino-Saúde (COAPES).

Para a graduação de medicina, foi instituída a obrigatoriedade de no mínimo 30% da carga horária das atividades do internato serem desenvolvidas na Atenção Básica e em serviços de urgência e emergência do SUS. Foi instituída também avaliação, a cada dois anos, dos cursos de graduação de medicina com o objetivo de avaliar conhecimentos, habilidades e atitudes. Para estas alterações na graduação, o Conselho Nacional de Educação (CNE) teve prazo de 180 dias para apresentar a resolução com as adequações necessárias às diretrizes curriculares nacionais da graduação de medicina1.

Em relação à residência médica, foi instituído que as vagas de acesso direto*, anualmente, devem ser equivalentes ao número de egressos de cursos de medicina do ano anterior, isso significa universalização das vagas de residência que deve ser implementada, gradualmente, até dezembro de 2018. Para tanto, o aporte nas vagas se dará a partir do incremento dos Programas de Residência Médica em Medicina Geral de Família e Comunidade (PRMGFC), com vagas complementares nas seguintes especialidades: genética médica, medicina do tráfego, medicina do trabalho, medicina esportiva, medicina física e reabilitação, medicina legal, medicina nuclear, patologia e radioterapia1.

Foi estabelecido, também, que o primeiro ano do Programa de Residência em Medicina Geral de Família e Comunidade será obrigatório para o ingresso nas seguintes especialidades: clínica médica, pediatria, ginecologia e obstetrícia, cirurgia geral e psiquiatria. E, para as demais especialidades, será obrigatório um ou dois anos na medicina geral de família e comunidade, a ser regulamentado pela Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM).

Isso torna o PRMGFC especialidade raiz e a formação na Atenção Básica comum a todos os médicos, independente da especialidade, o que contribui para a quebra de paradigma do cuidado fragmentado, uma vez que está previsto no currículo do PRMGFC contemplar especificidades do SUS, como a atuação nas áreas de urgência e emergência, atenção domiciliar, saúde mental, educação popular em saúde, saúde coletiva e clínica geral integral em todos os ciclos de vida.

Além disso, a residência de medicina de família e comunidade passa a ser coordenada pelo Ministério da Saúde, como também poderá receber complementação financeira da bolsa-formação. Foi instituída, também, avaliação anual específica para cada Programa de Residência Médica a ser implementada pela CNRM.

A Lei n. 12.871 implementou o Contrato Organizativo da Ação Pública Ensino-Saúde (COAPES), que objetiva reordenar a estrutura de serviços de saúde como campo de prática suficiente e adequado para as atividades de integração ensino-serviço. Para isso, o Contrato deve garantir acesso a todos os estabelecimentos assistenciais sob a responsabilidade do gestor da área de saúde

* Refere-se às especialidades em que o médico pode se inscrever sem exigência de especialidade prévia.

como cenário de práticas para a formação no âmbito da graduação e da residência médica e estabelecer responsabilidades e contrapartida entre os gestores do SUS e as Instituições de Ensino1.

Em relação ao Projeto Mais Médicos para o Brasil, foi adicionado um módulo inicial de acolhimento e avaliação com carga horária mínima de 160 horas. O módulo abordará conteúdo relacionado a: legislação, funcionamento e atribuições do SUS, notadamente da Atenção Básica; protocolos clínicos de atendimentos preconizados pelo Ministério da Saúde; língua portuguesa; e código de ética médica. A participação do médico no Projeto está condicionada à aprovação no módulo1.

O período de participação do médico intercambista no Projeto continua sendo de três anos, com a dispensa de revalidação do diploma e exercício da profissão exclusivamente no âmbito do Projeto, porém tornou-se obrigatória a revalidação do diploma para renovação das atividades no Projeto por mais três anos.

O Ministério passa a emitir o número de registro único para o médico intercambista participante do Projeto, o que o habilitará para o exercício da Medicina no âmbito do Projeto, não sendo mais necessária a emissão pelo Conselho Regional de Medicina. Entretanto, esse ainda é responsável pela fiscalização do exercício profissional; para isso, o MS fica responsável de comunicar a lista de médicos vinculados ao Projeto em cada Estado e seus respectivos números de registro. A fiscalização do exercício da profissão é exclusiva do Conselho Regional de Medicina. A atuação e a responsabilidade do supervisor e do tutor acadêmico, para todos os efeitos de direito, são limitadas à atividade de supervisão acadêmica e suporte pedagógico.

Foi acrescentada, também, na Lei n. 12.871, a regulamentação referente ao PROVAB. Desta forma, instituiu-se que médicos que desenvolvessem pelo menos um ano de atividades de aperfeiçoamento na Atenção Básica receberão pontuação adicional de 10% (dez por cento) na nota de todas as fases ou da fase única do processo de seleção pública dos Programas de Residência Médica. Dessa maneira, fortaleceu o PROVAB, que até então era legislado apenas por portarias ministeriais, arrefecendo as resistências a esse programa.

Também foi incluído na Lei que a atividade de preceptoria em serviços do SUS integraria as diretrizes de avaliação na carreira docente das Instituições de

Ensino Federais, o que representa valorização e fortalecimento da integração ensino-serviço. Ainda foi assegurada implementação de medidas para formação de preceptores de residência médica.

Por fim, foi acrescido o limite de número de estrangeiros participantes no PMM em no máximo 10% do número de médicos brasileiros com inscrição definitiva nos Conselhos Regionais de Medicina (CRMs). Foi estabelecido, também, prazo de cinco anos para adequação da infraestrutura e fornecimento de insumos de qualidade nas unidades básicas de saúde do SUS. Além disso, foi assegurada a representação judicial aos supervisores e tutores pela Advocacia Geral da União (AGU), o que garantiu respaldo aos colaboradores do PMM.