• Nenhum resultado encontrado

A ONG Gemas da Terra surgiu oficialmente em esfera posterior ao trabalho que já vinha sendo realizado junto às comunidades do Vale do Jequitinhonha desde 2001 com a missão de transferir poder para as comunidades rurais através do acesso à Internet.

A iniciativa partiu de um engenheiro e pesquisador nascido em Minas Gerais, residente nos Estados Unidos há cerca de 14 anos, que atuou como pesquisador em computação avançada para a NASA por mais de uma década. Para iniciar a proposta dos telecentros comunitários, mudou-se para São Gonçalo do Rio das Pedras, onde teve início

o envolvimento de um grupo de ―pessoas interessadas em trazer a tecnologia de

informação para as comunidades rurais, no sentido de fortalecer e promover o desenvolvimento sustentável e os valores democráticos‖20.

20

Extraído de: <http://www.gemasdaterra.org.br/docs/EvolucaoProjetoPiloto.pdf>. Acesso em: 20 de maio 2004. No decorrer dessa pesquisa o site da ONG Gemas da Terra foi totalmente reformulado sendo transformado em um portal onde usuários cadastrados, inclusive os voluntários, são motivados a inserir conteúdos de interesse para as comunidades locais.

Nesse período vários distritos, sub-distritos e povoados da região foram abordados inicialmente para participar da proposta de implementação de projeto piloto de telecentros comunitários, tendo sido escolhidos os distritos de Conselheiro Mata, São Gonçalo do Rio das Pedras, Milho Verde, Tombadouro e Rodeador por já possuírem uma estrutura mínima de mobilização através de representações comunitárias significativas.

Datam de setembro de 2003 a criação oficial da ONG, bem como o funcionamento do primeiro telecentro no distrito de São Gonçalo do Rio das Pedras. Em nota sobre a criação desse primeiro centro de inclusão digital da região, o diretor de programas da ONG Gemas da Terra declarou que

a pequena comunidade rural do interior do Brasil ingressou no mundo digital. A partir de agora, aquela pequena comunidade poderá viver em sintonia com o que acontece no mundo, atualizar seus conhecimentos, treinar seus jovens, preparar suas crianças, apoiar seus empreendedores, ter acesso às tecnologias agrícolas mais avançadas, comunicar-se com o poder público, conhecer os planos de desenvolvimento perpetrados por seus representantes legislativos, comunicar-se com seus entes distantes, preservar sua cultura digitalmente e ter condições de sair da marginalidade a que estava confinada no processo de desenvolvimento cultural do país.21

O objetivo principal do projeto piloto, segundo o diretor executivo da ONG ―é desenvolver uma metodologia de criação de telecentros livres nas comunidades rurais brasileiras. Esta metodologia será transformada em um manual [...] respeitando os

conceitos do software livre‖, conforme consta no site da organização22 .

A missão do projeto piloto é facilitar a inclusão digital dos distritos em questão promovendo o acesso à informação, além de constituir-se base experimental para se estenderem os benefícios da proposta às demais regiões rurais de até 2.500 habitantes em

21

Extraído de <www.gemasdaterra.org.br>. Acesso em 21 de jan. 2004.

22

todo o solo brasileiro, a partir da criação de centros regionais para irão apoiar as ações de expansão. Nas palavras do diretor executivo da ONG, ―nosso sonho é integrar todas as pequenas comunidades rurais do Brasil na Rede Gemas da Terra de Telecentros

Comunitários‖. (Figueiredo, 2004, p. 2). Segundo a filosofia que rege a proposta,

procurou-se estabelecer a visão de um país totalmente inserido na era do conhecimento e integrado ao grupo de nações socialmente e economicamente justas.

Cabe ressaltar que o conceito de comunidades rurais adotado pela ONG não deve ser entendido como o meio agrícola que a denotação rural sugere. Na verdade, a definição da Rede Gemas da Terra sobre o que vem a ser uma comunidade rural é apresentada pela entidade em um dos documentos online divulgados pela ONG, ao creditar às regiões que possuem menos que 50 mil habitantes e uma densidade populacional abaixo de 80 habitantes por km², a denominação de rurais. Municípios com populações acima desse limite e possuindo até 100 mil habitantes, podem ser chamados urbanos, ainda que mesclem as características rurais com as urbanas. O diretor esclarece ainda que

alguns defendem a definição de zona rural de uma forma subjetiva, entrelaçada ao estilo de vida rural. As organizações governamentais em todo o mundo tendem a definir o rural como tudo aquilo que não se encaixa na definição de urbano. [...] A Rede Gemas da Terra entende que as comunidades que mais necessitam de seu apoio são aquelas mais afastadas das ações do poder público. A entidade considera como tipicamente rural, as comunidades com menos de 2500 habitantes e fisicamente afastadas da zona urbana, formando estas o seu foco de atuação.23

A ausência de ações do poder público junto a esses distritos é descrita como a

motivação da proposta, já que ―essas comunidades não têm autonomia política e são

controladas pelos municípios a que pertencem. Nessas comunidades a presença

23

governamental é mais deficiente e mais fraca são as suas ações‖, explica. O trabalho da

ONG pretende identificar as características locais e inserir essas comunidades no contexto tecnológico, mas sem desmistificar os valores da região e nem a cultura dos habitantes dos distritos e povoados. Para tanto, torna-se imprescindível participação das comunidades na promoção e manutenção da proposta.

Como a maior parte das ONGs, o projeto Gemas da Terra recebe o apoio de vários parceiros. A conexão de Internet banda larga via satélite para os telecentros foi fornecida pelo Governo Federal através do programa GESAC. A UNESCO também figura entre os colaboradores através da doação de 10 mil dólares para aquisição de equipamentos em quatro telecentros, além de apoiar a publicação de um guia que resume toda a metodologia de criação de telecentros comunitários baseados em software livre pela Rede Gemas da Terra.

Entre prováveis futuros colaboradores da proposta estão a Caixa Econômica Federal que, através de sua diretoria em Brasília, está buscando o apoio da entidade para fornecer computadores usados para o projeto piloto, além de procurar viabilizar a contratação de gestores dos telecentros como correspondentes bancários da Caixa. Almeja- se também a efetivação de parceria com o Banco do Brasil, para doação de computadores usados por essa instituição e que são destinados a ações de inclusão digital.

Outro apoio importante, já no âmbito das comunidades onde acontecem os projetos piloto refere-se à Associação Pro-Fundação Universitária do Vale do Jequitinhonha, a Funivale, uma ONG que presta serviços de apoio às comunidades da região há cerca de 14 anos. Mais especificamente nos distritos focos desta pesquisa, as associações comunitárias se tornaram parceiras imprescindíveis para o desenvolvimento da proposta já que, respectivamente a Associação Comunitária Sempre Viva e a Associação Cultural e

Comunitária de Milho Verde abrigam fisicamente os telecentros nos distritos São Gonçalo do Rio das Pedras e Milho Verde.

A idéia de uma sociedade global voltada para a era da informação deixando à margem comunidades como os distritos do Alto Jequitinhonha motivou a criação dessa estrutura de inserção rural em busca de participação mais efetiva e capaz de propiciar aos distritos beneficiados melhores condições de vida. A iniciativa de se disponibilizar às comunidades rurais do Vale do Jequitinhonha o acesso à informação mostra que seu uso — na visão de seus idealizadores — é tido como ferramenta apta para a conquista de melhores condições de vida para a população. Promover sua integração aos movimentos globais de inclusão digital e social, apoiar a construção da cidadania, o empreendedorismo e propiciar a fixação do homem no campo constituem tarefa árdua que precisa de apoio coletivo em sua concretização.

Por outro lado, sabe-se que a utilização do ferramental tecnológico a ponto de se

alcançar esse nível de ‗sintonia‘ entre a comunidade rural e contexto de rede global não é

tarefa tão simples. Atingir o patamar esperado, bem como a perícia necessária para se encontrar o que realmente se necessita no emaranhado da Internet, é uma questão muito mais complexa, que extrapola os limites da pura e simples disponibilização do aparato tecnológico. Caso contrário, a cultura-mundo pensada a partir dos mesmos parâmetros da globalização econômica, segundo Marteleto e Ribeiro (1994, p. 532), acaba por incutir

informações em resposta num vazio simbólico, econômico, político e tecnológico [... onde] o novo olhar da informação — seu estudo e suas práticas de gestão e disseminação — deverá estar orientado por um foco que lhe permita entender que por detrás dos processos tecnológicos de transferência da informação existem atores, relações e práticas sociais. (Ibidem)

São questões que envolvem o ensino e o uso de técnicas próprias, apoio operacional, disponibilização de técnicos e educadores comunitários, suporte,

monitoramento e avaliação constante da proposta visando à sua sustentabilidade. Tais aspectos foram considerados durante a coleta e a análise dos dados desta pesquisa.