3.4 O CONTROLE E A ECONOMIA POLÍTICA DO PODER
3.4.2 A Proposta
Argumenta FARIA (2003e, p. 09) que
O objetivo principal da Economia Política do Poder, ao mostrar as formas como as organizações definem e implementam seus mecanismos de controle a partir da interação de instâncias ocultas e manifestas que se operam em seu interior, é responder dois propósitos que constituem sua práxis: o primeiro é de natureza teórico-metodológica; o segundo, é de natureza prática, porquanto deve permitir desvendar e expor os mecanismos de poder em organizações com o intuito de subsidiar os sujeitos em suas ações políticas de resistência e de enfrentamento.
A Economia Política do Poder propõe a adoção das sete instâncias de análise (mítica, social-histórica, institucional, organizacional, grupal, individual e pulsional) para identificação das formas de controle (física, social, de resultados, democracia, vínculos libidinais, saturação, dissuasão). Porém, vale ressaltar que a utilização da matriz teórico-metodológica não deve limitar-se a esse esquema, buscando verificar também outras instâncias ou formas de controle que porventura se manifestem, para uma contínua sofisticação da matriz (FARIA, 2003e).
Dessa forma, tem-se então que a Economia Política do Poder é uma
Concepção interdisciplinar que procura englobar concepções oriundas da ciência econômica, da ciência política, das ciências sociais, da história e da psicossociologia com a finalidade de estudar as relações de poder nas organizações do ponto de vista da Teoria Crítica (...) A definição da Economia Política do Poder como um esquema teórico-metodológico remete a uma construção epistêmica e não a uma metodologia propriamente dita, pois que se trata de uma estruturação analítica que procura recobrir os diversos campos em que se fundamenta a vida organizacional e não uma forma de vê-la. (FARIA, 2003e, p. 10)
Pode-se afirmar que o grande diferencial nessa abordagem é a utilização das instâncias de análise. Isso porque ao utilizar uma abordagem psicanalítica, está-se
levando em consideração que as organizações, em sendo constituídas de pessoas, está inevitavelmente sujeita a processos psíquicos (pois o ser humano é dotado não apenas da razão, possui também uma dimensão inconsciente, a qual possui um papel relevante nas ações dos sujeitos).
Ora, ao utilizar conceitos psicanalíticos (tais como pulsões, recalcamento, inconsciente, imaginário, ideal de ego, entre outros) nas análises organizacionais que desenvolve, a Economia Política do Poder reconhece a complexidade do ser humano e da sociedade humana. Dessa forma, adota-se uma disciplina (a psicanálise) relevante porém repetidamente ignorada na teoria organizacional, uma disciplina que busca apreender não apenas o facilmente observável, aquilo que é visível e exposto, mas principalmente observar aquilo que não é dito, o obscuro, o inominável, o que nunca está sob os projetores da mídia (ENRIQUEZ, 1990). Em outras palavras,
É preciso revelar em que medida as organizações definem seus mecanismos de poder e de controle, incorporando o que não pode ser dito e o que se reproduz em seus porões, ao que é possível falar, ao que pode ser manifesto às claras, de maneira a criar um mundo ao mesmo tempo de racionalidades (de regras, objetivos, políticas, processos produtivos, planos, estratégias, etc.) e de (inter)subjetividades (símbolos, ritos, imaginários e mitos), com seus paradoxos e contradições. (FARIA, 2003e, p. 09)
Portanto, a partir das formas de controle elencadas por ENRIQUEZ (1990) e adaptadas por MOTTA (2000), FARIA (2003e) retrabalha os conceitos e estabelece uma classificação que entende ser mais adequada. Assim, tem-se que as formas de controle, após os ajustes para enquadramento na matriz teórico-metodológica da Economia Política do Poder atuariam então em três níveis interdependentes: o econômico, o político-ideológico e o psicossocial.
O nível econômico diz respeito às relações de produção, notadamente quanto à propriedade e posse; o nível político-ideológico refere-se à superestrutura construída a partir das relações de produção, sua institucionalização, inclusive no âmbito do Estado e seus aparelhos e de todo o aparato jurídico, tendo como suporte um sistema de idéias capaz de conferir legitimidade às ações; já o nível psicossocial diz respeito às relações entre os sujeitos, sejam estes individuais ou coletivos, inseridos nos processos produtivos e políticos (FARIA, 2003e).
Tendo em vista que a organização objeto deste estudo trata-se de uma organização não capitalista, onde inexiste a figura do lucro (e portanto há ausência de extração de mais-valia), o nível de controle econômico não foi alvo da análise. A seguir apresenta-se as formas de controle para os demais níveis. Vale lembrar que cada nível apresenta formas diferentes de controle, que por sua vez compõem-se de vários processos de controle, sejam objetivos ou subjetivos29.
Os elementos do nível político-ideológico remetem a relações de dominação, que por sua vez referem-se tanto ao despotismo e às suas manifestações (disciplina e hierarquia), quanto à transmissão ideológica e à alienação do trabalhador. Tem-se então nesse nível quatro formas de controle:
a) controle hierárquico-burocrático: onde a estrutura hierárquica separa os agentes por níveis de competência, habilidades, responsabilidade e autoridade, cindindo assim os funcionários entre administradores e administrados, estabelecendo também um sistema de normas e regras;
b) controle disciplinar: estabelece uma disciplina que tem como função punir e reprimir através de micropenalidades, criando-se um sistema de punições e recompensas para garantir a obediência, docilizando assim os corpos, favorecendo o surgimento de um processo de auto-disciplina dos sujeitos;
c) controle por transmissão ideológica: é o campo privilegiado da ideologia e encontra-se estabelecido no sistema formal (jornais, treinamentos, entre outros) e informal (discursos) que inculca no funcionário idéias, valores, objetivos alheios a ele mas que no entanto devem ser internalizados;
d) controle por alienação: atua tanto no sentido de destituição material (privação do trabalhador do controle e produto de seu trabalho) como no campo psicológico, uma destituição psíquica que leva a um seqüestro da subjetividade, uma alienação psicológica.
29 As explanações que serão realizadas a seguir sobre níveis, formas e processos de controle foram baseadas em FARIA (2003e). Trata-se de explanações sucintas, apenas para situar a questão, uma vez que na exposição dos dados os controles serão melhor explicitados em sua relação com o real na organização estudada.
Já no nível de controle psicossocial é onde se joga primordialmente com o subjetivo dos sujeitos, é o campo privilegiado das manipulações sutis e psicológicas, uma vez que as organizações modernas reconhecem a existência e a importância da subjetividade e buscam canalizá-las para seus objetivos. O nível psicossocial é composto de sete formas de controle:
a) controle físico: domínio do corpo do sujeito ou do grupo social, agindo através da violência, da exploração, de concessões ou de impedimentos, de permissões e de proibições, de definição de (ocupação de) espaços e de movimentos, de delimitação de tempo e de natureza do trabalho. O controle físico se manifesta na divisão social e técnica de trabalho, na vigilância, nas formas de relacionamento social (trajes, atitudes, posturas);
b) controle normativo: é o conjunto de regras, normas e dispositivos formais e também as regulamentações não explicitadas mas entendidas pelos sujeitos como definidoras de condutas que regem a ordem organizacional. Define tanto os procedimentos burocráticos, com suas atribuições de autoridade e responsabilidade, como as convenções que geram obediência e aceitação por imposição de natureza moral ou defensiva;
c) controle finalístico ou por resultados: busca garantir o cumprimento da finalidade econômica e política da organização, sua ação material, seus resultados, através do estabelecimento de metas e objetivos e da criação de compromissos, especialmente aqueles que configuram sentimentos de cumplicidade;
d) controle compartilhado ou participativo: busca da legitimidade da ação, através da construção e da manutenção de ideologias e de procedimentos tidos como éticos, seja pelo envolvimento do conjunto dos participantes no processo decisório, seja pelo estabelecimento de sistemas de comando centralizados ou representativos. Evidencia-se nas formas de definição das estruturas de gestão (inclusive no que se refere à composição dos cargos e funções administrativas), na definição dos planos e das estratégias de ação;
e) controle simbólico-imaginário: diz respeito aos processos de adesão imaginária, ao desenvolvimento de modelos de comportamentos considerados como referências, às formas de competição interna, às crenças e suposições concretas ou fictícias, às adesões representadas por reconhecimento ou prestígio, à instauração de aparelhos de intervenção que funcionam pela ameaça do uso da força e por demonstrações de domínio dos aparatos coercitivos sem necessidade de utilizá-los, pelos discursos conciliadores, pela valorização de símbolos representativos de sucesso ou de fracasso a qual deve guiar as atitudes esperadas;
f) controle por vínculos: buscando o estabelecimento de laços entre funcionário e organização, tenta a implantação de um projeto social comum, atuando através de contratos formais ou psicológicos, dos interesses e das necessidades, do amor, da libido, da identificação subjetiva ou inconsciente, da expressão de confiança nos desígnios da organização, das transferências egóicas e do fascínio;
g) controle por sedução monopolista: caracterizado pela implantação do discurso único, pela coesão primária (grande família, colaboradores), pela realização de um poder sem projeto, que uniformiza e monopoliza o discurso e a censura, retirando dos grupos e dos sujeitos sua voz e sua existência e tornando-os apáticos, submissos, conformados ou totalmente crédulos e confiantes na condição monopolista dos dirigentes enquanto detentores das melhores alternativas de condução da organização.
Os níveis de controle, suas respectivas formas e seus processos (objetivos e subjetivos) podem então ser visualizados esquematicamente no quadro 1. Ressalte-se que os processos de controle em ação nas organizações entrelaçam-se em uma relação dinâmica e contraditória, ou seja, não se trata de processos estanques e isolados.
Desse modo, a apresentação dos níveis e formas de controle em um quadro analítico tenciona tão somente uma descrição e apresentação visual.
QUADRO 1 – NÍVEIS, FORMAS E PROCESSOS DE CONTROLE NAS ORGANIZAÇÕES
Uma vez estabelecidos os alicerces teóricos essenciais da pesquisa, apresenta-se a apresenta-seguir os dados coletados, bem como sua interpretação à luz do arcabouço teórico, epistemológico e metodológico utilizado. Vale lembrar que a exposição dos dados será acompanhada por considerações teóricas, objetivando relacionar real e teoria.
4 CONTROLE FÍSICO
O controle físico manifesta-se na organização através de quatro processos distintos, quais sejam: divisão do trabalho, manipulação de atitudes e comportamentos, horário/vigilância e somatização de sofrimentos psíquicos.