• Nenhum resultado encontrado

4.1 DIVISÃO DO TRABALHO

4.1.1 Ritmo de Trabalho

4.1.1.1 Trabalho externo

A própria natureza do tipo de trabalho realizado nos plantões nos Postos Fiscais, caracterizada pela obrigatoriedade legal de serem fiscalizados todos os veículos que estejam transportando cargas30 (ou seja, legalmente não é permitido fiscalizar em PF por amostragem), aliada ao reduzido contingente de funcionários trabalhando nos Postos Fiscais em relação à sua lotação considerada ideal, torna a

30 Com efeito, o parágrafo segundo do artigo 47 da Lei n. 11.580/96 determina a obrigatoriedade da parada em postos de fiscalização de veículos de carga e qualquer outro veículo que esteja transportando bens ou mercadoria, ou seja, todos os veículos devem ser fiscalizados, o que na prática é sabidamente impossível.

fiscalização nesses locais algo extremamente penoso aos funcionários plantonistas31. Como explana um entrevistado:

Não dá para trabalhar (...) O Posto “X” [PF classe A], que precisa no mínimo de oito pessoas, tem quatro, o Posto “Y” [PF classe B], que precisa no mínimo de quatro, tem duas, tem postinho que precisa no mínimo de duas pessoas, tem uma (...) isso é falta de pessoal.

(E08)

Dessa forma, tendo em vista a freqüente situação na qual a quantidade de funcionários trabalhando em um plantão é insuficiente para executar toda a gama de atividades que o processos de trabalho da organização prescrita do trabalho exige, o ritmo torna-se acelerado. Convém lembrar ainda que o plantão em Postos Fiscais exige uma série de atividades administrativas, como lançamento do auto de infração (no caso de autuações), recolhimento dos valores autuados, preenchimento de relatórios com listagem de notas fiscais contendo Selo Fiscal, encaminhamento de ofícios relacionando notas fiscais de produtor, entre outros.

Tais atividades administrativas, somadas às atividades de fiscalização (inclusive a aposição de carimbos nas notas fiscais entregues pelos motoristas de caminhão) constituem um vasto processo de trabalho (conjunto de operações) que deve ser executado por um número limitado de funcionários e a conseqüência inevitável dessa inadequação é o aumento do ritmo de trabalho imposto aos auditores fiscais plantonistas. A respeito disso, diz um entrevistado que

No Posto Fiscal passam muitos caminhões e a metodologia de trabalho é carimbar tudo, então vamos pegar aquela música do Raul Seixas, carimbador maluco. (E11)

Outro entrevistado afirma que

O pessoal se preocupa um pouco [com o ritmo intenso] porque tenta fazer a coisa do jeito que tem de ser, mas (...) você acaba virando um carimbador. (E14)

31 Lembrando o exposto na seção 2.2.2.3 (ver tabela 4 à p. 15), a falta crônica de pessoal leva a uma taxa média de 53,40% de lotação efetiva nos PFs, ou seja, trabalha-se com cerca da metade do efetivo considerado necessário. Apenas a título de exemplo, o Posto Fiscal Querubino, um dos mais movimentados do estado, possui lotação ideal de 12 (doze) funcionários mas no entanto apenas 5 (cinco) trabalham no referido PF a cada plantão. (D15)

Dessa forma, a alta carga de trabalho nos Postos Fiscais impede que seja realizada uma fiscalização adequada e o resultado é a frenética repetição do ato de carimbar notas fiscais.

O fiscal que fica fazendo determinadas coisas como muito Posto Fiscal e muita Volante, esse é um trabalho que está exigindo esforço físico, esforço intelectual é muito pouco, muito pouco até porque a estrutura que é colocada a disposição ela não permite que você faça muita coisa, no fim você se torna um carimbador maluco, por mais que você queira, o movimento [de caminhões] é tão grande que não permite que você vá de forma mais profunda [que fiscalize adequadamente], que vá descobrir coisas. (E05)

Vale notar ainda que, de acordo com dados quantitativos, perto da metade (46,3%) dos funcionários acredita que os auditores fiscais, quando trabalham em Postos Fiscais, tornam-se meros “carimbadores” (Q20). No entanto, tal situação de ritmo intenso configura-se contraditória na medida em que, haja vista a enorme pressão e mesmo impossibilidade física de levar a cabo a organização prescrita, tem-se um desengajamento dos funcionários de seu trabalho: uma vez atingidas as quotas de produtividade no mês, muitas vezes alguns funcionários diminuem automaticamente o ritmo de trabalho e resignam-se. O ritmo intenso se transforma em esmorecimento.

No Posto Fiscal, no dia dez eles [os funcionários plantonistas] fecham as quotas, depois só levam em banho-maria. Lógico que aparece [situações que exigem trabalho], você não vai deixar passar, mas também não vai fazer esforço. (E08)

Situação semelhante ocorre nos trabalhos de Volantes. Caracterizando-se como “Postos Fiscais móveis”, tais trabalhos carregam a mesma obrigatoriedade de fiscalização de todos os veículos que transitam no trecho onde instalou-se a operação.

Apesar de inexistir aqui a figura do “carimbar nota fiscal”, legalmente tudo deve ser fiscalizado, o que leva à mesma impossibilidade prática existente no caso dos Postos Fiscais. Muitas das atividades dos PFs repetem-se nas Volantes, como lavratura de autos de infração e recolhimento de valores exigidos, conferência de idoneidade de documentos fiscais, entre outros. Uma vez que também nas Volantes é comum a alocação de poucos funcionários dada a demanda de serviço, o ritmo acelera-se.

O trabalho em Postos Fiscais é portanto caracterizado por um ritmo intenso, que leva muitas vezes os funcionários plantonistas a tornarem-se meros carimbadores de notas fiscais. Com efeito, para que o trabalho não emperre, usualmente recorre-se ao que DEJOURS (1999a) chama de “quebra-galhos”32, como por exemplo limitando-se a carimbar a maioria das notas fiscais aprelimitando-sentadas e realizando a fiscalização propriamente dita (confronto da documentação fiscal com a carga que está sendo efetivamente transportada) apenas em alguns casos. Ora, sabe-se que o recurso ao quebra-galho configura uma transgressão e, por mais que seja algo banal, sempre implica em um risco de punição. Para um entrevistado, o auditor fiscal lida com isso

Se estressando. Ele faz aquilo que é possível e sabe que está correndo um risco (...) essas valas [note-se o termo que o entrevistado utiliza para referir-se ao trabalho precário nos Postos Fiscais] acabam criando pessoas que querem se esconder na organização, escondem-se em um escondem-setor qualquer, está cheio por aí, as pessoas estão escondem-se escondendo. (E11)

A angústia da transgressão é resultado da necessidade prática em se desrespeitar certas regras e normas para que o trabalho possa ser executado. Nesse aspecto, os chefes e gerentes encontram-se em uma situação contraditória pois, ao mesmo tempo em que devem fazer valer as leis da organização, são obrigados em certos momentos a incentivar a prática de quebra-galhos (DEJOURS; ABDOUCHELI;

JAYET, 1994, p. 98). A Receita Estadual não escapa a essa contradição:

32 A respeito da noção do quebra-galho, cabe aqui uma certa digressão: Para DEJOURS (2001), nenhum tipo de trabalho pode evitar a defasagem entre a organização prescrita e a organização real do trabalho, seja qual for o grau de precisão dos métodos utilizados, pois é impossível prever tudo antecipadamente. Dessa forma, sempre haverá um desvio entre o que as normas e regras exigem (organização prescrita do trabalho) e aquilo que os trabalhadores efetivamente precisam realizar para desempenhar suas atividades (organização real do trabalho). Nesse sentido, seguir rigorosamente as normas e regras acaba por emperrar o trabalho (eis a noção da operação padrão ou operação tartaruga). Assim, o trabalho somente flui se os funcionários, por conta própria, utilizam-se de macetes, truques, quebra-galhos, enfim, quando se antecipam a problemas em seu trabalho. “Em outras palavras, o processo de trabalho só funciona quando os trabalhadores beneficiam a organização do trabalho com a mobilização de suas inteligências, individual e coletivamente”. (DEJOURS, 2001, p. 56) Mas isso somente é possível, continua o autor, à margem dos procedimentos, ou seja, infringindo certas normas e regras estabelecidas pela organização prescrita do trabalho. Assim, a inteligência somente pode ser usada de modo semiclandestino. É por isso que o funcionário, para desempenhar bem a sua tarefa, tem de enfrentar certas angústias, pois não apenas tem de infringir regras, mas deve fazê-lo sem muito alarde. Na Receita Estadual, no exemplo aqui utilizado do Posto Fiscal, isso significa o funcionário fiscalizar apenas certos veículos, utilizando critérios a partir de sua própria intuição e experiência, o que sempre incorre em um certo risco de estar deixando impune uma vultosa infração e assim ser questionado e/ou punido pelas chefias.

Aí quando você respeita exatamente aquelas regras que foram colocadas ali, as próprias regras engessaram a máquina e aí vê-se que ela não funciona e o próprio gestor tem de insistir, volta e meia, para que se descumpra determinada regra para que a coisa possa andar um pouquinho, aí começa a gerar contradições, e é o momento que a gente vive. (E04)